Em 1961, inspirado pelas próprias aventuras de infância vividas no interior de São Paulo (onde pescava, caçava iças e se deliciava com goiabas no pé), Mauricio de Sousa criou um caipirinha a quem batizou de Chico Bento. Uma homenagem ao tio-avô que tinha esse mesmo nome e que o autor nunca conheceu, mas cujas histórias eram contadas pela avó de Mauricio – que por sinal também seria transportada para os quadrinhos, como Vó Dita.
Foi só em 1963, porém, que o matuto estreou como personagem secundário, nas tirinhas de uma dupla que o cartunista já publicava em uma revista institucional da cooperativa Copercotia, chamada Hiroshi e Zezinho.
Inicialmente, Chico era diferente no traço e na proposta. No desenho, era mais alto, mais velho e com um traço bem menos fofinho. No conteúdo, era mais espertalhão e por vezes preguiçoso, chegando a ser comparado com uma versão infantil de Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato em 1914.

No mesmo ano em que foi publicado na revista da Copercotia, Chico Bento também apareceu pela primeira vez em uma tira de jornal, do Diário de S. Paulo, e começou a roubar a cena. Tanto que em 1964 já dava título a uma página no suplemento de quadrinhos do jornal.

Nos anos seguintes, Chico foi se tornando cada vez mais popular. Nas revistas em quadrinhos, inicialmente aparecia nos gibis de Mônica e Cebolinha, primeiros a ter título solo, mas em 1982 ganhou gibi próprio – que permanece até os dias de hoje. O jeito brejeiro e simples que conquistou os leitores ganhou mais espaço, junto ao amor pela natureza (o que faz com que diversas HQs tenham temas em prol do meio ambiente).
Chico também é um menino “arteiro”, fazendo brincadeiras típicas da idade, e a preguiça aos poucos perdeu espaço, sendo constantemente substituída pela vontade de brincar ou fazer outra coisa em momentos de trabalho e fazer lição de casa. Ainda que, eventualmente, Chico ainda seja retratado dormindo ao pé de uma árvore ou perdendo hora para ir à escola. Acima de tudo, porém, Chico Bento transparece inocência e talvez esse seja o atributo que mais atrai o público leitor.

O jeito de falar do personagem, um “caipirês” comum ao interior de São Paulo, também o tornou um ídolo entre professores de Português, que o utilizam para demonstrar regionalismos e constantemente pedem aos estudantes que reescrevam os diálogos de Chico utilizando a gramática formal. Lembrando que, como diz o linguista José Luiz Fiorin, não existe “falar errado”, já que não há regras para fala e, sim, para a escrita.

Assim como os demais personagens criados pelo pai da Turma da Mônica, Chico Bento também virou desenho animado (inclusive animação 2D Mônica Toy) e foi visto e publicado em outros países. E ganhou muitos fãs internacionalmente também. Consta que na Itália, por exemplo, toda vez que o personagem aparece em uma animação, a audiência dobra. Em tempo, tanto lá como nos demais países europeus ele é chamado apenas de Chico – a exceção da Espanha, onde o nome permanece igual (em tempo, uma curiosidade: em inglês o caipira virou “Chuck Billy”)
Chico também ganhou versão jovem e em mangá, Chico Bento Moço, no qual deixa a Vila Abobrinha e vai conviver com os desafios de ser um estudante universitário, longe da rotina pacata a qual estava acostumado.

Protagonizou, ainda – e até o momento – quadro Graphic MSP: e engraçada Pavor Espaciar (de Gustavo Duarte, na qual “contracena” até com Michael Jackson) e a emocionante trilogia formada por Arvorada, Verdade e Viola, de Orlandeli.

Como a maioria dos demais personagens de Maurício, o caipirinha também foi transformado nos mais diversos tipos de brinquedo, jogos e produtos de merchandising. E, em 2025, protagonizou o filme live action Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, no qual foi brilhantemente interpretado pelo ator mirim Isaac Amendoim.

Enredo
A maioria das HQs de Chico retrata de maneira divertida a vida no Interior e as pequenas aventuras das crianças, como roubar goiabas e fugir do dono da goiabeira, pescar, cuidar de animais e plantações, o dia a dia na escola etc. Também há diversas histórias relacionadas a tradições, folclore e lendas – personagens como Lobisomem, Saci, Mula sem cabeça e outros são comuns) – bem como aventuras nas quais Chico (acompanhado ou não pela turminha) defende a natureza da ação de caçadores, pessoas que querem queimar ou de matar florestas etc.

