Quando a Netflix anunciou que a segunda temporada da até então excelente série Sandman seria a última e o produtor Allan Heinberg justificou que os 75 capítulos das Histórias em Quadrinhos não ofereciam conteúdo suficiente para mais do que duas temporadas (sendo que no máximo 15 foram utilizados na primeira), qualquer pessoa que não tenha uma cabeça de abóbora vazia – sem ofensas, Mervyn – sabia o que realmente estava acontecendo.
Heinberg teria sido mais honesto com os fãs e assinantes do streaming se tivesse dito a verdade: em virtude das denúncias de violência sexual contra o escritor Neil Gaiman, autor das HQs, tudo o que estava ou está em produção ligado ao nome dele foi encerrado por precaução. Até para evitar que o cancelamento a ele se estenda à Netflix e outros serviços de streaming.

Assim, na mesma onda Dead Boy Detectives, spin-off de The Sandman na própria Netflix, não terá mais a segunda temporada; a adaptação de The Graveyard book, que estava em andamento, foi suspensa pela Disney+; e o seriado Good Omens, da Amazon Prime, teve a terceira temporada “encurtada” para um único episódio sem a participação de Gaiman. O escritor inglês virou tóxico, para a tristeza de quem admira não a ele em si, mas a extensa obra dele. E, como já se previa, por causa disso a segunda temporada de Sandman – que teve os primeiros seis capítulos disponibilizados em 3 de julho – não só é a última como virou um “resumão” das HQs.
É importante ressaltar que a crítica aqui não é às diversas adaptações realizadas, muitas das quais desagradaram a leitores da obra original. Entre elas, por exemplo, está a supervalorização da elfa Nuala em Estação das Brumas – nesta versão seriado ela age como uma grande conselheira de Sandman na resolução do “problema” da chave do Inferno – e a colocação do próprio Morpheus como aquele que decidiu para quem iria a chave, o que nos quadrinhos é uma decisão de, bem, Deus todo-poderoso.

O problema em si é que os quadrinhos foram extremamente enxugados e até esquecidos para terminar a série o mais rápido possível. Personagens como a deusa egípcia Bast, que na mesma Estação das Brumas é quem tenta negociar a informação sobre o paradeiro de Destruição, simplesmente sumiram.
Aliás, todo o arco Um Jogo De Você, composto por seis diferentes capítulos, simplesmente foi limado da história, com diversos personagens tendo sumido. Desta forma, não existe – entre outros – a bruxa Thessaly, que se tornaria inclusive amante de Sandman. É ela quem rompe com ele e o deixa deprimido, fazendo chover antes de partir ao encontro de Destruição. É por ela quem ele procura no mundo desperto enquanto acompanha Delírio na busca pelo irmão.
Sem Thessaly, que por sinal também tem grande participação na vingança de Lyta Hall e das Fúrias contra o Senhor dos Sonhos nos quadrinhos, a versão Netflix faz com que Sandman aproveite a missão para procurar pela rainha Nada. Nas HQs, Nada a esta altura já havia reencarnado, com as bençãos de Sandman.

Outras personagens como Hazel , Fox Glove, o Cuco, a princesa Barbie, Martin Ten Bones, Prinado, Luz e Wilkenson, para citar alguns, também foram deixados de lado. Já a mulher trans Wanda, originalmente de Um Jogo de Você, foi transmutada na motorista Ruby, no arco Vidas Breves, mais um que também perdeu muita coisa na versão seriado.
Alguns capítulos viraram poucos minutos dentro de um episódio. É o caso de Sonho de uma Noite de Verão, quadrinho que recebeu o prêmio literário World Fantasy Award na categoria “melhor história curta”. Na série, a história inteira vira uma parte pequena do episódio 3 (“Mais demos que há no Inferno”).

Às vezes a impressão que se tem é que a pressa era tanta que até mesmo frases de impacto das HQs, que levariam segundos para serem ditas na série, foram exterminadas. Por exemplo, quando Sandman se encontra com Lúcifer na praia (nos quadrinhos, o encontro não era com o Senhor dos Sonhos, mas vá lá), quem já leu os gibis fica esperando o diabo falar sobre o por do sol.
No gibi, Lucifer admite ironicamente que aquilo é uma criação maravilhosa do “velho bastardo” (Deus). O momento icônico caberia perfeitamente na cena adaptada, mas não se repete no seriado. Da mesma forma, um pouco mais à frente, fazer flores vermelhas nascerem no chão a partir do sangue derramado de Orpheus, como nas HQs, ocuparia segundos, mas aparentemente não havia tempo para isso.

Com isso tudo, na maioria dos capítulos a impressão que se tem é que o produtor tentou comprimir muita informação em pouco espaço. Assim, quem leu os gibis terá a sensação em diversas ocasiões de estar assistindo a pequenos clipes e citações dos gibis, de maneira rasa. E quem não leu talvez sinta falta justamente deste aprofundamento.
Há que se destacar que nos dois episódios finais desta primeira parte da temporada final, essa pressa não aparece, pelo contrário. Ambos estão bem completos e caprichados, cheio de riqueza de detalhes e muito bem produzidos.
O capricho que, por sinal, continua bem presente nos efeitos de CGI e cenários da série – que, segundo consta, são grandes responsáveis por cada capítulo ter custado cerca de US$ 15 milhões, um dinheiro bem investido. Visualmente, The Sandman continua praticamente irretocável, ainda que tenha deixado de fora detalhezinhos como os chifres do rei Auberon e a pele azulada de Titânia.

Também é preciso destacar que o elenco que foi mantido entre as temporadas continua afiado e que os acréscimos são nota dez. Esme Creed-Miles está perfeita como Delírio e Barry Sloane arrasa como Destruição. Este último, por sinal, está extremamente fiel às cenas dos gibis e os diálogos dele com o cachorro Barnabas – que tem voz de Steve Coogan – são hilários em ambas as mídias.

O veredito
No conjunto, estes seis primeiros episódios da parte final (os demais saem em 24 de julho) valem a pena, sim. Mas perto da primeira temporada, ficam bastante ofuscados. Claramente, se o cancelamento de Neil Gaiman não tivesse ocorrido, haveria muitas mais temporadas e esta segunda poderia ter sido muito melhor, tão boa quando a inicial, o que não ocorreu.
Resta ver agora como serão os últimos episódios, quais serão as novas adaptações e o que mais será cortado. Porque, sim, haverá mais cortes. Arcos inteiros como Distant Mirrors e Convergence dificilmente serão incluídos. World´s End provavelmente será pouco aproveitado, se tanto – a suspeita é que os últimos capítulos serão em cima exclusivamente de The Kindly Ones e The Wake.
Resumindo, na Netflix Sandman começou como um sonho maravilhoso e seguiu como um devaneio agradável. Espera-se que não se torne um pesadelo no final.





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