Deby Dreamwalker é uma jovem mulher que consegue andar por um mundo dos sonhos colorido e psicodélico, muitas vezes ajudando outras pessoas a lidar com questões complicadas (mas sempre de uma maneira leve). Ao mesmo tempo, no mundo desperto ela tenta sobreviver à rotina mais mundana da universidade e do trabalho.
Publicada pela primeira vez em 2023, essa personagem brasileira dos quadrinhos curiosamente também teve uma origem dividida entre o mundo desperto e o sonhar. A quadrinista Luíza Lemos fez o desenho da protagonista primeiro, sem saber como ia utilizá-lo, e depois sonhou com todo o universo da personagem.
Luíza aliou-se à também quadrinista Marília Aguiar para fazer os roteiros e juntas convidaram diferentes artistas para ilustrar as aventuras de Deby – e da bruxa Melisandra – no mundo onírico. O resultado: duas ótimas edições já lançadas (uma das quais se esgotou) e um spin-off com tirinhas, batizado de Deby Dreamwalker: Instagramável, lançado em um formato criativo de 8×15 cm, lembrando um celular.

Como o sonho nunca deve acabar, uma terceira HQ – de outras muitas, espera-se – está atualmente em processo de financiamento via catarse (clique aqui e garanta a sua a partir de apenas R$ 30,00). A previsão é que o novo gibi seja entregue em dezembro deste ano.
Nas histórias de Deby Dreamwalker o Mundo Onírico é um multiverso cocriado com os sonhos recorrentes da humanidade. Magos e bruxas, com o devido treinamento, conseguem circular de forma limitada por ali, porém com um enorme gasto de energia e alta capacidade de concentração. Contudo, existem no planeta indivíduos raros chamados de Dreamwalkers, que “conseguem trafegar entre esses infinitos mundos como quem anda pelas ruas de uma cidade.”

A jovem universitária e trabalhadora Deby descobre em um sonho, através da bruxa Melisandra, que é capaz de acessar esses infinitos mundos do Plano Onírico. Melisandra é especialista em resolver problemas relacionados ao sonhar, mediante a um preço. Ao perceber Deby como uma Dreamwalker, tenta recrutá-la, o que só torna a vida da garota ainda mais complicada do que já é.
Para falar mais sobre Deby Dreamwalker, o MundoHQ bateu um papo com a criadora Luíza Lemos sobre essa HQ dos sonhos. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva:

MundoHQ – Como surgiram a personagem e a série?
Luiza Lemos – A Deby é um desenho que eu fiz quando estava trabalhando no meu traço de cartum (trabalho tanto com traço cartum quanto o mais realista). Criei essa personagenzinha, curti o visual, mas não sabia o que fazer com ela. Aí um belo dia eu tive um sonho e nele veio todo o rolê da Deby. É irônico, porque em um sonho veio a ideia de um quadrinho que fala sobre aventuras que se passam no mundo dos sonhos. Aí falei com a Marilia, que trabalha com rolê de magia de sonhos, ela deu uma complementada no que eu tinha pensado incialmente e fomos desenvolvendo os princípios do universo da Deby.

Você e a Marília criam juntas os roteiros para cada HQ? Como funciona esse processo?
Sim, criamos juntas os roteiros. Primeiro a gente tem a ideia do argumento: “vamos escrever uma história sobre isso aqui”. Daí a gente conversa bastante sobre o que quer da história, como contar, determina o começo e o final em uma conversa. Quando a história está bem clara na nossa cabeça, fazemos uma videoconferência, abrimos um documento do google docs e começamos a escrever o roteiro. Aí uma vai botando uma ideia de fala, de desenvolvimento de roteiro, a gente vai construindo a quatro mãos, assim mesmo.
Vocês se enxergam em uma ou nas duas personagens principais? Não sei porquê mas senti uma vibe de Luiza na Melisandra…rs
Sempre me acusam de ser as personagens das minhas histórias…acho que a resposta é sim e não. É claro que os personagens têm muito da gente, partilham algo. Não tem como criar do nada. Algum traço de personalidade pode ter mais a ver com a gente, mas a Deby e a a Melisandra foram construídas com um propósito específico, cada uma com uma personalidade. Obviamente, dentro da construção do personagem a gente acaba acrescentando alguma coisa de si mesma.

