Há uma razão para que a frase “O livro é melhor que o filme” ter se tornado um chavão: na maioria absoluta das vezes em que é usada, ela é verdadeira. É o que acontece quando se compara a série em quadrinhos ao seriado da Amazon Prime.
Não que as HQs sejam perfeitas. O último arco, Querida Becky (Dear Becky), 13º volume da série escrita por Garth Ennis, por exemplo, é perfeitamente dispensável. Lançado em 2020, oito anos depois da até então conclusão de The Boys em 2012 (o arco Metendo o Pé na Porta), Querida Becky se apresentou como um suposto epílogo ambientado 12 anos após a morte dos personagens principais.
O volume foi claramente uma tentativa (fraca) de chamar a atenção dos fãs para o seriado então recém-lançado em streaming. E nunca deveria ter sido escrito. Ainda que uma ou outra piadinha se aproveite, em especial as que envolvem a maturidade o relacionamento de Hughie Campbell e Annie “Luz-Estrela” January, a maior parte da história narrada por meio de um diário escrito Butcher não acrescenta nada, é uma clara forçação de barra.

Isso posto, diferentemente da HQ, o seriado The Boys já perdeu a mão antes mesmo de chegar ao final. Talvez pelo grande número de mudanças feitas em relação aos quadrinhos – como a morte prematura de Black Noir, a existência do filho do Patriota, Bryan (que nas HQs é morto “no parto”) e o tal composto V1, entre outras coisas – o roteiro aparenta ter ficado sem rumo.
Os capítulos dessa quinta e última temporada sofrem de uma falta de inspiração (ou objetivo) latente, a ponto de copiar piadas usadas por seriados quinze anos atrás. O autor do “plágio” foi o personagem The Deep/O Profundo (Chace Crawford) no episódio cinco.
Em conversa com Black Noir 2, ele mostra desconhecer um ditado popular em inglês (a intenção dos roteiristas comandados pelo showrunner Erick Kripke aqui era ressaltar de maneira divertida a limitação intelectual do personagem). Assim, em vez de dizer “It’s a dog eat dog world” – expressão que encontra sua correlata em português na “é um mundo cão” – Deep solta um “It’s a doggie dog world.” Algo equivalente a “é um mundo de cachorrinho.”

A piadinha é divertida e até ganhou memes de alguns fãs nas redes sociais. O único problema é que ela já foi utilizada pela personagem Glória Prichett (Sofia Vergara) em um capítulo da clássica série comédia Modern Family. A fala, que faz graça da colombiana Glória adaptar expressões para o jeito que ela as entende, foi ao ar em outubro de 2010, no episódio 6 da temporada (Halloween).
Aliás, copiar outras séries de sucesso – e aqui estamos falando de copiar mesmo e não das paródias inteligentes que The Boys faz tanto nas telas quanto em HQs – é mais regra que exceção nessa temporada. Um outro bom exemplo é a surra que Ryan (Cameron Crovetti) toma do Capitão Pátria (Antony Starr), por sinal única cena relevante do garoto nesta temporada até o momento – lembrando que ainda restam dois capítulos finais, previstos para serem disponibilizados esta quarta (13) e na próxima.
É impossível não assistir à cena levada ao ar no terceiro episódio sem notar que ela foi decalcada em cima de outra surra envolvendo pai e filho. Mais especificamente aquela que ocorreu em 2021 no episódio 8 da primeira temporada de Invencível, por sinal outra série de sucesso do catálogo da própria Amazon Prime, na qual Omni-Man espanca Mark sem dó.

O que nos leva a outro ponto central de The Boys. O uso da violência e do gore é marca registrada da série, seja nos quadrinhos ou no streaming. Contudo, o sentido dessa utilização sempre foi o de ilustrar a amoralidade e a violência dos personagens, de reforçar a falta de limites de seres superpoderosos que acaba descambando para a degeneração e a crueldade desmedida.
Nesta temporada, porém, a tática ficou tão repetitiva e desnecessariamente escatológica que parece ter virado obrigação. As cenas do gênero são tão recorrentes que perdem totalmente a capacidade de chocar a quem assiste.
Sim, ainda há momentos que fogem um pouco à banalização do recurso. A chacina causada por Soldier Boy (Jensen Ackles) usando o senhor Maratona (Jared Padalecki) para atravessar os corpos de diversos inimigos, por exemplo, além de remeter ao evento original que gera a série – o assassinato da namorada de Hughie por Trem A – é grotescamente divertida. Em especial pela presença de convidados especiais como Seth Rogen interpretando a si mesmo e por reunir Ackles, Padalecki e Misha Collins (como Malquímico), promovendo um revival trash do seriado Supernatural.

