Numa aventura de 1961 do Flash (Flash of Two Worlds), a DC Comics introduziu pela primeira vez nas histórias em quadrinhos o conceito de “multiverso”. Como, ao longo das décadas de publicações da editora, inúmeros super-heróis tiveram origens e poderes mudados, além de co-existirem versões diferentes de mesmos heróis em diferentes revistas, a solução foi dizer que existia um multiverso, ou seja, cada versão daqueles heróis na verdade existia em uma “Terra” diferente, localizada em um universo paralelo.
Naquela primeira história, descobriu-se que o Flash (o de roupa vermelha que se consolidou com esse nome e foi criado em 1956) tinha a capacidade de viajar entre os diferentes universos e foi assim que ele se encontrou pela primeira vez com Jay Garrick (o Flash original, criado em 1940, e que havia sido descontinuado em 1949).

Depois, em uma das sagas mais famosas da DC Comics, Crise das Infinitas Terras (1986), a editora fez com que os mundos onde viviam diversas versões de seus super-heróis se transpusessem – tudo graças a um supervilão, claro. A (genial) ideia era, por meio de uma longa e bem argumentada história, “fundir” as diferentes origens e versões de personagens.
Assim, naquela saga, heróis e vilões das muitas Terras se encontravam e, ao fim dela, boa parte não sobrevivia (e o próprio conceito de multiverso foi temporariamente extinto, para retornar anos depois ainda mais forte).
Criada por Mauricio de Sousa há mais de 50 anos (Bidu e Franjinha apareceram nas tiras de jornal em 1959), a Turma da Mônica também naturalmente teve personagens que mudaram ao longo dos anos – em especial no traço, mas alguns, como Tina e Rolo, foram radicalmente mudados algumas vezes. Já em 2008, surgiu a primeira “Terra Paralela”: Turma da Mônica Jovem, um título desenhado em traço mangá no qual os personagens tradicionais se tornaram adolescentes (a princípio, as histórias se passavam no “futuro” da turminha dos gibis regulares).


Mas o Multiverso da Mônica – ou “Moniverso”, como batizado pelo roteirista Flávio Teixeira Jesus – começou a se ampliar de maneira mais definitiva em 2009, quando para comemorar o cinquentenário de carreira do pai da turminha foi lançado MSP 50 – Mauricio de Sousa Por 50 Artistas. Naquela obra, seguida por outras duas semelhantes, diversos artistas desenharam as próprias histórias curtas ou versões dos personagens como homenagem a Maurício.
E, em 2012, quando o Astronauta estreou o selo Graphic MSP (no qual artistas convidados contam longas aventuras de personagens da Turma da Mônica tendo total liberdade de roteiro), o Moniverso cresceu exponencialmente. É curioso, então, que seja o próprio Astronauta a viver a primeira crise de realidades paralelas da turminha em Parallax , a mais recente novela gráfica a chegar nas bancas e livrarias.

Mais uma vez, o quadrinista Danilo Beyruth é o responsável por dar vida ao herói. E, diferentemente do que ocorreu nas quatro edições anteriores escritas e desenhadas por Beituth, que funcionavam individualmente ainda que se encaixassem em um arco, desta vez quem quiser absorver plenamente a história terá que ter lido as demais aventuras (Magnetar, de 2012; Singularidade, de 2014; Assimetria, de 2016; e Entropia, de 2018).
Parallax
A história de Parallax começa imediatamente após os fatos de Entropia, na qual Astro já havia tido um encontro com outra versão de si mesmo, o Almirante, sobrevivente de um universo onde o planeta Terra foi destruído e no qual ele e a esposa, Ritinha, tiveram uma filha. Ao final daquela história, o herói acaba inadvertidamente ficando com a menina, Isa.

E, nesta sequência, Astro não apenas está buscando os pais da espevitada garota como ainda irá descobrir que está fazendo isso no universo dela, enquanto o Almirante e a esposa foram lançados no “nosso” universo. Como se isso ainda não fosse suficiente, uma terceira versão do personagem entra em cena.

Cruel e impiedoso, este doppelganger sem nome definido trabalha para a versão da pirata Cabeleira Negra de seu próprio universo e, diferentemente de suas contrapartes, já sabia da existência dos diversos mundos paralelos. Mais ainda, ele tem uma missão/obsessão perigosa (para todos os demais): “colecionar” todas as versões de Ritinha que encontrar pela frente, custe o que custar.
Assim, os três Astros estão fadados a se encontrar quando a versão vilã descobre os paralelos onde vivem os dois outros. Aliás, vale recapitular: enquanto o Almirante casou com a Ritinha dele e constituiu família, a paixão do herói “original” vive na Terra, aparentemente solteira e descompromissada no momento.

Também vale ressaltar que, no diálogo entre Astro-Mau e Cabeleira Negra, fica clara a existência de diversas outras versões e universos, já que o vilão deixa claro que a coleção de Ritinhas vem sendo feita há muito tempo. Por sinal, o leitor que por acaso tiver acompanhado a série Os Livros da Magia (da Vertigo) automaticamente se lembrará da versão má de Tim Hunter que capturava todas as Molley O´Reilly dos próprios universos paralelos (teria Danilo Beyruth se inspirado ali?).
Como já é uma marca de Beyruth, Parallax tem um roteiro muito bem conduzido e arte maravilhosa. Contudo, a HQ funciona mais como um interlúdio para a próxima Graphic MSP do que uma história completa em si. Até porque, como os “capítulos anteriores” eram independentes, a principal função desta história é unir os pontos das HQs predecessoras para conduzi-las ao clímax.

Sim, haverá uma próxima, o que já fica claro bem antes do final de Parallax deixar o suspense no ar. Tanto Maurício de Sousa no prefácio quanto o jornalista de ciência Reinaldo Lopes já avisam os leitores de que haverá um sexto capítulo.
E, a julgar pela cenário armado nesta quinta parte, o desfecho final será grandioso. Duro é aguardar por ele…

Parallax tem 98 páginas (mais capa) coloridas, em papel couchê, contendo as já tradicionais páginas com extras de artes e curiosidades. A versão mais barata, com capa “mole”, custa R$ 34,90.

A origem do (termo) “Moniverso”
Para quem não sabe, o termo “Moniverso” apareceu pela primeira vez no sensacional crossover entre a Turma da Mônica Jovem e a Liga da Justiça, lançado no final de 2018. No mangá, os heróis da DC (e alguns vilões) acabam indo parar no bairro do Limoeiro, graças a uma caixa materna modificada por Mxyzptlk, e recebem a ajuda de Mônica e companhia para enfrentar os malvados locais.

Mais pro final da história, porém, chegam reforços: o Astronauta (olha ele aí de novo) traz para o combate – direto das páginas de algumas edições das Graphic MSP- versões de Piteco (Ingá), Jotalhão (Turma da Mata – Muralha) e Papa-Capim (Noite Branca).

Em toda a HQ, a turma sabe que os heróis da DC vivem em um universo paralelo (que pra eles – e pra nós – aparece em gibis, o que rende boas piadas advindas da mente genial do roteirista Flávio Teixeira de Jesus). E, quando surgem versões de realidades paralelas da turminha, a própria dentuça rapidamente batiza o multiverso da turma da Mônica de… Moniverso.




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