Como vocês pensaram no visual das personagens?
A Deby foi essa história de eu estar treinando o traço de cartum, ainda que, se você for ver, mudou um pouco o traço dela em relação ao desenho original. No caso da Melisandra, a ideia foi ter um visual de bruxa. Usei uns elementos como um cabelão com mechas brancas, os colares com referências à bruxaria, vestido preto, manga morcego. Enfim, uns elementos de criação de personagens “bruxísticos.”
E os diferentes mundos que elas visitam no plano onírico, de onde vêm as inspirações?
De drogas, drogas alucinógenas. Não, mentira (rs). Tanto eu como a Marília curtimos um som meio psicodélico e nessa vibe de psicodelia tem muita coisa interessante. Queríamos fazer um quadrinho com essa vibe louca, psicodélica. E nessa parte devo destacar que as maiores loucuras de todas que você vê na revista são da cabeça da Marília (rs).

A ideia de ter um desenhista para cada mundo/edição é muito bacana (o número 1 tem arte de Marvin Rodriguez, o 2 de Helô d´Angelo e o 3, de Lili Sopi).Como vocês selecionam o artista convidado?
Da mesma forma que um diretor escolhe o elenco do seu filme. A gente conhece vários artistas, conhece as características dos traços de cada um deles. Então quando a gente pensa na história, meio que pensa nas características dos artistas e das artistas que a gente conhece e fala “pô, essa história ficaria legal na mão de tal pessoa.” Aí a gente convida e se a pessoa aceitar, beleza, se não procuramos outra pessoa que tenha características parecidas.
E como é o processo de passar o que vocês imaginaram para o desenhista?
Essa é a parte mais complexa. A gente tem escolhido artistas que são incríveis, então escreve um roteiro bem detalhado, dizendo bastante daquilo que a gente quer. E normalmente deixamos algumas coisinhas no roteiro que vai para o convidado como lacunas, que é justamente para o convidado poder acrescentar um pouco do estilo e da imaginação dele também. Isso é uma coisa bacana até para gente, porque aí a gente se surpreende em alguns momentos da história. Mas normalmente vai um roteiro bem detalhado daquilo que a gente está imaginando que deveria existir naquele mundo de sonho.

Em uma entrevista do Yellow Talk foi dito que vocês têm poucos exemplares do número 1 disponível e que o 2 se esgotou. Há algum plano de relançamento das primeiras edições, para que os fãs novos possam comprar?
É importante destacar que cada edição tem uma história independente e fechada, é uma série procedural. É claro que tem uma historinha e um desenvolvimento dos personagens que vai ao longo de todas as edições, mas cada uma delas se encerra em si. A gente pretende relançar a 2, porque a1 ainda tem uma quantidade ok de exemplares, talvez no início do ano que vem. E a gente tem planos para quando tiver uma quantidade de edições lançar um encadernado, quem sabe?
Neste sentido, para quem nunca leu nada da Deby e vai começar pelo terceiro volume, há alguma recomendação ou informação importante para entender a história ou cada HQ pode ser lida de maneira independente com tranquilidade?
Os volumes 2 e 3 começam com um “anteriormente em Deby Dreamwalker” falando de alguns elementos que são essenciais para a construção de mundo da Deby. Então, como disse, cada volume pode ser lido de forma independente.

Você está no mundo dos quadrinhos há muito tempo e tem trabalhos muito relevantes no portfolio (só pra citar dois, Transistorizada – adoro o jeito que você expõe a hipocrisia/preconceito com bom humor – e Não Ligue, Isso é Coisa de Mulher). De onde vem a paixão pelas HQs e a criatividade pra fazê-las?
Eu me alfabetizei lendo quadrinhos, com gibi da Marvel. Primeira coisinha que eu tive ainda criança, que minha irmã lia pra mim, era gibi do Homem-Aranha. Me tornei fã de gibis de super-herói, comprava todo mês. E a imaginação vem do TDH, fico tendo um milhão de ideias na cabeça o tempo inteiro (rs). Não sei explicar de onde vêm as histórias. Segundo o (escritor e quadrinista) Alan Moore as histórias caem no nosso mundo, né? Tem um mundo das ideias e as histórias caem de lá no nosso mundo, e quem tem a capacidade de enxergá-las consegue capturá-las em suas mentes…mas não sabemos de onde vem, é uma incógnita.

Por fim, talvez seja difícil pra uma mãe escolher uma qualidade da filha, mas o que você mais gosta nos quadrinhos da Deby?
Particularmente o que eu mais curto no quadrinho da Deby é que ele é muito divertido. Divertido de ler e muito divertido de fazer também. Apesar de a gente sempre usar algum tema que considera importante na questão dos sonhos, como por exemplo falar de gordofobia na edição dois ou violência doméstica nesta edição três, a gente sempre trata esses temas com leveza. É muito divertido a gente construir as histórias e é muito divertido para quem ê os quadrinhos. Eu acho que, como a gente se divertiu fazendo, transmite essa energia de diversão para o conteúdo da história e quem lê também se diverte bastante.





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