O público padrão de séries e filmes de super-heróis espera muitas cenas de ação, um protagonista vestido com um uniforme chamativo e executando ações altruístas em defesa dos mais fracos e oprimidos. Absolutamente nada disso acontece em Magnum (Marvelman), produção da Disney+/Marvel. Ainda assim (ou, alguns dirão maldosamente, justamente por isso) a série é ótima.
O seriado live-action é muito livremente – pelo menos nesta primeira temporada – baseado em um super-herói quase desconhecido do público que não lê muito gibi. Criado em 1964, Wonderman (inexplicavelmente batizado nos gibis brasileiros como Magnum) surge inicialmente como um vilão dos Vingadores, atuando em parceria com o Barão Zemo, que lhe deu uma gama de enormes superpoderes de energia iônica.
Magnum voa, manipula energia, tem superforça, consegue alterar a forma física e é virtualmente imortal (não precisa comer, beber nem dormir, e consegue reconstruir o próprio corpo caso ele seja destruído).

Rapidamente ele passa para o lado dos mocinhos, chega a ser dado como morto (o sintozoide Visão foi criado utilizando os padrões mentais do “falecido”), mas volta a viver e chega a integrar os Vingadores – e até a ter um romance com a Feiticeira Escarlate.
Tudo isso, porém, não tem relação alguma com a série, que basicamente se utiliza do nome do herói dos quadrinhos (Simon Willians/Wonderman) e faz uma homenagem a ele no visual de um filme que o protagonista da série adora e que ganhará um remake, no qual ele quer desesperadamente trabalhar.

Este é o primeiro ponto importante: o Simon Williams da Disney+ é exclusivamente um ator (o dos quadrinhos também foi por um tempo, mas era apenas uma profissão que exercia quando não estava voando por aí defendendo o mundo). No caso do protagonista do seriado, ele é esforçado, mas meio canastrão e vítima de uma certa mistura de perfeccionismo e arrogância que o faz perder vários papéis.
Vivendo uma fase ruim, piorada um pouco mais por uma separação recente, Simon (interpretado por Yahya Abdu- Mateen II) se anima quando descobre que o diretor Vonn Kovack (Zlatko Buric), um sujeito tão premiado quanto excêntrico, anuncia o remake do filme Wonderman, um clássico dos anos de 1980 que ele costumava assistir com o falecido pai. A partir daí Simon resolve fazer de tudo para ser escalado no papel principal.
Amizade inesperada (?)
Fortuitamente, Simon acaba se encontrando com Trevor Slattery (Ben Kingsley), um ator bem mais capacitado que ele, mas que teve a carreira destruída por excessos e, em última instância, por ter enganado o mundo ocidental ao “interpretar” o terrorista Mandarim (como visto em Homem de Ferro 3). Aliás, cabe aqui um parêntese: quem não viu o terceiro longa do Homem de Ferro nem Shang-Chi: a Lenda dos Dez Anéis, filmes nos quais o personagem Trevor já apareceu, não precisa se preocupar, pois tudo o que é necessário saber aparece em Magnum.

Os dois iniciam um relacionamento de amizade e mentoria que vai se estreitando cada vez mais e que dá a tônica e a graça do filme, em diálogos e cenas memoráveis, que envolvem os bastidores (bastante reais) da indústria cinematográfica e do teatro.
Por sinal, o filme tem citações diretas e indiretas a mais de duas dezenas de produções reais, referindo-se a testes/papéis de ambos os personagens, míticas e lições morais envolvendo longas-metragens e peças de teatro, e até mesmo diálogos famosos extraídos de alguns deles. A cena em que Simon tenta se safar de uma improvisação usando uma fala de Julia Roberts em Uma Linda Mulher, por exemplo, é ótima (e fãs do filme reconhecerão prontamente o diálogo).
Apenas para citar algumas das produções às quais Magnum faz referências, além da citada Pretty Woman, aparecem Sons of Anarchy, M3gan, A Mosca, Rei Lear, Amadeus, Ruptura, Matrix, Fuga à Meia-Noite, Ninguém segura esse Bebê, Percy Jackson e os Olimpianos, Crepúsculo, Perdidos na Noite, Vinhas da Ira, Matrix, Frozen e Lilo & Stitch, entre outros. Também há pelo menos uma referência a um filme existente apenas no universo Marvel: Talikota, estrelado por Kingo, personagem de Os Eternos.

