Maior festa popular do Brasil e um pilar fundamental da identidade nacional, o Carnaval está, é claro, no gibi! Como toda grande manifestação cultural que se preze, a folia aparece nas HQs e um dos mais ativos carnavalescos é (como não não poderia deixar de ser) o Zé Carioca. Já na primeiras tiras publicadas nas páginas dominicais dos jornais estadunidenses por Walt Disney, em 1942, o papagaio vivia aventuras cotidianas no Rio de Janeiro e obviamente o carnaval era retratado sob a ótica disneyniana.
Entre estas primeiras histórias estão, por exemplo, O Rei do Carnaval (The Carnival King), escrita e desenhada por Carl Buettner ainda naquele ano de 42 e publicada originalmente no gibi Walt Disney’s Comics and Stories nº 27. Nela Zé, um pobretão que toma banho em chafariz de praça e se vira como pode pra conseguir um café da manhã e um jornal, entra de penetra em um baile de Carnaval para encontrar a famosa cantora Lola e acaba ganhando o título de rei do Carnaval ao dançar com ela, tendo que sair de fininho logo depois.

A partir do final dos anos de 1970/1980, porém, com o aumento de HQs do papagaio produzidas por artistas brasileiros (entre os quais o paulistano Waldyr Igaraya de Souza e o prolífico piracicabano Ivan Saidenberg), histórias com muitas fantasias, samba e até desfiles de escolas se tornaram bem mais comuns. E chegaram a outros países nos quais a Disney reproduzia algumas das HQs brasileiras, tanto no continente americano quanto na Europa.
Entre os primeiros quadrinhos carnavalescos memoráveis estão Um paulista na corte do Rei Momo, com argumentos e desenhos de Igaraya. Publicada originalmente em fevereiro de 1973, a HQ mostra o Zé Paulista, primo paulistano de Zé Carioca, indo para o Rio passar o carnaval. Achando que a turma da Vila Xurupita vai desfilar entre as grandes escolas do Rio, ele treina e vira uma fera do tamborim e ajuda a escola a ganhar. Mas, só no final da HQ, descobre que a competição era entre bloquinhos da região e não entre os melhores da cidade.

Outra HQ marcante veio em 1983 pelas mãos de Saindenberg: Vila Xurupita na Avenida. Grande vencedora do Carnaval de 1982, a Unidos de Vila Xurupita “sobe de categoria” e é convidada para desfilar na “Marquês de Sapecaí” no ano seguinte.
Dono de um ego que é só dele, Zé Carioca quer que o desfile seja sobre ele, mas acaba aceitando que seja sobre a história da Vila Xurupita, ainda mais quando sabe que haverá um carro alegórico no qual – aí sim – ele será tema. É claro que quando o tal carro encerra o desfile ele não fica nada feliz com a homenagem…

Diversas outras HQs com o tema saíram até o ano 2000, enquanto a editora Abril mantinha uma redação local para produzir histórias do papagaio. Importante notar, porém, que Zé não era o único carnavalesco dos personagens Disney, mas com os demais isso ocorria de maneira curiosa. Os principais personagens da casa, como Donald, Tio Patinhas, Mickey e companhia, costumavam aparecer em capas temáticas dos gibis, mas nas HQs internas não vinham de verdade para o Brasil.

Boa arte das HQs envolvendo fantasias eram e Haloween ou outras festas que, na versão em português, viravam “Carnaval”. Havia, claro, histórias com outros personagens feitas por artistas brasileiros, mas normalmente com personagens secundários. Há, por exemplo, uma dos anos de 1980 com o pouco conhecido “Senhor X”, o gênio (ler com ironia) do crime. Nela o vilão tenta roubar não o Tio Patinhas, mas o rival dele, o milionário Patacôncio, que está em um baile de carnaval. Outros vilões também aparecem na história, como Os Metralhas e Mancha Negra, mas nenhum dos principais protagonistas dá as caras…
Turma da Mônica pede passagem
É claro que o maior quadrinista brasileiro de todos os tempos também não deixaria seus personagens fora da folia. Desde as tiras de jornal nas quais os personagens surgiram, Mauricio de Sousa já fazia historinhas temáticas, boa parte delas envolvendo o medo de água do Cascão – já que havia a tradição de nesta época as pessoas carregarem bisnagas de água e esguicharem umas nas outras.

Na medida em que os integrantes da turminha foram ganhando gibis próprios, porém, o Carnaval ganhava destaque nas capas das revistas e em histórias divertidíssimas. Uma das mais curiosas e memoráveis é Turma, vamos formar a nossa escola de samba?, publicada na revista Cebolinha Nº 146 (Ed. Abril, 1985).
Mônica tem a ideia do título, mas ninguém se entusiasma muito, até que ela fica nervosa e Magali, Cebolinha e Cascão decidem fazer a vontade da dentucinha para não correr nenhum risco. O diferencial é que eles vão a outras HQs do Mauricio verso convidando para o desfile personagens com os quais normalmente não contracenam, como Astronauta, Pelezinho e Horácio. O resultado é bem bacana.

Mas a HQ não termina por aí: surge o vilão Antifolião, que joga confete na boca das pessoas e as transforma em balões. No final, claro, tudo dá certo e a festa é maravilhosa, menos pro malvado e pra Mônica – já que Cebolinha propositalmente adia a destransformação da “balônica.”
As HQs temáticas da turminha continuam a ser publicadas ainda nos dias de hoje e há até mesmo um especial “Você Sabia” no qual os personagens contam a história do Carnaval.

Além da Turma da Mônica, vale enfatizar que praticamente todos os demais personagens de tirinhas publicadas no Brasil, do Oiapoque ao Chuí, de maneira física ou on line, tem histórias com Carnaval. Até mesmo porque, por serem tiras, têm a característica de se relacionar mais diretamente com fatos atuais.
Marvel e DC
Super-heróis DC e Marvel não tem histórias de Carnaval de relevância até o presente momento. Pelos lados da DC, sim, há citações rápidas às festividades em Batman no Brasil (1993), na qual o Cavaleiro das Trevas caça vilões no Rio de Janeiro – em especial um conhecido como “O Idiota” (sem comentários). Nada que possa realmente se caracterizar como uma HQ de Carnaval.

Já na Marvel há uma menção desonrosa. Na terrível Rio de Sangue (2001), o mutante Wolverine combate uma ameaça sobrenatural no Rio de Janeiro durante as folias. A história é tão horrenda (em termos de arte e pelo claro desconhecimento sobre o Brasil) que, sinceramente, deve ser esquecida.

Por outro lado, os Super-Heróis de ambas as editoras (além de outros de diversos selos diferentes) são presença constante em fantasias em desfiles, bloquinhos e bailes todos os anos. Vale citar inclusive que, desde 1995, existe em Olinda (PE) o bloco Enquanto isso na sala de Justiça. Batizado com uma frase famosa da versão dublada do clássico desenho dos Superamigos, o bloco tem como exigência aos foliões que todos saiam vestidos como supers!






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