Sandman da Netflix: o Sonho acabou…e pisou na bola com Matthew, o corvo

Com os cinco episódios finais disponibilizados pela Netflix (e um extra adaptando o spin-off Morte: o alto preço da vida), o live action de Sandman chegou ao fim.  Prejudicado pelo cancelamento do autor Neil Gaiman (por denúncias de abuso sexual) e consequente enxugamento da série para apenas duas temporadas, Sandman ficou aquém dos quadrinhos dos quais foi adaptado, mas nem por isso foi ruim. Apenas poderia ter sido bem melhor.

Depois de uma primeira temporada muito boa, o retorno da série agora em 2025 – após três anos da conclusão da season inicial – deixou de fora diversas histórias, personagens e arcos das HQs. Ficou cristalino para os fãs da história original, portanto, que a afirmação de que “não havia conteúdo suficiente nos quadrinhos para mais que duas temporadas”, feita pelo showrunner Allan Heinberg depois que  as acusações a Gaiman vieram à tona, era realmente uma desculpa esfarrapada para não deixar claro a verdadeira razão do encurtamento: Gaiman ficou tóxico e o streaming achou melhor não dar margem para ser cancelado junto como escritor inglês.

Ainda assim, é preciso reconhecer o mérito da série ao -mesmo assim -ter conseguido fazer uma história coerente, pelo primazia nos efeitos especiais/CGI e cenários e pela escolha do elenco e boas atuações. Neste sentido, além dos acréscimos já citados dos atores Esme Creed-Miles (Delírio) e Barry Sloane (Destruição) no volume 1 da temporada 2, a escolha de Jacob Anderson (o eterno Greyworm de Game of Thrones) para interpretar o novo Sonho foi extremamente acertada.

Por outro lado, as adaptações de roteiro apresentaram equívocos não tão perdoáveis como as feitas anteriormente, pois mexeram com questões mais centrais da história. A principal delas, que deixou diversos fãs chateados, foi a desvalorização do personagem Matthew, o corvo. Nas HQs, Matt é um contraponto importante à rigidez dos modos de Sandman e é fundamental para que o Mestre dos Sonhos se questione.

Muitas vezes por meio de uma certa dose de sarcasmo, o corvo também tem diálogos fundamentais com habitantes do Sonhar e com o próprio Morpheus, que fazem com que o perpétuo reflita mais sobre as coisas ou revele um pouco mais da própria personalidade. Efetivamente, Matt acaba sendo o grande amigo de Sonho e é quem mais sofre com a morte dele.

No live action, porém, o corvo foi extremamente limado de histórias onde aparecia (ele acompanhava Delírio e Sonho em parte da busca por Destruição, por exemplo, o que não ocorreu no seriado), como foi inexplicavelmente trocado por outros personagens em diversas situações.

Era ele, e não Johanna Constantine, que acompanhava o pesadelo Coríntio na busca pelo bebê Daniel, o nas HQs gerou diálogos e cenas icônicas, além de uma amizade tensa e interessantíssima. A opção da série, porém, foi juntar Johanna (que, vale lembrar, nos quadrinhos é John Constantine e só aparece bem no comecinho da história acompanhando Sandman em busca do saco de areia perdido) e Coríntio na intenção clara de criar um par romântico que não tem razão de ser.

A impressão que fica é que algum roteirista criou a ideia engraçadinha de que todos os interesses românticos dele foram um pesadelo e resolveu usar o conceito em um punchline. E, para isso, precisava que alguém namorasse o Corintio…

Matthew também tinha um diálogo importante com Morpheus antes da morte dele, no qual Sandman falava ao corvo sobre as facetas diferentes de uma mesma joia e como muitas vezes alguém encara uma delas como se fosse o todo, mas que na verdade cada faceta é apenas uma parte visível.

O diálogo é importante porque metaforiza a morte (então vindoura) do o próprio Sandman, que uma vez morto é substituído por uma outra entidade que assumiu o nome de Sonho e as funções dele, ainda que tivesse personalidade, aparência e valores diferentes…uma faceta da mesma joia. Ou, como diz Abel no funeral (dos quadrinhos e não do seriado), o que morreu foi um ponto de vista.