Também há participação de atores interpretando a si mesmos (ou pelo menos a versão de si mesmos na série), caso de Josh Gad (o LeFou do live-action de A Bela e a Fera e voz de Olaf em Frozen); Ashley Greene (Crepúsculo) e Joe Pantoliano (Matrix e Os Sopranos)
Segredos
Enquanto a amizade – e oportunidades – da dupla vai crescendo, o público descobre que ambos carregam segredos. Simon, como todo mundo que vai assistir ao seriado já sabe, tem superpoderes. Contudo, ele os esconde, já que em virtude de um incidente ocorrido em Holywood (mostrado no episódio Porteiro/ Doorman), filmes com meta-humanos exigem seguros caríssimos, o que os torna praticamente banidos da profissão de ator. Por isso, a única ocasião em que ele usa os (imensos ) poderes são quando perde o controle emocional ou têm, de maneira bastante literal, explosões de raiva.

Trevor, por outro lado, não se encontrou tão fortuitamente com Simon como fez parecer. Ainda vivendo problemas legais pela atuação como terrorista, ele carrega uma agenda secreta que vai comprometer a amizade com Simon e o levará em última instância a uma chance de redenção. Neste sentido, o final (não vamos dar spoilers aqui sobre os fatos em si) possibilita a ambos os personagens a chance de fazerem atos de sacrifício e heroísmo, mas não a favor da humanidade e, sim, da amizade sincera que nutrem um pelo outro.
Sucesso
Mesmo com tão pouco “super-heroismo” tradicional, Magnum conquistou o público e a crítica. No renomado Rotten Tomatoes, site agregador de críticas de cinema e televisão fundado em 1998, a aprovação da série foi positiva para 89% dos críticos – um índice que sobe para 95% na categoria “Top Críticos” – e 91% do público.

O segredo para o sucesso reside justamente no fato de contar uma boa história, deixando de lado as fórmulas de filmes e séries do gênero. Uma história que mistura drama e comédia na medida certa, que fala de camaradagem, sacrifício e redenção. Para não mencionar inseguranças, frustração profissional, conflitos familiares, crises de identidade…e uma bela reflexão sobre a indústria cinematográfica e a arte de atuar.
Por sinal, vale registrar ainda as atuações de Yahya Abdu- Mateen II e Ben Kingsley, ambas impecáveis. Kingsley, em especial, aproveita muito bem a chance de desenvolver o personagem Trevor, até então pouco mais de um alívio cômico de outros filmes. E faz isso magistralmente.

Apesar do sucesso e da cena final de Magnum deixar abertura para uma continuação, ainda não se sabe se ela ocorrerá nem como – e se – o personagem vai se encaixar no restante do Universo Cinematográfico Marvel.
Levando em consideração a forma que os poderes dele surgiram e se manifestam no filme, há uma forte possibilidade de que ele seja um mutante, o que não quer dizer que ele vá aparecer em um possível longa dos X-Men, antes produzidos pela Sony agora incorporados ao UCM.

Também não parece que ele vá integrar tão cedo os Vingadores (como ocorre nas HQs), uma vez que em todo o seriado ele sequer usou uniforme, salvo quando estava interpretando o papel de super-herói. Muito menos desenvolveu seus poderes (ainda que pareça ter bastante controle deles no minuto final do seriado).
Especulações à parte, vale a pena assistir a todos os episódios de Magnum/Wonderman no Disney+. Com ou sem continuação, se trata de um dos melhores seriados Marvel dos últimos tempos.




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