Ele tem mesmo a força…e a zoeira também!

Lançado em 4 de junho nos cinemas brasileiros, Mestres do Universo – ou “o filme do He-Man”, como já era esperado que ficasse conhecido – ainda está em cartaz em algumas salas de exibição do Brasil. Ainda bem, porque o longa estrelado por Nicholas Galitzine é muito bom e vale a pena ser visto. E, ao contrário do que muita gente pensa, não só pela galera que assistia ao desenho: quem nunca viu a animação dos anos de 1980 também está curtindo o filme.

A principal razão é que Mestres do Universo, ainda que seja bastante fiel ao desenho, tem como principal característica rir de si mesmo – e, por tabela, de uma série de lugares comuns presentes em inúmeros filmes e desenhos de herói.

É claro que quem via He-Man provavelmente vai aproveitar mais, até pelo elemento de saudosismo (é divertido ver no cinema pessoas dizendo “olha o Mandíbula” ou “esse Homem-Fera ficou demais” logo que os personagens aparecem na telona); Mas qualquer um cai na risada quando Esqueleto começa a descrever as características físicas do herói com entusiasmo um tanto excessivo ou quando o jovem Adam, vivendo no planeta Terra, age como – e passa por – maluco ao insistir que veio ainda criança de um mundo maravilhoso e desconhecido.

Aliás, eis aí um outro acerto do longa dirigido por Travis Knight: Mestres do Universo é, sim, uma história de origem, o que faz com que os não-iniciados sejam apresentados ao universo de Eternia. E aqui a sacada é inteligente: Adam, o príncipe que (!) trabalha em uma empresa de Recursos Humanos, começa o filme narrando (em circunstâncias que se revelarão bastante constrangedoras para ele) como veio parar na Terra ainda pequeno e se separou da Espada do Poder após um devastador ataque do vilão com cara de caveira.

 

Na sequência, viverá uma série de (hilárias) desventuras até encontrar a espada e, com a ajuda de Teela (Camila Mendes), voltar para a casa e lutar pela reconquista do planeta. Não sem antes de encontrar na academia o ainda musculoso Dolph Lundgren, que interpretou He-man em dois filmes lançados no final dos anos de 1980. Uma homenagem discreta, mas justa ao ator que ficou ais conhecido pelo papel do boxeador russo Ivan Drago em Rocky IV.

A odisseia do herói então se inicia e inclui a transformação no maior guerreiro de Eternia (o momento em que ele se transforma pela primeira vez, ainda mais com a dublagem original de Garcia Júnior, é memorável); recuperar o espírito de luta do povo (em especial de Mentor, interpretado por Idris Elba); e salvar aliados do jugo do mal enfrentando diversos inimigos em lutas que misturam coreografias bem feitas a movimentos totalmente cringe em slow motion, que arrancam boas risadas.

Elenco e trilha sonora de primeira

O elenco de Mestres do Universo foi bem escalado e manda muito bem. Galitzine, até então mais conhecido por filmes românticos como Um Ideia de Você, tem um timing muito bom tanto para ação quanto para comédia. Camila Mendes faz uma Teela bem convincente e Idris Alba é Idris Alba, é difícil achar um papel no qual ele não tenha um ótimo desempenho.

Também cabe destacar a brasileira Morena Bacarin como Feiticeira (assim como na maioria dos desenhos, ela não aparece muito, mas dá seu recado) e, em especial, Jared Leto como Esqueleto, garantindo uma interpretação histriônica digna do afetado e cruel vilão. Há quem diga, inclusive, que se trata da melhor atuação de Leto desde Clube de compras Dallas (2013).

O que, aliás, levanta a questão: é melhor assistir o filme dublado ou em inglês, para usufruir das vozes e interpretações originais? A versão brasileira está ótima com vozes de grandes artistas da dublagem como o já citado Garcia Júnior e Luiz Carlos Persy como Esqueleto. No desenho original em português era o saudoso Isaac Bardavid quem dublava o vilão e Persy (voz brasileira de Lord Voldemort, Gandalf e muitos outros) faz um excelente trabalho deixando a própria marca e ao mesmo tempo lembrando o trabalho anterior.

Já a versão em inglês é bem mais difícil de encontrar: a maioria das salas de cinema só oferece a versão falada em português. O conselho então é ver o filme dublado no cinema e em inglês quando sair no streaming… (sim, vale a pena assistir duas vezes!)

