The Batman: um filme digno do Homem-Morcego

Quando o diretor Matt Reeves confirmou Robert Pattinson como Bruce Wayne no filme The Batman, muita gente torceu o nariz. Ter interpretado um vampiro em Crepúsculo (e deixado suspirando milhões de adolescentes ao redor do planeta) não seria credencial suficiente para dar vida ao Homem-Morcego, acreditavam os fãs – nem tampouco ter sido Cedric Diggory na franquia Harry Potter.

Mas, felizmente, as preocupações se mostraram equivocadas. Não só Pattinson convence na pele de um dos maiores heróis da DC Comics como o filme é digno das melhores histórias em quadrinhos do personagem criado em 1939 por Bob Kane. Não à toa, o filme amealhou US$ 128,5 milhões (o equivalente a R$ 648 milhões) em sua estreia nas bilheterias, marcando a melhor arrecadação em um fim de semana de estreia de 2022.

Aliás, desde que a pandemia começou, o único outro filme a arrecadar mais de 100 milhões num fim de semana de estreia foi Homem Aranha: Sem Volta para Casa, lançado no ano passado.

Conforme o diretor já havia antecipado em 2020, durante o DC Fandome, The Batman não é uma história de origem e, sim, uma aventura na qual o Homem-Morcego ainda está em começo de carreira e, ao investigar uma série de assassinatos, descobre como a corrupção está infiltrada em Gotham City.

Ano Um

Por esta pequena sinopse, quem acompanha as HQs do Homem Morcego já identifica a principal fonte de inspiração do filme: Batman, Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli (e algumas HQs de um suposto ano 2 que derivaram dela).  Na Graphic Novel de 1986, Miller e Mazzucchelli contaram as aventuras (e desventuras) de Bruce Wayne em um começo de carreira como Batman.

Na HQ, desenvolvida em clima noir, um Batman mais novo e um pouco inexperiente combate o crime e a corrupção que permeia a política e até mesmo a polícia da cidade, tendo como aliado o então tenente James Gordon. Exatamente o mesmo ocorre no filme, com um Gordon – bem interpretado por Jeffrey Wrigth – parceiro e leal ao Homem-Morcego (ainda que por vezes relutante).

E, notadamente, Batman ainda está iniciando na carreira de herói/investigador. Aliás, eis aí algo que muitos fãs comemoraram. Sim, no filme Batman manda muito bem nas lutas, distribui porradas a rodo e tem uma série de brinquedinhos caros bancados pela fortuna dos Wayne (entre eles uma novíssima versão do Batmóvel).

Mas, acima de tudo, o herói é um detetive. Ainda que – lembre-se, ele está em começo de carreira – às vezes demore um pouco demais para chegar a conclusões importantes.

Outra influência clara, ou melhor dizendo, escura de Ano Um é a ambientação. Praticamente todas as cenas são no escuro – há, talvez, duas que ocorrem durante o dia –  e reforçam um Batman mais sombrio e taciturno, bem como a ideia (também presente na HQ) de que o personagem quer causar medo nos vilões.

Também inspirado por Ano Um é a locução em off logo no início do filme, que possibilita ao espectador ouvir os pensamentos de Batman. Esse tipo de recurso, usado brilhantemente por Miller por meio de recordatórios de cores diferentes na Graphic Novel dos anos de 1980, virou marca registrada nos quadrinhos a partir dali.

Longo Dia das Bruxas

Outra inspiração declarada do filme é O Longo Dia das Bruxas, história em quadrinhos de Jeph Loeb e Tim Sale publicada entre 1996 e 1997. Nela, o Homem-Morcego tenta chegar à identidade de um serial killer que comete assassinatos em datas festivas e relacionados ao submundo dos gângsteres de Gotham City.

No filme, porém, o serial killer já se identifica logo de cara como o Charada e o motivo das mortes é justamente o que o vilão quer que Batman descubra. Curiosamente, o Charada nos quadrinhos não teve nenhuma versão homicida digna de nota. Pelo contrário, houve até algumas histórias em que, redimido, ele colocou seu cérebro brilhante a favor da lei.

