Condorito

Personagem mais famoso dos quadrinhos chilenos e publicado também em diversos outros países, Condorito surgiu em 1949, curiosamente como uma espécie de resposta nacionalista a Walt Disney. Isso porque, nos anos de 1940, o pai de Mickey e companhia fez aquela famosa visita de boa vizinhança a diversos países da América Latina, a pedido do governo estadunidense que andava preocupado com o interesse crescente de lideranças latino-americanas sobre o nazismo e o fascismo.

O fruto desta viagem foi o filme Alô, amigos (Salludos Amigos), que estreou no Brasil em 1942 (um ano antes de ser exibido nos EUA) trazendo Donald e os estreantes Zé Carioca – representando o Brasil – e Panchito (México). Além da história principal, o desenho trazia dois curtas: Gauchito Voador, voltado para a argentina, e O Aviãozinho Pedro. Este último era justamente o que tinha como objetivo conquistar o povo chileno.

Acontece que a população daquele país não e identificou com a aventura de um pequeno avião que tinha que vencer os desafios da Cordilheira dos Andes para entregar correspondências. Pelo contrário. Mesmo tendo sido batizado em homenagem a um presidente chileno que havia morrido recentemente, Pedro Aguirre, a maioria absoluta das pessoas achava que o personagem não tinha nada a ver com o Chile.

Entre esses inconformados estava o cartunista René Rios Boettiger, mais conhecido como Pepe. Assim, ele começou a elaborar um personagem que realmente pudesse ser identificado como Chileno e, para isso, tomou como base o condor, ave símbolo nacional. Assim, em 6 de agosto de 1949 saia a primeira aventura de Condorito na revista Zig-Zag.

O personagem foi rapidamente abraçado pelo público.  Na HQ inicial ele era um ladrão de galinhas que acaba se arrependendo do ato e, ao tentar devolver o animal, é preso. A desventura termina com o herói arrependido em uma cela e o policial, bem, comendo a galinha.

Esta história inicial já dá o tom de praticamente todas as que viriam depois: aventuras curtas, com um humor simples invariavelmente calcado em situações da vida real e com uma dose leve de crítica social. Condorito, aos poucos, se mostraria como um “homem” simples vindo do campo, esperto e que adora futebol – é um torcedor declarado do Colo Colo.

Aos poucos ele também foi se tornando um grande mulherengo e, por vezes, bastante malandro. Vistas hoje, as HQs em especial das primeiras décadas traziam conceitos datados de humor que pode ser considerado atualmente como bastante machista.

Porém, ao logo dos anos o Condorzinho foi se adaptando aos novos tempos e teve esses traços de personalidade suavizados, focando-se em um humor mais ingênuo e bastante universal. O visual também foi mudado, passando a ser bem mais alto e magro, e tendo o bico inicialmente mais longo se tornando arredondado. O cigarrinho que sempre trazia no bico, típico de outros tempos, foi gradualmente deixado de lado  a partir dos anos de 1970.

O que nunca mudou, porém, é o final de cada uma das HQs. Invariavelmente elas terminam em um punchline inesperado e, para reforçar o absurdo, o personagem que contracena com o Condor (ou muitas vezes ele próprio), cai no chão desmaiado, ao som da onomatopeia “PLOP!”

Extremamente popular, Condorito também virou desenho animado, brinquedos, videogames e emprestou o nome a diversos produtos de merchandising. E rompeu as fronteiras do Chile: teve tiras e histórias chegou distribuídas em 19 países, inclusive Canadá, Estados Unidos e Japão – ao lado da argentina Mafalda e da brasileira Mônica, ele integra o TOP3 dos personagens latinos mais conhecidos no mundo.

Aqui no Brasil o personagem foi publicado pela primeira vez em 1982, pela Rio Gráfica editora, em um total de 12 revistas, com periodicidade mensal. Entre 1991 e 1992 teve mais oito edições lançadas pela Corto Maltese e mais recentemente, em 2020, a Quadriculando lançou uma revista de 52 páginas, com histórias inéditas.

