Uma década atrás, o mundo deu início a uma comemoração diferente. A partir daquele ano de 2016, a cada mês de março apaixonados pelos quadrinhos começaram a promover exposições e atividades para celebrar a obra daquele que é considerado um dos maiores – se não o maior – quadrinista de todos os tempos: William Erwin Eisner, popularmente conhecido como Will Eisner.
A escolha do mês ocorreu em virtude da data de nascimento do autor, 6 de março de 1917, de modo que – inicialmente – passou a ser realizada a Will Eisner Week, sempre na semana que incluía a data do aniversário. Mas uma semana rapidamente se tornou pouco para honrar uma vida e obra tão grandiosa, de modo que as atividades se estenderam rapidamente para um mês ou, como dizem alguns, a Will Eisner Four Weeks.

Campinas é uma das cidades que dedica os trinta dias de março para celebrar o criador do Spirit (e do conceito de Graphic Novels, entre outras coisas) e neste ano a Gibiteca da cidade – localizada dentro da Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink” – tem programação mais do que especial.
“A programação reúne exposição, mostra bibliográfica, oficina, lançamento de publicação e roda de leitura, oferecendo ao público diferentes formas de contato com a obra de Eisner. É uma oportunidade tanto para os fãs de quadrinhos quanto para o público em geral conhecerem mais sobre a vida e carreira de um autor que tem uma contribuição imensurável no mundo das histórias em quadrinhos”, diz Márcio José Andrade da Silva, um dos idealizadores do evento no município.

Entre os destaques está a exposição Representar o outro: percursos em Will Eisner, que propõe uma reflexão sobre temas como memória, identidade e preconceito a partir de obras marcantes do autor. A visitação acontece até o dia 30 de março, das 9 às 17 horas.
O público também poderá conferir uma mostra bibliográfica com títulos do acervo da Gibiteca, além de participar de atividades formativas e de mediação de leitura. No dia 19 de março, especificamente, serão realizadas oficinas de histórias em quadrinhos e o lançamento da HQ “Pinóquio”, com o artista Lipe Diaz, em dois horários (10 horas e 14h30).

No mesmo dia, às 19 horas, haverá uma roda de leitura dedicada às Graphic Novels de Eisner – entre elas Faggin, o Judeu, que faz uma releitura do famoso vilão do livro Oliver Twist, de Charles Dickens. A intermediação da roda será feita pelo jornalista DJota Carvalho, criador do site MundoHQ, e pelo ator Ricardo Puccetti, presidente da Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob.
A Biblioteca Zink (e a gibiteca) fica na Avenida Benjamin Constant, 1633, no Centro – ao lado da Prefeitura – e todas as atividades são gratuitas
Quem foi Will Eisner?
Responsável por mudar os conceitos da chamada nona arte, apontado como o criador do viria a ser chamado de Graphic Novel, criador de um personagem descrito como “o Cidadão Kane das HQs” (The Spirit), primeiro autor a investir e defender publicamente o uso das HQs como ferramenta de Educação. Will Eisner, que morreu aos 87 anos em janeiro de 2005 – em decorrência de complicações de uma cirurgia no coração – era tudo isso e muito mais. Não à toa, o maior prêmio mundial dado anualmente a artistas gráficos de todo o planeta leva o nome dele: The Will Eisner Comic Industry Awards ou Eisner Awards.

Desde pequeno interessado em contar histórias, Eisner emplacou o primeiro personagem de sucesso quando tinha por volta de 20 anos, em 1937: Sheena, a Rainha das Selvas. Basicamente, era uma versão feminina e loira de Tarzan, que o autor publicava sob o pseudônimo de William Thomas.
Três anos depois e já assinando como “Will Eisner”, começou a se tornar conhecido internacionalmente com aquele que se tornou sua maior criação: The Spirit. O personagem revolucionou os quadrinhos na forma e no conteúdo. Nos desenhos, Eisner utilizou conceitos até então inéditos nas HQs: fusões, cortes, ângulos insólitos e uso de sombras. Era um mestre do branco e preto, criando noções de profundidade e claro e escuro com maestria.
Spirit também era inovador em seu conteúdo: um detetive que usava máscara, mas não tinha superpoderes, em cujas histórias o personagem principal era o comportamento humano. O herói, por vezes, sequer aparecia na HQ a não ser nos últimos quadrinhos, para fazer um comentário sarcástico/filosófico que resumia o espírito humano. “É importante dizer que não fiz o Spirit para se transformar em super-herói. No Spirit, o que realmente contava era o espírito das pessoas na época e eu estava mais interessado em histórias curtas”, dizia o autor.

Convocado para a II Guerra Mundial em 1942, Eisner foi solicitado pelo Pentágono para produzir histórias educativas aos soldados estadunidenses no front, bem como para ilustrar casos ouvidos e vistos no front. De volta da guerra, em 1945, o autor se interessou por estudar as HQs como ferramenta educativa e por utilizá-las desta forma. Indiretamente, isso causou o fim do Spirit no auge da popularidade do personagem, em 1952.
“Estava envolvido demais nas aplicações comerciais dos quadrinhos. Sempre acreditei que as HQs eram mais que diversão e na guerra eu entendi que elas poderiam ser uma ferramenta para ensinar. Continuei usando as HQs como ferramenta e (…) fiquei ocupado demais para fazer as duas coisas. Como estava mais interessado pela utilização da arte, larguei o Spirit”
O que com certeza foi motivo de decepção para os fãs da época, acabou gerando frutos de ainda maior magnitude que o Spirit. Entre eles, dois livros que são bibliografia obrigatória para quem quer entender ou fazer quadrinhos: Quadrinhos e Arte Seqüencial (1985) e Graphic Story Telling (1996). Também desenhou centenas de HQs educativas e várias autobiográficas, entre as quais No Coração da Tempestade e O Último Dia no Vietnã.

Criou, por meio de sua fundação, um prêmio que é concedido anualmente às mais inovadoras e mais brilhantes histórias em quadrinhos, o The Will Eisner Comic Industry Awards. O Eisner Awards, como é conhecido, é considerado ainda hoje a maior honraria e reconhecimento na área. E ainda encontrou tempo para escrever e desenhar várias Graphic Novels, ou Romances Gráficos, como ficaram conhecidas as histórias com enredo mais robusto, narrativas mais longas que “misturam elementos de arte gráfica e literatura.”
Uma delas, por exemplo, foi Avenida Dropsie, na qual contou a evolução de um bairro – sócio econômica e cultural – por meio das histórias que se desenvolvem em torno de uma avenida por mais de um século. A última que fez, The Plot (O Complô) foi lançada nos Estados Unidos no ano da morte de Eisner, e conta a história da fabricação dos Protocolos de Sion, uma farsa que se tornou uma das mais duradouras e cruéis peças de literatura antissemita já produzidas.

Clique aqui para conferir a biografia completa de Eisner na seção Quadrinistas, Graças a Deus.




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