Ainda no quesito som, a trilha sonora vale a pena e está muito bem encaixada. Apenas para dar dois rápidos exemplos, quando Adam vive um momento de tristeza expressivo ainda na Terra a plateia é presenteada com uma versão instrumental mais clássica de Boys Don’t Cry (The Cure) que evolui para o rock original.

De outra feita, com direito a referência de cena de videoclipe com a breguice peculiar dos anos de 1980, entra em ação no momento perfeito um trecho de Princes of the Universe, do Queen. E, sim, claro, também estão presentes as tradicionais trilhas-vinhetas do desenho, ainda que atualizadas em alguns momentos.

Mais zoeira e mistério revelado

Apesar das boas cenas de ação e de combate, que incluem perseguição a bordo de naves modernosas com momentos que remetem a algumas batalhas de Starwars travadas em superfícies planetárias, o forte de Mestres do Universo é mesmo a forma bem-humorada de retratar (ou reconstruir) o universo de He-Man.

Nenhuma das (hoje notamos muito mais) bizarrices da animação escapa. Da tanga de couro que o herói usa como vestimenta ao “será que rola” romance com Teela; das poses com mão na cintura e jogando a cabeça para trás para rir de algo não tão engraçado às escapadas nada discretas de Adam para se transformar em He-Man, cujo visual é idêntico ao dele com exceção de roupas e pele e cabelos mais escuros. Nada passa impune pelos roteiristas.

Aliás, uma das melhores piadas do filme é a revelação do porquê do nome “He-Man”, cujo nível de ridículo sempre encafifou os fãs. “Ele-Homem”? Sinceramente, de onde vem isso? O filme responde de maneira eficiente, convincente e, claro, engraçada.

Ah, sim, os fãs do desenho com certeza passarão boa parte do tempo perguntando onde está um determinado personagem importante. Não se preocupe porque ele vai aparecer e, acredite, não vai decepcionar.

TRÊS pós créditos

Mestres do Universo tem três pós créditos e essa é uma informação importante, porque a maioria da plateia levanta após o segundo, achando que já acabou. O primeiro deles é clássico: um personagem aparece para falar da moral da história, assim como ocorria após o término de cada episódio da animação.  Lembrando que algumas das lições de moral do desenho não eram exatamente geniais e é claro que é claro que os roteiristas não iam deixar isso barato…

A segunda traz uma personagem querida de muitos fãs e que deverá estar presente na sequência já confirmada pela Amazon MGM Studios, que produziu Mestres do Universo em parceria com a Mattel. Apesar de no Brasil o filme ter atraído bom público (em menos de cinco dias em cartaz já haviam sido vendidos mais de um milhão de ingressos), é fato que a bilheteria não refletiu a qualidade do filme: ele custou US$ 170 milhões e arrecadou nos cinemas, até o momento, US$ 113 mi.

Mas a Amazon não está preocupada com isso, já que o longa é sucesso de crítica e o foco da produtora é outro: transformar Mestres do Universo em um grande sucesso no próprio serviço de streaming, o Amazon Prime Video.

Por fim, o terceiro pós-crédito dialoga diretamente com o final do filme, deixando portas escancaradas para o futuro e uma risada final inesquecível, mas que vem da tela e não da plateia.

Por fim…

…houve quem criticasse a mudança de gênero de Roboto (que agora é Robota) e uma certa coragem do Gato Pacato, muito fofo como filhote no início do filme e em versão tigre total quando reaparece na aventura. Bobagem. Robôs não tem exatamente sexo, mas a ideia de ser uma voz e personalidade feminina não prejudicaram em nada a personagem, cuja mudança de visual também é bem-vinda e faz sentido no roteiro.

Já Pacato permanece covarde até quando não pode mais sê-lo e o fato de não precisar do poder da espada para “se encontrar” só tornou o personagem mais interessante – até porque ele mesmo acaba justificando a posterior existência da armadura vermelha.

Tudo isso dito, é claro que Mestres do Universo não é isento de defeitos – o maior deles, talvez, seja a duração de mais de duas horas. O filme tem bom ritmo, mas há um ou outro momento que talvez fosse dispensável. Contudo, é inequívoco: este não só o melhor filme de He-Man já feito, como é uma ótima diversão!

NOTA DO CRÍTICO: Excelente

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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