Boa ou ruim? Pouco importa: She-Hulk abala as estruturas das séries Marvel-Disney

Séries de comédia protagonizadas por advogadas não são lá grande novidade. Que o digam Ally McBeal (1997-2002) e Drop Dead Diva (2009-2014), apenas para citar dois exemplos que marcaram época. Agora, levar ao ar uma comédia estrelada por uma advogada com superpoderes, isso sim é novo e, até mesmo por esse motivo, Mulher-Hulk: Defensora de Heróis  (She-Hulk: Attorney at Law) está fazendo barulho e abalando as estruturas das séries Marvel-Disney.

Longe do modelo de história de aventura – com pitadas maiores ou menores de humor –  que marca as demais séries de herói lançadas no serviço de streaming (como Cavaleiro da Lua, Gavião Arqueiro, Miss Marvel, Loki, Wanda Vision), a atração iniciada em agosto de 2022 aposta no modelo declarado de comédia, o que está dividindo bastante o público.

Em tempos em muita gente adora “lacrar” e outras tantos enxergam “lacração” em tudo, há quem inclusive veja no seriado um excesso de feminismo e até mesmo misandria. Sim, essa palavra existe, apesar de raramente ser usada, e é a versão masculina de misoginia. Misandria é a aversão ou desprezo pelos indivíduos do sexo masculino. Mas vamos por partes…

Dos quadrinhos para a telinha

She-Hulk estreou nas HQs em fevereiro de 1980, pelas mãos de ninguém menos que a dupla Stan Lee e John Buscema. Jennifer Walters é uma prima de Bruce Banner que foi muito próxima dele na infância. Jen queria ser dançarina, mas até mesmo por uma história complicada com um pai autoritário, deixou de lado a veia artística e tornou-se uma excelente advogada criminalista.

Em determinada ocasião, durante uma visita do primo (na qual ele desabafa sobre a dureza de ser o Hulk), ambos estão indo de carro para Los Angeles quando são atacados por um gangster envolvido em um caso no qual Jennifer estava atuando. Ferida, a garota perde muito sangue e Bruce decide fazer uma transfusão de sangue para salvá-la.

Junto com o sangue, Jen acaba recebendo os poderes de Hulk e se transforma em uma versão feminina do monstrengo, mas com uma grande diferença: ainda que esteja sujeita a explosões de raiva (que inclusive a tornam mais forte), ela mantém a inteligência e a personalidade de Jen Walters quando se transforma.

Com algumas diferençazinhas: como humana a advogada é mais introvertida e recatada, na pele de Mulher-Hulk ela é bem mais desinibida – inclusive sexualmente – e sem papas na língua.

Essa origem é mantida de maneira bastante fiel no seriado, ainda que o ataque ao carro onde os primos se encontram seja feito por uma nave interplanetária tendo Hulk como alvo e a transfusão de sangue ter sido reduzida a algumas gotas do líquido caindo de um ferimento de Hulk na pele de Jennifer.

O fato de manter a inteligência e uma relativa calma, porém, gera diversas piadas entre os primos na versão streaming – com Jen justificando que mulheres passam por mais situações onde têm que conter a raiva do que os homens e Bruce testando a prima e a treinando (boa parte destas piadas, inclusive, já foi liberada nos trailers do seriado, antes mesmo da estreia).

Nas mais de quatro décadas de quadrinhos, Mulher-Hulk passou por poucas e boas e já teve diversas fases diferentes. Sob a tutela de John Byrne (responsável por 60 edições de The Sensational She-Hulk ainda na década de 1980) ela foi pioneira em romper a quarta parede e fazer comentários irônicos e sarcásticos com o público leitor, muito antes de Deadpool – que estreou nos gibis em 1991 – se notabilizar por isso. 

Nos anos 2000, o roteirista Dan Slott apostou em histórias com Mulher-Hulk atuando como advogada em ações envolvendo super-heróis e supervilões, entre os quais diversos personagens secundários da Marvel. O seriado da Disney+ parece beber muito neste período.

Mas nem tudo é graça e alegria nas aventuras da personagem nos quadrinhos. Ela já enfrentou poucas e boas quando substituiu o Coisa no Quarteto Fantástico (em uma época em que a cada novo arco um integrante dos quatro originais saía, era substituído por alguém, voltava e assistia a um dos outros três repetir o mesmo processo).

Também venceu o Demolidor nos tribunais em um caso no qual o Capitão América era julgado por homicídio, e virou advogada intergaláctica. Sob controle mental de inimigos, chegou a casar com o filho de JJ Jameson (o casório foi anulado quando ela recobrou o controle) e até mesmo a rasgar Visão ao meio (na série Vingadores: A Queda).

CGI

Antes de falar mais do seriado, cabe relembrar aqui que ele esteve envolvido em polêmicas prévias à estreia por causa dos efeitos gráficos. Um vazamento de imagens maltratadas fez muita gente comparar o visual inicial de She-Hulk com o da princesa Fiona, da franquia Shrek.

