Banido pela Amazon, cartunista Alpino faz sucesso com quadrinhos eróticos de mulheres e homens fora do padrão

Na primeira década do ano 2000, o cartunista Alberto Alpino era bastante conhecido graças à tira humorística Samanta, que publicava em diversos jornais brasileiros – entre outros, A Gazeta (ES), Jornal do Brasil (RJ), Agora (SP), A Crítica (AM) e O Sul (RS). A tirinha chegou a ser distribuída pela  Intercontinental Press, a mesma responsável por personagens como Recruta Zero e Hagar, o Horrível.

Em 2018, porém, Alpino criou Marlene, uma personagem de humor com um tom erótico, e aos poucos foi enveredando por outro caminho menos trilhado: o das Histórias em Quadrinhos eróticas.

O autor desenha mulheres mais roliças (com um visual mais similar ao dos corpos femininos pintados pelo colombiano Fernando Botero do que aos das atrizes e modelos que posavam nuas para a extinta revista Playboy, onde Alpino também já publicou cartuns) bem como homens fora dos padrões estéticos mais desejado. Contudo, os fãs de Marlene e de outras publicações dele foram crescendo.

Tudo ia bem até que a Amazon – que (é bom frisar) comercializa inúmeros títulos de outros autores com desenhos tão ou mais explícitos e realistas que os de Alpino-  resolveu banir os trabalhos dele em 2023. Procurada pelo MundoHQ, a empresa informou por meio de assessoria, sem entrar em detalhes, que “a conta do autor foi suspensa devido a violações dos nossos termos de serviço.”

De lá para cá, Alpino se reinventou mais uma vez: teve que se transformar em “profissional de TI de si mesmo”, se virar para criar um site próprio de vendas e redirecionar para lá o público ávido pelas picantes HQs produzidas por ele.

Em entrevista ao MundoHQ, o quadrinista capixaba fala mais sobre os quadrinhos eróticos, o cancelamento promovido pela gigante internacional do e-commerce e a volta por cima que conseguiu dar com a criação do site próprio para a venda de e-books de Marlene e outros personagens criados por ele.

MHQ – A Amazon vende inúmeros quadrinhos eróticos, como Valentina (de Guido Crepax), Omaha (Kate Worley e Reed Waller), Druuna (Serpieri), Clic e vários outros de Milo Manara,  e até Sex and Chaos, cuja capa tem uma imagem de sexo oral entre Mulher-Maravilha e Supergirl.  Não te parece estranho terem vetado Marlene e Alaor?

Alpino – Então, meu perfil foi criado na Amazon KDP (Kindle Direct Publishing) em 2020 e lá eu vendia meus então nove ebooks: Tudo Sobre Marlene! (que narra a criação da personagem e os primeiros quadrinhos); Diário da Pandemia (Cartuns), Contos Proibidos de Marlene – Branca de Neve (erótico); Emmanuelle; Fantine & Cosette;  A Visita (erótico); Um Noivo Para a Vampira (erótico); Amor É (Cartuns); e O Livro de Melquias, o Garçom (Texto e cartuns bíblicos). Recebi o primeiro e-mail da Amazon no do início de maio de 2023, cinco dias após adicionar no KDP o novo ebook A Hora do Lobisomem. No e-mail me avisaram que o título entrava em conflito com outro livro que eles comercializavam. Mudei o nome para Marlene e a Hora do Lobisomem. Recebi outro email, explicando que aquele nome também não podia. Mudei para Marlene e o Lobisomem. Só fui receber o tal e-mail cancelando minha conta no dia 15 de maio, com um texto que não parecia com os anteriores, que eram escritos por um robô. Esse era meio no estilo pessoal e encerrava dizendo que a Amazon não comercializava pornografia e que eu “nunca, nunca mais” iria voltar a vender meu conteúdo na Amazon.