Porém como encontrar uma razão para se mostrar uma pessoa sangrando e colocando as tripas para fora analmente em testes de V1? Ou um super-herói aposentado que utiliza como arma uma sacola escrotal extensível, como se fosse uma mistura esdrúxula de chicote e maça medieval? Salsicha do Amor já havia explorado mais do que o suficiente esse humor quinta série…
E o que acrescenta ao roteiro uma cena pseudo-romântica na qual Luz-Estrela (Erin Moryarty) e Hughie (Jack Quaid) estão deitados no capô de um carro enxergando/atribuindo formas a nuvens e ela só relata estar vendo duversos pênis em cada uma delas? O próprio rapaz escocês ressalta que nunca viu Annie falar tanto sobre os genitais masculinos… nem o público, diga-se. Enfim, muita escatologia, gore e falas sobre sexo gratuitos, como se o show tivesse obrigação de colocar uma cota daquilo tudo a cada minuto. O resultado é que a maioria das cenas soa forçada, no estilo Welma da HBO.

Aliás, o roteiro desta temporada também está deixando a desejar. Ryan, tirando a já citada surra, mal aparece e ainda não disse a que veio. Mana Sábia, a suposta pessoa mais inteligente do mundo, deixa pistas óbvias para que sua traição seja descoberta e diz que tudo que dá errado fazia parte do plano, até que o Capitão Pátria consegue tomar o V1 e aí não há como disfarçar que as coisas deram errado (ou será isso também parte do plano?).
A fêmea, que no seriado virou Kimiko (Karen Fukuhara) passou a falar e não parou mais, e na maioria das vezes só fala besteira – algo que por sinal vai na linha totalmente contrária da personagem original e do amor puro que ela e o Francês sentem um pelo outro nas HQs.

Já Soldier Boy não decide se ama ou odeia o próprio filho, que agora aparentemente é um Deus invencível, exceto pelo fato de que o próprio Soldier Boy já demonstrou na frente de boa parte do elenco que ele mesmo tem o poder de anular os poderes dados pelo soro ao fazer isso com o Bombástico. Seria esse o final que aguarda o maluco fascistóide? Virar um ser humano comum?
Enfim, a quinta temporada parece ter dado vários passos em falso, para não dizer errados, até agora. Não, não foi tudo ruim – o episódio visto pelos olhos do cachorro Terror, que na HQ teve um destino bem diferente – foi muito bom. As atuações do elenco continuam boas, em especial a de Antony Starr, que faz do Capitão Pátria um dos vilões insanos mais interessantes de todos os tempos.

A questão então é saber se nesses dois últimos episódios as coisas vão voltar para os trilhos e se o final será bom e/ou digno das HQs, o que é impossível de prever. Até porque nelas boa parte dos personagens do streaming não existia (e nem o tal V1 que torna os Supers imortais) e os que existiam não seguiram o caminho do seriado – parte deles por ter morrido ou, em casos como de Black Noir, sobrevivido até os últimos instantes.
A dois capítulos do final, The Boys está voando às cegas e enfrentando turbulências. Mas um bom pouso ainda é possível. É torcer e esperar mais um pouco pra ver.
Post scriptum: sem spoilers, o penúltimo episódio, levado ao a no dia 13, deu uma melhorada em alguns quesitos. Entre os destaques positivos, vale a pena assistir ao musical do Ó Pai sobre o tipo de Jesus que o mundo precisa atualmente (dá para assistir pensando que foi feito por/para Donald Trumo…rs).
Mas ainda há derrapadas. Entre elas a justificativa ridícula para o apelido de Leitinho/Mother’s Milk. No seriado ele não toma o leite da mãe para manter os superpoderes (o que ocorre na HQ e explica plenamente o nome) e quem tem uma fixação por leite materno é o Capitão Pátria. Então, no streaming, o personagem releva uma suposta razão para o apelido, extremamente forçada, que envolve um pombo, em uma tentativa de discurso motivacional para Luz Estrela. E só pra constar, Ryan continua sumido…




Nah…The Boys – para mim – só pegou o que The Authority (do Warren Ellis e do Bryan Ritch) já tinha feito lá em 1999 e extrapolou. O gore, as piadas, as cenas +18…nada contra pegar algo que já existe e apresentar em outra roupagem (afinal, nada se cria, tudo se transforma) mas The Boys sempre me pareceu o choque pelo choque. Não vi (nem nos quadrinhos nem na série, que não passei do 4 episódio da primeira temporada) nada que justificasse os extremos que ela trás e, ao fim e ao cabo, ficava só a impressão de causar impacto é mais importante que escrever história boa. Em tempos onde influencers ganham relevância fazendo coreografias de 15 e garantem visibilidade apenas pelo numero de seguidores que tem e não pelo que podem agregar, The Boys me parece seguir a fórmula do “tudo pelo algoritmo”.