Oscar 2022: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é um filme fēicháng hǎo

Infelizmente,  por causa da pandemia boa parte do grande público que costuma lotar os cinemas para conferir os filmes da Marvel não teve a chance de assistir em 2021 a Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, desde novembro restrito aos assinantes do Disney +. Uma pena, afinal, o filme – que concorre ao Oscar de Efeitos Especiais de 2022 – não só quebrou uma série de paradigmas como é um filme fēicháng hǎo.

Se você não é uma dos mais de um bilhão de pessoas que falam chinês no mundo, não de preocupe que a gente traduz. A expressão significa “de primeira classe”, “super”, e utilizá-la neste texto é justamente uma forma de entrar em um dos citados paradigmas quebrados.  Shang-Chi não só é um filme que tem todos os papéis principais protagonizados por asiáticos como, e isso é uma tremenda novidade para um blockbuster Disney-Marvel, os dez primeiros minutos são falados em chinês.

O que foi não apenas uma novidade como um tremendo risco assumido pelos produtores, uma vez que o público dos EUA, normalmente o maior consumidor dos filmes (e derivados) de herói, é avesso a legendas. Mas deu certo.

As razões para isso são inúmeras e, com certeza, passam pelo ótimo roteiro, as cenas de luta, o carisma dos atores (em especial a divertida dupla formada pelo personagem título e a amigona Katy, interpretados respectivamente por Simu Liu e Awkwafina) e, claro, os efeitos visuais que podem render uma estatueta dourada ao filme em março deste ano. Isso se o longa vencer outros fortes concorrentes, como Duna e o co-irmão da Marvel Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa.

Para quem ainda não viu Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, o filme leva para as telas um personagem criado em 1973, popularmente conhecido como Mestre do Kung Fu. Diga-se de passagem, um personagem pouco popular – até porque, antes de ser reformulado nos anos de 1990 e 2000, tinha histórias bastante repetitivas nos quadrinhos, para não dizer enfadonhas, com excesso de textos e estereótipos a rodo.

De qualquer forma, o ponto comum em ambas as mídias é que Shang-Chi é filho de um grande mestre internacional do crime (nas HQs, originalmente ele era originalmente chamado de Fu Manchu e, depois, de O Mandarim).  O ponto inicial do filme é justamente o surgimento do vilão, há mais de mil anos, quando um homem chamado Xu Wenwu descobriu os tais dez anéis do título.

Os artefatos, que na verdade se assemelham mais a argolas ou braceletes finos, foram encontrados por ele – ninguém sabe ao certo qual a origem – e concedem “a força de um Deus e a dádiva da vida eterna”. E, no milênio seguinte, Wenwu (interpretado por Tony Leung) os usou com muito empenho para amealhar poder e riqueza, criando uma organização que comandou secretamente boa parte do mundo se utilizando de assassinatos, guerras, assassinatos políticos, terrorismo e outras práticas do gênero.  Apesar de agir mais nas sombras, nos sussurros sobre a organização Wenwu era chamado por vários nomes, inclusive O Mandarim.

Tudo “ia bem” para Wenwu até 1996, quando ele resolveu ir em busca de mais poder em um local lendário chamado Ta Lo e se confrontou com uma guerreira que protegia o local. Na luta que se seguiu, a moça não só impediu a entrada do Mandarim como ele acabou se apaixonando por ela e deixando a antiga vida de vilanias para trás.

Cabe aqui um parêntese. As coreografias de artes marciais no filme são muito boas, algumas inclusive remetendo ao melhor estilo Jackie Chan, mas esta luta entre O Mandarim e sua futura esposa Ying Li (interpretada por Fala Chen) é de uma poesia impar, uma verdadeira dança – com ótimos efeitos visuais – na qual os personagens acabam seduzindo um ao outro. A referência a filmes como O Tigre e o Dragão é inevitável. Aliás, vale lembrar que a atriz Michelle Yeoh, que deu vida a uma das personagens do famoso filme dirigido por Ang Lee, também faz parte do elenco de Shang-Chi.

Fechado o parêntese, o mesmo amor que salvou o Mandarim irá torná-lo muito mais cruel quando este se vir privado da esposa. E, sem a presença da mãe, o (renovado) vilão transformará o filho Shang-Chi em uma arma letal, até que o garoto fuja do pai e se esconda pelas próximas décadas. Isso posto, o filme começa de verdade com um jovem adulto Shang-Chi vivendo em Chigago, onde é muito feliz trabalhando como manobrista ao lado da amiga Katy.

Entram aí novas quebras de histórias típicas de herói Marvel, da cidade-sede e o trabalho do protagonista à amizade real com uma mulher que, não, não vai se tornar seu interesse romântico/amoroso, como é de praxe.

Sem dar nenhum spoiler, as coisas desandam quando o pai de Shang o descobre e, a partir daí, ele e Katy vão embarcar numa viagem até o oriente e, eventualmente, até Ta Lo, onde habitam diversos seres mitológicos – entre eles a famosa raposa de nove caudas que já virou até Pokémon. E, previsivelmente (e nem por isso menos emocionante) toda a ação vai desembocar em uma batalha final épica.

Tudo isso no melhor estilo Marvel, com muita ação, pancadaria e piadinhas diversas. Aliás, o humor do filme está presente não só nos diálogos como em participações especiais. A presença de Wong, o fiel escudeiro do Dr. Estranho, por exemplo, é uma delas. E em dose dupla: primeiro, numa inesperada luta livre com o Abominável. Depois, no engraçadíssimo pós-crédito (são dois neste filme).

Outro contraponto cômico fica por conta do ator britânico Ben Kingsley, revivendo o papel iniciado por ele em Homem de Ferro 3. Pra quem não se lembra, Kingsley deu vida a Trevor Slattery, um ator excêntrico contratado para se passar por um suposto líder terrorista conhecido como… O Mandarim.

Acontece que o verdadeiro Mandarim não gostou nem um pouco da piada e acabou sequestrando Slaterry, que em dado momento acaba se unindo aos protagonistas.

Em tempo: a irmã de Shang-Chi, Xu Xialing (Meng´er Zhang), também é parte importante da história e não deve nada a ele no campo das artes marciais.

Por sinal, a atriz Meng´er Zhang quis dar um tom bem realista à personagem, por isso fez aulas com instrutores de MMA, tai-chi, dardo e corda antes de dar vida à Xu Xialing – que, a julgar pela segunda cena pós-crédito, é presença garantida em Shang-Chi 2 (a sequência foi confirmada em dezembro do ano passado pela Marvel/Disney).

Com tantos predicados, é de se lamentar apenas que Shang-Chi – que mesmo em tempos de pandemia foi a quinta maior arrecadação de 2021, com cerca de 432 milhões de dólares em todo o mundo – tenha tido uma única indicação ao Oscar. E ainda por cima concorrendo com outro filme de herói da Marvel.

Em tempo, Homem Aranha 3 também está na lista do Oscar de “favoritos do público”. Segundo a academia, não se trata de uma nova categoria/estatueta, mas sim de um reconhecimento a filmes queridos da audiência, que votará via twitter. A lista de favoritos tem outro filme oriundo das HQs, Esquadrão Suicida.    

Pra terminar, a Disney tem outros concorrentes a Oscar neste ano: Cruella, merecidamente, é um dos indicados a melhor figurino. A animação Encanto disputa a categoria Trilha Sonora e  Melhor Animação, sendo que nesta última tem duas outras concorrentes Disney: Luca e Raya e o Último Dragão.

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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