De volta a Matthew, o corvo também deixou de falar no funeral de Morpheus na versão da Netflix e ainda foi substituído por Lucienne no final da série. Era ele, e não a bibliotecária, que orientava o novo Sonho sobre como se portar e o que esperar da reunião com os demais irmãos perpétuos.

Girl Power

Outras mudanças notáveis também envolveram Lucienne. Primeiro, a bibliotecária puxa a orelha  de Morpheus quando ele se diz entediado por estar “preso” no Sonhar. No original, o perpétuo não tem tédio algum, pelo contrário, ele passa todo o período administrando o próprio reino. A ideia de Morpheus ficar sem fazer nada é inclusive ilógica, pois vai na direção oposta a todo o discurso do senhor dos sonhos em relação às responsabilidades que ele tem.

Além disso, há a “nomeação” de Lucienne como “primeira ministra” do Sonhar por parte do novo Sonho. Isso simplesmente não ocorre na HQ original, onde há inclusive uma (bela) edição onde o “ex-Daniel” vai atrás de um novo conselheiro no mundo desperto.

A intenção aqui talvez tenha sido valorizar personagens femininas –  e ironicamente Lucienne no original é do sexo masculino, Lucien.  O mesmo processo de valorização ocorreu com Nuala, que já havia ganho um espaço e personalidade diferentes antes mesmo destes últimos episódios.

No original das HQs, por exemplo, era ela quem chamava Sandman para o reino das fadas no momento inadequado, e não a rainha Titânia. Além disso, enquanto Lorde Morpheus morria no Sonhar, Nuala abandonava o reino para vagar pelo mundo e não para tentar salvar o mestre dos sonhos.

Aliás, a cena em que Nuala corta a cabeça da versão sonho de Lyta é outra criada exclusivamente para a série. E, convenhamos, nada acrescenta a não ser dar mais espaço para a ex-fada.

Falando ainda em mulheres, também ficou muito estranho colocar Mad Hettie para proteger o corpo físico de Lyta “em troca de algumas centenas de anos de vida”. No original, essa função era de Thessaly (ou Larissa, nome que ela assume depois), bruxa e ex-amante de Morpheus, que realmente negocia mais alguns milênios de vida com as Fúrias em troca do favor.

Como o live action cortou por inteiro os seis capítulos do arco Um Jogo de Você e os personagens ali existentes, o remédio foi colocar Mad Hettie, a senhorinha que gosta de Morpheus, tem vida longa por conta própria e nunca faria o tal acordo…

E também sobrou para ela cuidar de Barnabás, o cachorro perdido de Delírio, que na HQ é encontrado por um velhinho delirante. Há que se destacar neste trecho uma mudança cuti-cuti: se no original Delírio procurava o cão acompanhada por um pesadelo educado criado pelo irmão, aqui ela tem a companhia da fofíssima gárgula Goldie, para alegria geral da nação.

Loki e Puck

Cabe registrar ainda outra mudança estranha envolvendo Loki e Puck. Não, ninguém vai falar aqui deles terem sido transformados em um casal gay, esse fato até foi uma sacada inteligente – lembrando que o deus nórdico Loki, inclusive ,é historicamente de gênero fluído.

O problema aqui foi decidirem transformar o terrível Puck em uma amável pai potencial e protetor de uma criancinha inocente, o que não tem absolutamente nada a ver com o personagem. Mas vá lá: pelo menos essa adaptação casou com a história. Ainda que nada explique porque não deixaram o Corintio tirar os olhos de Loki para descobrir onde Daniel estava, uma das cenas mais impactantes e de justiça poética da HQ.

O veredito final

Tudo isso posto e balanceado nos pratos da Justiça, não dá para dizer de maneira alguma que Sandman é uma série ruim. Mas já que se trata de uma história sobre sonhos e cheia de metáforas, cabe usar uma aqui: o live action é como um sonho que começa muito bem, mas vai se esvaindo perto da hora de acordar.

Se a primeira temporada foi excelente, os dois volumes da segunda foram bons, mas baixaram a média total. Ou seja, uma série que era para ser no mínimo nota 9, caiu pra um sete. Reiterando: até que foi bom, mas poderia ter sido muito melhor.

 

NOTA DO CRÍTICO: Vale a pena

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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