Destacar um único personagem para falar do piracicabano Ivan Simões Saidenberg é confessadamente uma injustiça. Afinal, é verdade que foi da cabeça de Ivan (e do lápis de Carlos Edgard Herrero) que surgiu o famoso alterego de Peninha. Mas também dela saíram outras personas do desastrado primo do Pato Donald (como Pena Kid, Pena das Selvas, Pena Submarino e Penado, o Espírito-que-desanda) e outros personagens que ganharam o mundo com o selo de Walt Disney, como o Morcego Verde e os primeiros quatro primos de Zé Carioca (Zé Paulista, Zé Jandaia, Zé Pampeiro e Zé Queijinho).
Também são fruto da criatividade de Ivan personagens menos conhecidos como o piloto de corridas Vavavum e Napo, o Leão. Mas a imaginação sem fim de Saidenberg se mostrava ainda em personagens que ele não havia criado, mas para os quais escrevia inúmeras aventuras. Como roteirista ele escreveu mais de mil histórias em quadrinhos para os estúdios Disney produzidas na Editora Abril, onde trabalhou por 15 anos, e outras centenas para outros estúdios brasileiros.
Nascido em 12 de novembro de 1940, Ivan começou a carreira nos quadrinhos aos 20 anos, já como roteirista, ao lado do irmão Luiz, que desenhava. A dupla produzia então HQs de terror e aventura, que eram publicadas por quatro diferentes editoras ( Outubro, La Selva, Taika e Penteado).

Em 1970, foi contratado pela Editora Abril para produzir os quadrinhos nacionais dos personagens da Disney, algo que fez com maestria. A produção dele era tão grande (e genial), que é praticamente impossível existir um leitor dos gibis da editora entre aquele ano e o de 1985 que não tenha visto dezenas das aventuras roteirizadas por ele.
Foram efetivamente mais de mil estreladas por Zé Carioca, Pato Donald, Peninha, Mickey, Pateta, Esquálidus, Tio Patinhas, Professor Pardal, Irmãos Metralha, Lalá, Lélé, Lili, Zorrinho, Metralhinhas… A lista é enorme e se aplica a todos os sabe-lá-quantos personagens que foram publicados pelos estúdios Disney por aqui. No blog Ivan Saidenberg – Histórias Comentadas, a filha dele – Lucila – disponibiliza uma parte do acervo, com comentários e curiosidades.

Sempre cheio de ideias, Saindenberg também começou a criar personagens dentro das HQs que desenhava. O mais famoso deles foi o Morcego Vermelho, que apareceu pela primeira vez em 1973, como uma metáfora/sátira ao Batman. Na aventura, o desastrado Peninha empresta uma fantasia do primo Donald para entrar em uma festa beneficente e acaba – sem querer -impedindo um assalto que estava sendo cometido pelos irmãos Metralha.
Apontado como o novo herói da cidade e com a ajuda dos mais diversos badulaques inventados pelo professor Pardal, ele passa a combater o crime em Patópolis, para desespero dos verdadeiros homens da lei (já que ele normalmente mais atrapalha do que ajuda). Bem aceito pelo público, o herói começou a ganhar novas histórias e teve até revista própria, além de ter sido oficialmente incorporado no universo Disney. Fora do Brasil, o Morcego fez – e ainda faz – sucesso em especial em países como a Itália, onde é chamado de Paperbat.

Saidenberg também criaria novas sátiras usando Peninha – como Pena Kid, Pena das Selvas, Peninhoé e outras – e, brincando com o próprio Morcego Vermelho, arrumaria também uma carreira super-heróica para o Zé Carioca. Em 1975, saiu a primeira HQ do Morcego Verde.
Fã declarado do Morcego Vermelho, o papagaio decide que a Vila Xurupita precisa de um herói, arruma um par de óculos, um uniforme improvisado e sai atrás dos mal-feitores (usando a bicicleta do vizinho ou chegando de ônibus coletivo ao local dos crimes).

O “super poder” do Morcego Verde é tentar ludibriar os bandidos na lábia ou fugir deles o mais depressa possível. E uma das características mais engraçadas do herói – além de obrigar o pobre Nestor a carregar um ventilador para fazer a capa dele voar ao vento – é achar que ninguém sabe da identidade secreta dele, quando na verdade toda a vila sabe que aquele é o Zé Carioca fantasiado.
Além da Editora Abril/Disney, Saindenberg – que também era chamado de “Mestre Said” – escreveu ainda centenas de roteiros para outros estúdios brasileiros, elaborando aventuras para – entre outros – A Turma do Pererê, de Ziraldo; a Turma do Lambe-Lambe, de Daniel Azulay; e a Turma da Fofura, de Ely Barbosa (esta última juntamente com a esposa Thereza e a filha Lucila).
Criou ainda personagens próprios, como o já citado Vavavum (publicado na revista Crás) e Rei Napo, o Leão, uma sátira política ao governo do último presidente da ditadura militar, João Batista Figueiredo (1979 a 1985).

As tiras de Napo eram publicadas pelo jornal City News, de Campinas, onde ele morou de 1971 a 1988. Neste período, mais especificamente entre 1977 e 1982, fazia ainda charges para o icônico O Pasquim e foi também com uma charge que ganhou o Prêmio Juri Popular do Salão de Humor de Piracicaba, em 1979.

Depois de morar em Campinas, viveu ainda por dezesseis anos em Israel, onde ilustrou histórias infantis de autoria da esposa, Thereza. De volta ao Brasil, chegou ainda a colaborar mais uma vez com as HQs da editora Abril. Em 1995, recebeu o Prêmio Angelo Agostini de Mestre de Quadrinho Nacional.
Saidenberg faleceu em 30 de setembro de 2009, em Santos, devido complicações do diabetes e insuficiência arterial. Em maio de 2013, a filha Lucila publicou uma biografia do pai, Ivan Saidenberg – O Homem que Rabiscava.

Por fim, em reconhecimento justo à enorme criatividade deste quadrinista piracicabano, o dia 12 de novembro – dia em que Saidenberg nasceu – foi determinado no Brasil como Dia do Roteirista de Quadrinhos.





Olha, eu que moro em Piracicaba, não conhecia! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