A última bailarina: uma menina desmiolada, um ursinho de pelúcia desbocado e um unicórnio dramático contra o apocalipse zumbi

Nas últimas décadas, zumbis se tornaram onipresentes nas Histórias em Quadrinhos. Eles enfrentam heróis da Marvel (ou até se tornam heróis da Marvel…) Invadem as ruas das principais cidades do Brasil e forçam bilionários a se confinarem em um prédio de alto luxo no Leblon para lutarem pela sobrevivência (em A hora dos acordados).

Infestam o planeta e revelam o pior do se humano em The Walking Dead. Tomam as ruas da pacata cidade de Riverdale e transformam a idílica HQ de Archie em uma história de terror. E até mesmo passam despercebidos da maioria das pessoas e comem cérebros de pessoas já falecidas, absorvendo as memórias dos defuntos e resolvendo os negócios inacabados deles (é o que ocorre em I-Zombie, série de quadrinhos posteriormente adaptada para o streaming).

Enfim, basta procurar que você acha zumbis para todos os gostos nos gibis. O que não se vê todo dia é um trio  –  formado por uma menininha sem noção usando tutu, um ursinho de pelúcia mal-humorado que mata com precisão e um unicórnio melodramático que literalmente (e subjetivamente) saiu do armário – enfrentando o apocalipse zumbi. A não ser, claro, que você esteja folheando as páginas da trilogia A Última Bailarina, de autoria do genial Guilherme de Sousa.

O trio inusitado criado por ele protagoniza a série de três coloridos livros onde o tom lúgubre e sério da maioria das HQs de zumbi não entra. Sim, ainda há corpos putrefatos, pedaços de órgãos e cérebros, tiros despedaçando mortos-vivos a torto e a direito, em meio a uma acirrada luta por sobrevivência. Tudo isso, porém, é entremeado por humor nonsense, tiradas que arrancam gargalhadas, traço fofinho e um timing perfeito, semelhante ao dos grandes desenhos animados humorísticos.

Essas últimas características da obra, por sinal, acabaram rendendo a Guilherme de Sousa o convite para fazer a Graphic MSP Xaveco – Vitória, não à toa uma das melhores já lançadas pelo selo.

A história da bailarina Laurita, do ursinho Fifo e do unicórnio Leo já começa- em A Última Bailarina, lançado originalmente em 2014 –  em meio a um mundo dominado pelos desmortos. Não cabe (e pouco importa) ao leitor saber como a praga zumbi começou, nem tampouco a razão pela qual em uma casinha de bairro se encontram uma garotinha com roupa de ballet e um ursinho caolho boca -suja que (ainda) não foram mordidos pelos monstros.

O tal ursinho, uma mistura de Nick Fury (o tapa-olho torna a referência obrigatória) e Wolverine, tenta proteger a si mesmo e a menina, usando para isso as armas que tiver a mão. Laurita, totalmente alheia ao que se passa em volta dela, torna a tarefa dele mais difícil. Ela convida os zumbis para brincar, deixa portas e janelas abertas e até quer adotar um gato zumbificado.

Para melhorar ainda mais a coisa, surge de dentro do armário um unicórnio afetado, que adora fazer drama, e prefere brincar de princesa com Laurita (o difícil é decidir quem vai ser a princesa) enquanto Fifo tenta lidar com uma infestação de mortos-vivos no andar de cima da casa.

Na sequência, em A Última Bailarina contra-ataca (2016), a invasão zumbi está cada vez pior, Fifo está ferido (fogo amigo?) e Leo continua tendo problemas para usar os poderes do próprio chifre mágico. Laurita, por sua vez, está certa que eles vão dar uma festa de arromba…

Por fim, em A Vingança da Última Bailarina (2023) acontece o final hilário e apoteótico da saga, quando o trio se depara com uma chance real de escapar do apocalipse zumbi. Para que isso corra, porém, eles terão de lidar com – um grupo de mendigos, bebidas e até uma gravidez indesejada.

Spinoffs

Nos intervalos entre os capítulos de A Última Bailarina, Guilherme de Sousa ainda presenteou  o público com dois spinoffs. Assim, em 2015 ele revelou a origem do desbocado ursinho de pelúcia no oneshot Fifo.

Apesar de ter um final engraçado,  a HQ foge -propositadamente – das cores vibrantes e piadas nonsense da série. Toda em preto e branco, a aventura mostra Fifo ainda como um ursinho de pelúcia de um garotinho, que se diverte com ele no melhor estilo Calvin e Haroldo. Aliás, as referências visuais aos quadrinhos de Bill Watterson estão bem presentes no gibi.

Contudo, diferentemente do tigre filosófico, o ursinho só ganha vida quando o menino se vê em perigo no que aparentemente são os primeiros dias da praga dos mortos-vivos. Além de revelar como Fifo perdeu uma das vistas e adotou o tapa-olho, a história emociona ao mostrar como se deu a separação entre os dois amigos – não se trata aqui de dar spoilers, afinal a esta altura o leitor já sabe que ele mora com Laurita.

O segundo derivado é Leo, de 2018, e nele o que não falta são as cores. Se o passado de Fifo é mais tocante, o do unicórnio é pura purpurina. Leo vivia em uma floresta encantada e sonhava em ser campeão de pole dance. Até que um terror ancestral desperta e o rebolativo unicórnio precisa escolher entre se dedicar ao pole dance ou lutar contra as forças do mal.

Todos os cinco álbuns com os personagens de A Última Bailarina foram lançados pela Korja dos Quadrinhos e podem ser encontrados no site da editora.

Prêmios

E se alguém ainda tem alguma dúvida sobre a qualidade da série, vale lembrar que tanto a trilogia quanto os dois spinoffs receberam mais de uma dezena de indicações ao troféu HQMix. E A Última Bailarina contra-ataca levou o troféu em 2016, na categoria Melhor Publicação de Humor.

Uma premiação mais que merecida, afinal se tem algo que Guilherme de Souza – e Laurita, Fifo e Leo – sabe fazer muito bem é arrancar boas risadas do leitor. E olha que fazem isso em meio a um apocalipse zumbi…

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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