O resultado final, porém, ficou bem mais aceitável, a ponto de – pelo menos – ninguém ficar se incomodando com isso na série (a exceção possível da atriz Tatiana Maslany, que precisa atuar em diversas cenas com macacão e capacete “de bolinhas”).

Mas se alguém ainda quiser reclamar do resultado, basta comparar com a tentativa de filme da Mulher-Hulk com Brigitte Nielsen nos anos de 1990 para ver que tudo podia ser pior. Bem pior. 

O seriado é comédia

Parte da razão que tem dividido os fãs ao assistir a série é um fato nunca escondido pela produção: She-Hulk é um seriado assumidamente de comédia.

É perfeitamente compreensível ficar chateado ao se ver um excesso de piadas quando se assiste ao fraco Thor Love and Thunder uma vez que esta não é – ou deveria ser – a proposta do filme do Deus do Trovão. Mas no caso da gigante advogada verde, a proposta é esta mesmo: fazer humor – ainda que não faltem lutas e cenas de ação. 

Assim, não há sentido em criticar a falta de aprofundamento dos personagens. Sim, eles são bastante unidimensionais e até caricatos, justamente por se tratar de uma comédia, e com episódios de duração curta, é bom frisar.

E, sim, a fórmula é mostrar “um caso” novo da advogada a cada capítulo, não havendo necessariamente nenhuma amarração entre eles em uma grande história… ainda que haja algumas pontas soltas que podem ser amarradas por um vilão mais à frente na temporada.

She-Hulk aposta ainda em outro ingrediente comum da fórmula (batida, ainda que funcione) dos sitcons de humor: convidados especiais. Lá estão Mark Ruffalo (Hulk), Bennedict Wong (o Wong, de Dr. Estranho), Tim Roth (Abominável) e Charlie Cox (do excelente Demolidor da Netflix, prometido para virar produto Disney+).

Além de toda esta galera do Universo Cinematográfico Marvel, para dar um boost extra ainda há surpresas como a rapper Megan Thee Stallion.

Feminismo, misandria ou nada disso?

A grande polêmica da série She-Hulk, porém, está no teor de algumas piadas e situações enfrentadas pela personagem vivida pela ótima Tatiana Maslany. Há quem enxergue nelas uma alta dose de feminismo e até mesmo de misandria.

Em um dos episódios, por exemplo, todos os homens com os quais a heroína se encontra numa tentativa de arranjar um namorado por aplicativo são extremamente toscos, idiotas, ridículos, nojentos ou todas as alternativas anteriores juntas.

Muita gente enxergou isso de maneira bastante ofensiva: então só existem homens assim? É desta forma que as mulheres enxergam o sexo masculino (ao menos na série), ninguém presta?

É curioso que estas pessoas revoltadas com o episódio não consigam enxergar a mesma cena como uma crítica aos aplicativos de namoro, que atraem este tipo de perdedor. Ou mesmo que não saibam conviver com uma comédia de estereótipos sem levar a piada para o lado pessoal…

Até mesmo porque, no mesmo episódio, Jen se interessa por um homem bonitão e com corpo de deus grego (e além de tudo, médico!) Porém, depois que passa uma noite com a heroína e acorda para encontrá-la em sua forma humana normal, o rapaz se desinteressa pelo que vê e sai de cena rapidinho. Uma decepção de Jennifer que… havia se interessado pelo solteirão também pelas características físicas chamativas dele! Ironia, verde é tua cor.

Concluindo

É fato indiscutível que não existe algo como um “humor universal”. Ou seja, nem toda piada funciona com tudo mundo. Portanto, claramente haverá alguns momentos em que o sorriso do público vai ser meio amarelo.

Mais ainda, talvez o tipo de humor da série não seja o seu tipo. Agora, daí a enxergar misandria é um longo – e forçado – passo. Talvez seja mais fácil acreditar que muitos homens já estão acostumados a rir do “humor machista” de séries como a ótima Two and a Half Men, mas não estão muito abertos a ver a metralhadora virada para eles…

Resumindo, She-Hulk cumpre o que propõe. Se é uma série boa ou ruim, são outros quinhentos, até porque essa resposta vai depender muito – com o perdão do trocadilho – do humor de quem estiver assistindo.

Independentemente disso, uma coisa é certa: Jennifer Walters abalou as estruturas das séries Marvel-Disney+ e será curioso ver o que virá a partir de agora. Inclusive o novo Demolidor com o já citado Charlie Cox – o ator declarou recentemente que o novo seriado será um reboot e não uma quarta temporada do excelente título da Netflix, agora absorvido pelo conglomerado mickeymousiano.  A conferir.

 

NOTA DO CRÍTICO: Vale a pena

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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