Existem histórias que simplesmente precisam ser lidas. Chico Bento – Viola, 44º título da coleção Graphic MSP, é uma delas. Não só porque o autor Walmir Orlandeli é um craque do desenho, alternando – e mesclando – o traço mais cômico com cenas ricamente ilustradas de maneira “mais séria.” Nem porque Orlandeli domina a essência caipira de Chico Bento como ninguém, talvez até – com o perdão da blasfêmia – mais do o próprio criador Mauricio de Sousa. Viola é imperdível porque fala diretamente ao coração, contando uma história que na mesma medida diverte e emociona.
E, com o perdão do trocadilho, Orlandeli faz isso sem perder o tom. Os momentos que levam lágrimas aos olhos acontecem de maneira natural, sem apelação, sem induzir o leitor.

O autor simplesmente conta a história de maneira honesta e faz com que o público entre dentro dela e a viva junto com Chico Bento. Assim como já havia feito antes em Arvorada, a primeira das três Graphic MSP do caipirinha feitas por ele, em Viola Orlandeli dá um novo show de sensibilidade. E quem ganha, claro, é o público.
O enredo aqui parte da paixão de Chico – e da população da Vila Abobrinha em geral – por música sertaneja. Aqui vale fazer um destaque: o próprio Orlandeli escreveu as letras das modas de viola que aparecem na HQ (e mostrou talento para isso também, como se não bastasse todo o resto).

A história abre com Agenor, um músico itinerante, cantando sobre ter um passarinho dentro do peito. Além de gerar um entusiasmo enorme em Chico e Zé Lelé, a moda dá início a uma conversa reveladora.

Chico descobre que o avô paterno, Firmino, era boiadeiro e violeiro dos bons. Mais ainda, que o pai dele, Nhô Bento, também era ótimo e até fez dupla com o próprio pai.
Apesar da reação inicial estranha de Bento, Chico decide que a música corre no sangue da família e que ele mesmo será um grande músico. A euforia do menino só cresce quando ele recebe a herança do vô Firmino: um caderninho de anotações e letras de modas, e um violão com apenas duas cordas.
A partir daí o leitor acompanha a saga do menino para se tornar um cantor, o que obviamente não vai se mostrar tarefa fácil, apesar de Chico – como toda criança – acreditar que está predestinado à grandeza sem esforço pelo simples fato de que o pai e o avô tocavam bem.

Com maestria, Orlandeli vai alternando momentos engraçados (como a apresentação do garoto para Rosinha e Zé Lelé, a serenata na rua ou ainda a hilária sequência em que ele resolve tocar berrante e ser boiadeiro) com as decepções do menino. Que são proporcionais às expectativas que ele tem, ou seja, enormes.
E é nestes momentos que o autor conduz a história com delicadeza e sensibilidade ímpares. A cada tristeza, Chico descobre uma letra de música e comentários do falecido avô que o fazem refletir.

Eventualmente, Chico descobre que tem não só que se esforçar como ainda aprender a fazer as coisas do jeito dele. No final da história, claro, o público – que se não tiver coração de pedra já estará com os olhos marejados – fica sabendo o porquê de só existirem duas cordas na viola.
Poesia visual
Além do enredo tocante (sem trocadilhos) e das letras das modinhas, há que se destacar que a arte de Viola vai além do belo traço de Orlandeli. Também ele um garoto do interior, nascido em Bebedouro e ainda na infância se mudando para São José do Rio Preto, o autor capricha nos detalhes singelos da vida caipira.
Assim, logo no começo enquanto Agenor toca, o leitor se delicia não só com o tal passarinho que vive no peito do cantor, mas com a casinha simples dos Bento em meio às árvores, o bolo de fubá, o café de bule e a tradicional xícara vermelha esmaltada.

As páginas do caderno do avô também são visualmente um primor e a forma de Chico descobrir mais sobre como o avô se parecia são um achado. Imagens de pessoas mais velhas não eram comuns nas casas do Interior antigamente, fotografias eram coisa bastante rara.
Assim, lembrando-se das próprias experiências na casa de avós e tias-avós, ele recriou um daqueles tradicionais retratos pintados de parede que existiam (e ainda persistem) em algumas residências do campo. E usou ainda outro recurso interessante: Chico vê as poucas fotos disponíveis de Firmino naqueles monoculozinhos coloridos que um dia, há muito tempo, foram muito populares.

Além de contribuir com o clima da história, as imagens raras e pouco nítidas cumpriram outra função. “Eu não queria dar uma ‘cara’ para o Firmino. Por isso, em todas as vezes que ele aparece, é uma foto meio desfocada, embaçada. Mesmo no retrato da parede ele é muito novo. A ideia era o Chico Bento juntar cada peça e formar na sua cabeça como ele enxerga o avô”, conta.
Na apresentação que faz da HQ, Mauricio de Sousa tece elogios merecidos a Orlandeli e destaca as características do caipirinha que criou há mais de 60 anos e que vê retratadas na Graphic Novel: inocência, perseverança e brejeirice.
Sem dúvida alguma, Orlandeli conseguiu (de novo) captar a essência do menino em uma História em Quadrinhos emocionante e imperdível. Cada página (ou nota) de Viola é uma prova disso.





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