Enredo

Condorito costuma aparecer em histórias curtas na qual vive situações do cotidiano – vai ao médico, ao supermercado a uma partida de futebol – ou atua em uma profissão específica (pedreiro, fazendeiro, costureiro, vendedor…o céu é o limite). Normalmente a história/cena evolui para um momento em que o herói surpreende ou é surpreendido pelo interlocutor com uma resposta inesperada e um deles cai de costas com um “plop.”

Também aparecem várias HQs específicas sobre futebol. Apesar de Condorito ter uma namorada fixa e um sobrinho, além de vários personagens recorrentes, as HQs constantemente não são conectadas entre si no tempo e espaço. Isso que significa que há histórias em que alguns personagens, mais do que não aparecer, sequer parecem existir.

Vale lembrar ainda que Pepo criou uma cidade fictícia onde vivem Condorito e os demais personagens recorrentes, chamada de Pelotillehue.

Personagens principais

Além de Condorito e de personagens genéricos (como “o médico”, “a mulher bonita”, “o craque de futebol” etc), são recorrentes na HQ:

Yayaita – A bem torneada namorada de Condorito, é um pouco materialista e sempre ligada em moda;

Dom Cuasímodo e dona Tremebunda – Os pais de Yayaita têm personalidades opostas. Ele é calmo e irônico, ela é brava e intrometida;

Don Chuma (ou Cumpa) – Um sujeito de nariz e bigode grande, normalmente com jornal dobrado debaixo no braço e cigarro na boca.  É o melhor amigo de Condorito, aquém vive dando conselhos e dinheiro emprestado.

Padre Venâncio– Pároco da igreja frequentada pelo católico Condorito, que normalmente procura a auxilio religioso quando precisa de um milagre para escapar de alguma encrenca.

San Guchito – O “santo” que só existe nas HQs de Condorito e cujo nome é um trocadilho: sánguche é como se diz snduíche no Chile, logo San Guchito soa como “sanduinchinho” (ou “São Duichinho”).

Chacalito – um assaltante que vive sendo pego, julgado e preso,mas sempre volta para o próximo crime;

Pepe Cortisona – Um fortão bigodudo e com grande sorriso, é o grande rival de Condorito, e disputa com ele o amor de Yayaita;

Garganta de Lata – Ruivo e preguiçoso, esse amigo de Condorito aparece sempre bebendo e é comumente alvo de piadas de bêbado;

Condorito tem ainda uma série de outros amigos como Ungenio González, Huevoduro, Comegato,  Cabelo de Anjo, Tomate, Fonola, Chuleta,  o boliviano Titicacaca, o argentino Che Copete e o chileno Chu Chu Fli. Destaca-se ainda um personagem chamado Cortadito, um amigo de Condorito que não tem nem pernas nem braços.

Há ainda um núcleo infantil composto basicamente por versões criança dos personagens regulares, todos sobrinhos ou filhos dos originais. Assim aparecem Coné, sobrinho do protagonista; Yuyuito (sobrinha de Yuyuita e melhor amiga de Coné), Pepito Cortisona (sobrinho de Pepe e consequentemente inimigo de Coné), Genito González, Huevito, Gragantita, Fonolita, Comegatito, Cabellitos/Angelito, Tomatito e por aí afora.

Curiosidade: condores entre humanos

Também em contraponto a HQs tradicionais da Disney, onde todos os personagens são antropomorfizados, nas histórias de Condorito apenas ele e o sobrinho, Coné, são condores humanoides. Todos os demais personagens são desenhados como seres humanos, inclusive a namorada do protagonista, Yayita, e as demais mulheres que são seduzidas pelo charme dele. E, aparentemente, ninguém parece notar que Condorito e Coné tem cabeças de ave além dos leitores.

Há também animais “normais” nas HQs e o próprio Condorito contracena com eles. Três deles aparecem com mais frequência como sendo de propriedade dele: o cachorro Washington, o papagaio Matias e o cavalo Mandíbula.

 

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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