Putz, agora vamos gostar da Cruella?

Com um argumento bem amarrado, ótima direção, elenco maravilhoso, trilha sonora avassaladora e figurinos impecáveis, o filme Cruella já arrecadou mais de 50 milhões de dólares em cerca de um mês nos cinemas, além de incontáveis fãs no canal de streaming  Disney+ .  

A pergunta que muita gente se faz antes de ver o filme, porém, é: agora então vamos gostar de Cruella de Vil? Aquela mesma que queria esfolar uma centena de filhotinhos de dálmatas para fazer casacos de pele?

 

Afinal, em 2014, a Disney nos mostrou que Malévola não era uma vilã e, sim, uma vítima incompreendida da história (o rei Estevão, quem diria, era o verdadeiro canalha). Seria então a hora e a vez de descobrir que a temível Cruella não passa de mais uma mulher oprimida e difamada pelo sistema?

Bem, a vantagem de os vilões da Disney serem absolutamente unidimensionais nas histórias originais – eles são maus e pronto – é justamente que, se o passado dos antagonistas é uma folha em branco, qualquer um pode escrever o que quiser nela.

E os roteiristas, claro, sabem se aproveitar disso muito bem. Mas, pelo menos nesse caso, ninguém tentou absolver Cruella, o que tornou o resultado final muito melhor.

Na prática, quem assistir ao filme vai entender melhor a personagem. Mas daí a gostar dela, são outros quinhentos.  Do filme, contudo, é quase impossível não gostar.  A história começa mostrando a infância difícil da menina Estella, discriminada não só pelos cabelos diferentes como pela criatividade, independência e por não aceitar desaforos.

Além de ser considerada uma “criança difícil”, a menina (muito bem interpretada por Tipper Seifert-Cleveland) exibe momentos de agressividade e um lado obscuro, quase uma dupla personalidade apelidada de… adivinhe? Cruella.

Depois de ser expulsa da escola, a mãe resolve leva-la para Londres, até para que o talento da garota para moda possa florescer. Infelizmente, por alguns fatos imprevisíveis no caminho, a jovem Stella acaba se vendo sozinha na cidade grande, acompanhada apenas pelo cachorrinho Buddy.

Ali, ela vai acabar sendo “adotada” por dois órfãos que vivem de pequenos furtos, Gaspar e Horácio (uma bela sacada, que explica de maneira muito humana a relação da futura Cruella com os capangas).

 

Aos trancos e barrancos, Estella cresce (e passa a ser interpretada de maneira genial por Emma Stone) e acaba tendo o talento reconhecido – e explorado – pelo grande nome da moda na época (lembrando que a história se passa na Londres dos anos de 1970), “a Baronesa”.

E é com esta mulher poderosa, também muito bem interpretada por outra Emma (Thompson), que ela viverá uma relação ao estilo O Diabo veste Prada.

Porém, alguns fatos acabam se revelando e trazem à tona o lado obscuro de Estella. Desta forma, ela passa a concorrer no mundo da moda com a Baronesa por meio da persona de Cruella, enquanto se mantém submissa a ela como Estella.

O resultado de tudo isso tem que ser visto no filme, mas, parafraseando um famoso ditado, os espectadores descobrirão que “por trás de uma grande vilã, existe uma vilã maior ainda.”

 

Moda e música

Moda é uma parte importante de Cruella. Chamam a atenção no filme não só as diversas criações da personagem, a maioria num design punk que estava em ascensão na época, como os happenings que ela faz para lançar as peças e, por que não dizer, humilhar a concorrência.

A figurinista Jenny Beavan, que tem dez indicações e dois Oscars na categoria (2016 com Mad Max :Fury Road e 1987, com A Room with a View) criou mais de 50 looks para o filme.

Entre eles, um vestido de baile com mais de 5 mil pétalas de organza costuradas individualmente, à mão. “Cruella é um filme sobre a moda, sobre roupas. Mas também tem um roteiro muito denso, afinal vemos esse arco completo dela, e sua jornada de ser uma jovem garota que é totalmente rebelde e claramente ama roupas para se tornar essa designer da moda que é bastante única”, diz Jenny.

 

Se as criações de Cruella são de encher os olhos, os ouvidos também não ficam fora  dessa: a trilha sonora do filme é maravilhosa. São mais de 40 músicas que intercalam composições originais de Nicholas Britwell (entre elas Call me Cruella, com direito a interpretação de Florence + The Machine)  com clássicos muito bem escolhidos para que as letras “casem” com a história no momento certo.

Entre estes últimos há canções de Supertramp (Bloody well right), Nina Simone (Feeling Good), Bee Gees (Whisper whisper), The Doors (Five to one),  Queen (Stone Cold Crazy), Black Sabbath (The Wizard), Deep Purple (Hush), David Bowie (Boys keep swinging), Nancy Sinatra (These boots are made for walking), The Clash (Should I stay or shoud I go) , Ike e Tina Turner (interpretando Come Together, dos Beatles), e Rolling Stones (Simpathy for the Devil).

La continuación

Com tantas qualidades e números superlativos, Cruella se provou muito melhor que Malévola, mas vai mais uma coisa em comum com a (ex) vilã dA Bela Adormecida: um segundo filme. Disney confirmou que tem planos para Cruella 2. O filme já está em desenvolvimento e o diretor Craig Gillespie e o escritor Tony McNamara retornarão para contar o próximo capítulo da história.

 

“Estamos muito satisfeitos com o sucesso de bilheteria da Cruella , em conjunto com seu forte desempenho no Disney +e  Premier Access até o momento. O filme foi incrivelmente bem recebido pelo público em todo o mundo, com uma pontuação de público de 97% no Rotten Tomatoes, além de A em todos os grupos demográficos do CinemaScore no fim de semana de abertura, classificando-o entre os mais populares de nossas reimaginações em live-action. Estamos ansiosos para um longo prazo, à medida que o público continua a desfrutar deste filme fantástico”, diz a empresa, em nota oficial.

Nada mal para uma personagem que, quando estreou em 1956 (no livro Os 101 Dálmatas, escrito por Dodie Smith, adaptado para desenho pela Disney em 1961), tinha como principal objetivo ser má e antipática.

Tanto que, na versão em português do desenho, o dono do dálmata Pongo, Roger (que está no filme na pele de advogado de Cruella, assim como a esposa dele, Anita, que agora é jornalista e permanece como amiga de infância da vilã), cantava:  “Malvina Cruella, Malvina Cruella, se querem sossego fujam dela”.

Ou, pra quem preferir a versão em inglês (sem o nome “Malvina”): “Cruella de Vil, Cruella de Vil, if she doesn´t  scare you, no evil thing will…

 

 

NOTA DO CRÍTICO: Excelente

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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