Pequenos (e divertidos) Heróis Marvel: traço fofinho e muitas piadinhas internas

Desde fevereiro de 2025 disponível no Brasil pela Panini, Pequenos Heróis Marvel chama a atenção logo de cara pelo traço fofinho. Apresentando os supers favoritos da Casa das Ideias com cabeças arredondadas e corpos atarracados, os desenhos fazem pensar que o autor Chris Giarusso é uma espécie de mistura entre Jack Kirby – responsável pelos desenhos da maioria das grandes criações de Stan Lee e companhia – e Charlie Schulz, de Peanuts. É impossível não enxergar Charlie Brown, por exemplo, no rosto do professor X desenhado por ele.

Parte da diversão de ler as (até o momento) oito edições do título é conferir as versões infantis de Homem-Aranha, Wolverine, X-Men, Vingadores, Dr. Estranho, Quarteto Fantástico…  Cada gibi – no chamado formatinho e a R$ 9,90 cada- traz uma miríade de rostos, com o perdão do trocadilho, super conhecidos encaixados em corpos pequenininhos com cabeçonas desproporcionais.

Já os roteiros, bem, aqui a história é diferente. Ainda que a Panini anuncie a publicação como “diversão para todas as idades”, e isso de fato é verdade, quem já acompanha e, mais ainda, conhece a história dos personagens da Marvel vai se divertir muito mais. Isso porque há inúmeras “piadas internas”, que fazem zoeira com fatos amplamente conhecidos por quem acompanha as HQs da Marvel, mas talvez não façam tanto sentido para novos leitores.

Essa ideia vem da origem dos Mini Marvels, como são chamados originalmente. Giarusso criou a brincadeira dentro de um espaço das revistas da Marvel estadunidenses chamado de Bullpen Bulletins (algo como “notícias da redação”). Esta seção de algumas páginas, que apareceu pela primeira vez em 1965, trazia notícias sobre novidades vindouras os gibis, perfis de artistas, algumas artes ,constantemente, mensagens do próprio Stan Lee.

Era, de certa forma, uma newsletter para os fãs. Em 1999, começaram a ser publicadas neste espaço tirinhas de quadrinhos humorísticos escritas e desenhadas por Giarusso, batizadas de Bullpen Bits, onde o autor brincava com fatos da Marvel. Na maioria das tiras, os protagonistas eram os “Mini Marvels”.

Posteriormente a Marvel começou a lançar coletâneas das tiras e revistas one shot estreladas pelos versões infantis com histórias mais longas parodiando o “universo adulto.” E foi assim que surgiram os Pequenos Heróis Marvel.

Para se ter uma ideia mais específicas dos roteiros, vale a pena se debruçar sobre a edição 1 lançada no Brasil, tendo como destaque o Homem-Aranha e Wolverine. Já na história inicial se destaca a grande quantidade de texto nos balões, necessária para situar o leitor no universo dos mini e na história. Nada prejudicial, já que Chris Giarusso equilibra bem o fato com diversas sequências só com imagens ou pouquíssimo texto na sequência.

A HQ mostra um Homem-Aranha criança trabalhando como entregador de jornal para JJ Jameson, que ironicamente sabe que Parker é o Aranha – e reclama muito que ele não cobra pelas assinaturas – e até contrata Venom para o mesmo serviço.

Em paralelo, Aranha namora Gwen Stacy, que é “talaricada” pelo amigo do herói, Harry. E o pai de Harry, o Duende Verde, briga com o jovem aracnídeo cada vez que ele vai entregar o jornal.

Aqui já fica claro que o conhecimento da cronologia do Aranha ajuda a entender melhor as piadas, já que Gwen (primeira paixão do herói) morreu nas HQs em 1973 pelas mãos do duende. Uma cena, que por sinal, é recriada de maneira cômica na HQ.

Também há diversas outras piadas que são engraçadas por si só, mas mais divertidas se o leitor conhece o universo oficial da Marvel. Por exemplo, o fato do Aranha ficar de uniforme na frente da Tia May o tempo todo ignorar o fato de que ele é o herói; ou a zoação de que o professor Xavier usa os poderes mentais para apagar informações (ou dívidas) quando elas não interessam.

E ainda o fato da cura do Coisa não interessar realmente aos demais integrantes do grupo (num chiste que termina com a famosa frase de Reed “Sempre vai haver um Quarteto Fantástico”, usada à exaustão quando alguém deixava a equipe e era substituído); ou do Gavião Arqueiro tentar o perdão governamental aos Thunderbolts (os originais, não os do filme) para transformá-los em heróis.

Já a segunda história, com Wolverine indo ao mercado para comprar cereal, tem um pouco menos de referências e abre espaço para confrontos engraçados com personagens que vão de ursos no parque a caixas e funcionários obtusos de supermercado.

Mas, ainda que em menor volume, mais uma vez há gracinhas que se aproveitam melhor se o público já conhecer o universo dos X-Men. Detalhe: o traço de Giarusso aqui, pelo menos em alguns quadros, parece homenagear Calvin, de Bill Watterson.

Resumindo, Pequenos Heróis Marvel é agradável aos olhos, bem-humorado e com preço acessível, mas as risadas são mais garantidas para quem conhece um pouco mais a fundo os grandes heróis da Marvel.

Em tempo: é importante não confundir Pequenos Heróis Marvel com Pequenos Heróis. Este outro título, lançado originalmente pela Devir em 2010, foi um (belíssimo) tributo ao gênero de super-heróis concebido, roteirizado e editado pelo quadrinista brasileiro Estevão Ribeiro (de Hector e Afonso – Os Passarinhos), e com desenhos de outros grandes artistas nacionais como Vítor Cafaggi, Raphael Salimena, Fernanda Chiella e outros.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

6 comentários

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    Que review deliciosa, Djota! Me pareceu uma homenagem disfarçada à nossa paixão por HQs. Será que você brincou ao dizer que as risadas são mais garantidas para quem conhece a Marvel? Será que é uma piada interna do universo dos quadrinhos? 😉 Até a comparação com Pequenos Heróis (o tributo brasileiro) foi inteligente, sem deixar de ressaltar a qualidade da produção dos Pequenos Heróis Marvel. Uma leitura que, sem dúvida, enriquece ainda mais quem já é fã da galáxia! 🧠💥quay random

  • Que review inteligente! Mas eita, Djota, não dá pra não notar que a gente tá parecendo aquele leitor que precisa conhecer a cronologia pra rir, né? kkkk Essa HQ dos Pequenos Heróis é tipo aquele super-herói doce, mas só dá super-punch de risada pra quem tá ligado na teia toda. pra gente que é apenas um entregador de jornal (sem ser o Aranha, claro), algumas piadas passam batido, hein? Mas a forma como você descreve o equilíbrio de Giarusso entre texto e ilustração já me rendeu uma risada. E a nota sobre a homenagem a Calvin? Perfeita! Ainda bem que existem HQs como essa, pra gente que não é um fã oficial, mas que adora a brincadeira.download YouTube

  • Adorei a reportagem! Mas eita, fiquei com saudade das piadas que só quem conhece o Quarteto Fantástico compreende, né? As tiras de Giarusso são clássicas, mas ler sobre elas sem rir das referências é como tentar entender o porquê do Duende Verde reclamar da assinatura do Homem-Aranha sem ter visto a HQ original. Uma homenagem a Calvin também merece destaque! Compreendo que não para todo mundo, mas pra quem é fã, são risadas garantidas. E não confundam com os Pequenos Heróis da Devir, que é outra história totalmente boa! Valeu pelo resgate!hẹn giờ online

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