O estranho é que a Amazon tem inúmeros outros conteúdos até mais explícitos (e em traços mais realistas) do que os seus. Será que a (o) responsável tinha algum parente com os nomes dos seus personagens e ficou ofendido pessoalmente?

Nunca pensei nisso até este momento (risos).

Como esse veto te prejudicou e qual foi o processo para colocar o seu próprio site de vendas, o alpimo.in, no ar?

Passei alguns dias pensando no que fazer, já que a venda do ebooks ajudava muito na manutenção do meu estúdio. Encontrei vídeos no Youtube procurando como criar uma loja online e encontrei muitos vídeos. Mesmo sem saber nada sobre programação e criação de sites fui seguindo perfis que ensinavam todo um passo a passo.

Virei muitas madrugadas tentando entender o que me pareciam hieróglifos. Quando o site foi lançado parecia um Frankenstein, com partes mal costuradas. Se alguém clicasse num ebook, era encaminhada para outro ebook, mas não para a ação de COMPRAR. Fui ajustando e ganhando cabelos brancos lendo as reclamações que iam chegando, criticando a estrutura do site mais amador do país.

Fui consertando os erros e avisando os fãs do então perfil @marlene.alaor e os do @cartuns.alpino. Os fãs embarcaram comigo nessa empreitada e se tornaram consumidores fiéis dos ebooks.

Sem entrar em números, mas a demanda por e-books eróticos é boa, compensa financeiramente/profissionalmente para você? Você vende apenas para o Brasil ou também há demanda do Exterior?

Com o fim da minha tira Samanta nos jornais meus rendimentos caíram muito, afetando o estúdio.  A venda dos ebooks pela Amazon não superou o valor das tiras no período mais popular, mas chegou perto. Hoje a venda dos ebooks não dá um rio de dinheiro, mas continua a ajudar a manter o meu estúdio aberto. Embora o site dos ebooks aceite compras de outros países, os únicos que vendi para quem mora fora do Brasil foi para fãs em Portugal e alguns lugares da África.

Você ficou conhecido em boa parte do país por causa de Samanta, uma tira cômica, mas seu foco agora está em Marlene e Alaor, um quadrinho erótico. O que levou a esta mudança?

O espaço para tiras de jornal foi diminuindo nos últimos anos. Após uma década, dos 11 jornais que publicavam Samanta a tira passou a ser publicada apenas em dois, A Crítica (Manaus) e A Gazeta (ES), e em 2019 eles cancelaram também. Foi triste, mas após mais de um século, acho que a era dos quadrinhos nos jornais chegou ao fim. Eu entendi e aceitei.

Passei então para um outro mercado, criar conteúdo de cartuns para o licenciamento para editoras de livros didáticos. A melhor forma de exibir esse novo material são as redes sociais. Foquei em produzir para o Instagram (@cartuns.alpino) e o Facebook de mesmo nome. Ali, entre os posts diários, sem personagens fixos, surgiu o quadrinho da Marlene para atender o pedido de uma mulher prestes a se divorciar diante da “frieza” do marido. Como o cartum teve uma incrível aceitação e seguidos pedidos dos leitores por mais quadrinhos da ruiva curvilínea, criei o Instagram do casal.

Passados alguns meses recebi uma “encomenda” de um fã do casal. No Direct ele me pediu se eu tinha algum quadrinho mais adulto para venda. Eu não tinha. Fiz, enviei e fui pago. Entendi que havia um negócio ali, com a venda de conteúdo +18 com a Marlene e seu marido. Criei assim o primeiro ebook, Branca de Neve – Contos Proibidos de Marlene. Foi um grande sucesso de vendas. As cenas de nudez e sexo eram poucas e coreografadas para não chocar ninguém.

Fiz o segundo ebook alguns meses depois, atendendo os pedidos das pessoas que haviam adquirido o primeiro. Atualmente já são 17 da linha Contos Proibidos de Marlen e outros com quadrinhos de outros personagens como Dona Neide e o faxineiro Genival.