Por outo lado, na série Gotham, onde foi brilhantemente interpretado por Cory Michael Smith, o Charada era um assassino psicopata, imprevisível e bastante perigoso. O Charada de The Batman, que ganhou vida pela interpretação de Paul Dano, puxa mais para esse lado, com direito a requintes de crueldade.

Mas, quando as motivações do vilão forem reveladas mais para o final do filme, será impossível ao público não se lembrar da Gotham City retratada no excelente Joker. Neste sentido, não há nada de gratuito na identidade do companheiro de conversa do Charada na última cena do personagem em The Batman.

Outras HQs

Segundo a DC Comics, outro quadrinho que teria inspirado o filme é Batman: Ego, de Darwin Cook. A editora inclusive lançou nos Estados Unidos um box “caça-níqueis” com Ano Um, Longo Dia das Bruxas e Ego, convidando o leitor a conhecer – e comprar – as três obras que inspiraram o filme.

Mas, sinceramente, não há tanto assim de Ego – lançada em 2000 contendo novas interpretações de Batman, Mulher-Gato, Arlequina e outros personagens – na obra de Matt Reeves.

É muito mais claro que o filme também bebeu de obras como Batman – Vitória Sombria e Cidade Eterna (nas quais, assim como em Longo Dia das Bruxas, o leitor descobre mais sobre as origens de Selina Kyle, a Mulher Gato).

E até mesmo em Terremoto e Terra de Ninguém, considerando-se alguns efeitos do plano do Charada…

Fugindo um pouco dos quadrinhos, ouça atentamente a trilha sonora que toca em boa parte das aparições mais sombrias de Batman. Impossível não lembrar da trilha sonora de outro personagem que se vestia de preto e com capa, mas este sim literalmente no lado escuro (da força): Darth Vader.

Um dos melhores filmes de Batman

Resumindo, Matt Reeves fez um ótimo trabalho pegando um monte de boas referências nas Histórias em Quadrinhos e fazendo um filme empolgante, tanto que mal se vê as praticamente três horas de duração passarem.

Pattinson manda muito bem tanto como Batman quanto na pele de um  Bruce Wayne taciturno, assim como Paul Dano está impecável nesta versão nova do Charada. Zoë Kravitz também se mostrou uma ótima Mulher Gato, na linha mais realista das HQs, e a química entre ela e o Homem Morcego funcionou perfeitamente.

Vale fazer mais dois destaques. Primeiro um irreconhecível Collin Farrel interpretando o Pinguim – no filme, ainda que o rosto do vilão (e não o do ator) seja facilmente identificável, ele é um mafioso mais realista e não o caricato homenzinho de monóculo, piteira e cartola.

Uma curiosidade: este não é a primeira vez de Farrel como vilão em um filme baseado em quadrinhos. No Universo Marvel, ele já deu vida ao Mercenário (Bulls Eye) no esquecível filme do Demolidor estrelado por Ben Affleck.

O outro destaque vai para a interpretação certeira de Andy Serkis como o mordomo Alfred Pennyworth. Além do sotaque inglês irretocável, Serkis conseguiu imprimir no personagem a medida certa de carinho, preocupação e sarcasmo que marca a relação de Alfred com Bruce Wayne.

E, sim, também não é a primeira incursão de Serkis em filmes de HQs: o ator interpretou  Ulisses Klaw, um dos vilões de Pantera Negra (também do Universo Marvel).

Pra terminar, Barry Kheogan (o Druig, de Eternos) também está ótimo em uma pequena e memorável participação em The Batman. Mas não vamos te contar quem é ele: pra descobrir você precisa assistir o filme e prestar atenção. Ou ler alguns dos muitos spoilers por aí na Internet, mas nós é que não vamos te falar.

Em tempo: muita gente se pergunta se há uma cena pós crédito em The Batman. Chamar de cena é um certo exagero, mas há alguma coisa sim. Se você não estiver cansado de ficar na cadeira após o filme e quiser conferir, o faça por sua conta e risco.

Saiba apenas que, se tiver bom humor, você poderá rir do que aparece na telona. Se não, vai sair xingando. Mas só a cena, porque o filme é ótimo.     

NOTA DO CRÍTICO: Excelente

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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