O elemento mais fantasioso também se apresenta em algumas destas HQs, na qual o protagonista se transforma em passarinho, peixe ou até em formiga, por exemplo, para aprender importantes lições. Por sinal, Chico também contracena bastante com os animais do sítio, em aventuras (e desventuras) diversas.
Principais personagens

Além de Chico Bento, aparecem constantemente nas histórias:
Rosinha – A namoradinha de Chico é sensível, inteligente e apaixonada por ele.
Zé Lelé – Loiro e de olhos claros, o primo desmiolado de Chico, que vive metendo o caipira e a si mesmo nas maiores encrencas por pura falta de noção.

Hiro – Filho de imigrantes japoneses que se estabeleceram na roça (e primeiro personagem de origem nipônica criado por Maurício), ele era um dos personagens principais da tira onde Chico Bento surgiu, na qual era chamado pelo nome completo, Hiroshi. Inteligente e solícito, Hiro fala o português formal e desde cedo apareceu usando boné, em contraste ao chapéu de palha dos demais personagens masculinos. Vira e mxe são mostrados elementos culturais do Japão por meio do personagem, que por sinal é budista e faixa preta de judô.
Zé da Roça – Também protagonista da tira onde se originou Chico (como “Zezinho”), ele é outro que se destaca pela inteligência e por não falar caipirês. Estudioso e muito certinho, Zé da Roça por vezes também se mostra bastante ingênuo e vive grudado em Hiro.

Tábata – Criada em janeiro de 2020, a única menina negra da turma é a mais nova integrante do elenco infantil. É descrita como uma menina tímida, questionadora e espert. Originária da cidade, ela é apaixonada por mangás, artes marciais e videogames, e adora a experiência de viver no campoalém de ser praticante de capoeira.
Maria Cafufa – Apesar de não ser muito presente nas HQs, ela é a contraparte feminina de Zé Lelé – e namorada dele.
Nhô Bento – O pai de Chico, também chamado de Tunico pela esposa, é um trabalhador da roça, pouco letrado, porém cheio da sabedoria da roça. Trabalha de sol a sol e é violeiro dos bons.

Dona Cotinha – A mãe de Chico (cujo nome real é Maricota) se dedica a administrar a casa e a criação enquanto o marido trabalha na roça. É quituteira das boas e em uma HQ foi revelado que conheceu o esposo quando foi roubar laranjas no sítio do pai dele.
Mariana – Não é todo mundo que sabe, mas Chico teve uma irmãzinha que “virou estrelinha.” A menininha morreu logo após o parto, como foi mostrado em uma linda de1990 (com Roteiro de Rubens Kiyomura e desenhos de Sidney Lozano). O fato também é retomado em uma cena impactante de Arvorada, por Orlandeli.
Vó Dita – A avó de Chico é uma ótima contadora de histórias, além de conhecer todas as tradições e mistérios da roça. Também é benzedeira e sabe os benefícios de todos chás, raízes e plantas encontradas na natureza. Nas primeiras aparições, ela fumava um cachimbinho.

Primo Zeca – Um menino da cidade que visita Chico e evidencia as diferenças entre a vida da roça e a das metrópoles. De vez em quando o contrário também ocorre, como na inesquecível HQ na qual Zeca leva Chico ao shopping (ou na praia) e ele resolve nadar pelado na fonte do centro de compras.

Nhô Lau – O enfezado sitiante que planta as goiabeiras que Chico e Zé Lelé adoram.
Dona Marocas – A professora da escola pública da Vila Abobrinha. Se importa com o bem comum e as famílias locais, é muito carinhosa com os alunos, mas também muito exigente.

Padre Lino – O típico padre da igrejinha do Interior. É também diretor do coral da Igreja, onde as crianças às vezes cantam. Muito bonzinho, procura ensinar aos moradores as diferenças entre o bem e o mal, mas às vezes ele mesmo acaba errando e percebendo novas lições que não havia imaginado. E, em outros casos, quem recebe a lição é que não entende muito bem…

Os animais do sítio – Diversos animais do sítio dos Bento acabaram ganhando nome e personalidade definida nas HQs, ainda que outros da mesma espécie tenham aparecido com nomes diferentes ou sem nome ao longo dos anos. Entre os fixos se destacam a galinha Giserda, o porquinho Torresmo, o cachorro Fido, o burro Teobardo e o galo Ataliba.
Curiosidade: pelado, não!

Na inocência de uma criança da roça, Chico Bento e companhia costumam nadar pelados constantemente, sem nenhum tipo de malícia. Ou mesmo aparecer sem roupa em algumas histórias, de maneira engraçada, porém inocente.
Contudo, essas HQs acabaram sendo proibidas em outras nações, como Singapura e em alguns países islâmicos, onde foram consideradas ofensivas. Se quiser aparecer nesses lugares, Chico tem que estar bem vestidinho, sô!





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