Os cartuns de Marlene são picantes, enquanto os contos são bem mais explícitos, inclusive visualmente. Por que essa diferença?

Os cartuns originalmente surgiram no Instagram, que possui claras limitações sobre o que pode ser postado na rede social. Se eu (ou qualquer pessoa) postar algo que seja interpretado mais explicitamente como erótico, vem a limitação de entrega do conteúdo e depois uma suspensão que pode durar meses. Nos  contos, por serem publicados em e-books enviados para quem compra, não há essa limitação.

Vi que você faz várias paródias ou utiliza temas conhecidos da cultura pop para a maioria dOs Contos proibidos de Marlene, de O Médico e o Monstro a Red Sonja (do universo Conan), que no caso de Marlene se transformou em Xana, a Bárbara. Como você busca a inspiração para os roteiros dos contos?

Eu tenho uma paixão pelos clássicos da literatura que li na infância, vi na TV e dos quadrinhos. Tudo vem dali. O Médico e o Monstro (O Médico, Ela e o Monstro), A Hora do Lobisomem (TV) Conan (Xana, a Bárbara), O Fantasma do Pirata (filmes da Sessão da Tarde), Alarzan (Tarzan), etc.

Uma característica interessante dos seus personagens é que os corpos deles não são o padrão de estética. Marlene (bem como as demais personagens femininas) é voluptuosa e sensual, mas de proporções maiores, até roliças, lembrando mais as mulheres de Crumb do que as que posavam para a Playboy, onde você publicou. Alaor é efetivamente gordo. Por que essa opção?

Marlene foi desenhada à partir daquela mulher casada que me enviou um breve relato da sua triste situação matrimonial. Alaor parece pouco com o marido dela, ficando mais arredondado e baixo nos quadrinhos. Não foi difícil desenhar a mulher corpulenta, pois era já o meu padrão nos cartuns da Playboy.

Ainda que ela seja a estrela da maioria das publicações, você já fez outros quadrinhos eróticos sem Marlene, como Fantini & Cosette, a história de duas P…Pessoas. A ideia é continuar variando personagens ou a partir de agora, com o perdão da brincadeira, sexo é só com Marlene mesmo?

Não penso em criar uma nova “Marlene”. Se acontecer de surgir uma personagem secundária e for alçada pelo público a uma posição de destaque, aí é outra coisa.

Atualmente você ainda produz tiras de personagens como Luzia, Samanta e Wilton Petshop, eventualmente? Como é sua relação com estes personagens?

Eu não crio mais tiras. Tenho muito material acumulado desses personagens que estou postando (muito lentamente) no site www.charges.alpino.in , que é também um catálogo online para licenciamento das editoras de material didático.

Muitos leitores de quadrinhos tradicionais têm fantasias eróticas com personagens tradicionais, tanto que – para citarmos um brasileiro -a Tina de Mauricio de Sousa virou sex simbol e tem desenhos erotizados circulando a Internet. Neste sentido, você pensa em algum crossover dos seus personagens? Samanta pode vir a participar de uma história erótica ou melhor não misturar as coisas?

Não penso em crossover entre Marlene e outros personagens meus. Mas gosto de introduzir nos ebooks e alguns quadrinhos do Instagram pessoas reais, amigas do próprio Instagram, como Débora Porto e como a Kah Dantas, estrela do ebook Capitã Lingerie.

Por fim, sexo ainda é um tabu para boa parte das pessoas. Você sofreu algum tipo de preconceito ou rotulação quando passou a fazer quadrinhos eróticos?

Nunca sofri nenhuma espécie de preconceito com meu trabalho. Meu público curte cada novo e-book e me enviam centenas de relatos de situações +18 que viveram. Esses relatos foram se somando que resolvi recriá-los nos três ebooks (tem um quarto à caminho) “Confissões”. Curiosamente, o único preconceito veio da Amazon.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

Comentar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.