Alcéia e Meméia (Witch Hazel and Little Itch)

Em 1951, o cartunista John Stanley – que desde 1945 era responsável pelas revistas de histórias em quadrinhos de Luluzinha – decidiu criar uma nova antagonista para a personagem principal. Se aproveitando do clima de Halloween e querendo atrair o público que gostava de histórias de bruxa, Stanley pensou em criar uma feiticeira. Como as HQs de Luluzinha se davam em um cenário urbano, a vilã foi introduzida em aventuras nas quais Lulu contava histórias tentando fazer o menino Alvinho dormir ou aprender lições que ela considerava valiosas para o garoto – e que ele raramente aprendia. Assim surgiu Witch Hazel, que no Brasil foi batizada como bruxa Alcéia pelos tradutores das HQs.

O nome em inglês, porém, é uma bem elaborada brincadeira com uma planta chamada “witch hazel” (aveleira-de-bruxa ou hamamelis), cujas propriedades ajudam a aliviar coceiras na pele e até mesmo aquelas “coceirinhas” na garganta.

As folhas desta planta eram utilizadas pelos povos indígenas estadunidenses antes mesmo do país ser colonizado pelos ingleses e, desde 1866, a planta passou a ser industrializada e vendida por um reverendo chamado Thomas Newton Dickinson como adstringente (a marca ainda existe nos EUA, ao lado de várias outras que comercializam o popular “witch hazel”).

Nas histórias protagonizadas pela bruxa, Alcéia perseguia a “pobre menininha” (alter ego de Lulu nas narrativas contadas a Alvinho) quando ela entrava na floresta para colher frutinhas. A bruxa jogava feitiços contra a menina, usava poções e monstros para tentar impedi-la de sair da floresta, mas invariavelmente acaba enganada.

Além de divertidas, as aventuras da feiticeira também traziam elementos comuns que despertavam medo em crianças (escuro, porões, sombras etc), usadas por Stanley de maneira hábil para tornar as HQs mais atraentes.

As histórias com a bruxa se tornaram muito queridas e procuradas pelo público, e o sucesso levou o autor  a introduzir uma segunda personagem, desta vez uma feiticeira-mirim, sobrinha da titular: Little Itch ou, para o público brasileiro, Meméia.

Infelizmente a genialidade do autor se perde na tradução. Em inglês o nome, dito rápido, soa como “little witch” ou “bruxinha”. Porém, traduzido textualmente, significa “coceirinha”, ou seja, a sobrinha é a coceira e a tia o remédio contra ela…

Juntas, Alcéia e Meméia continuaram a protagonizar histórias divertidas nas HQs de Luluzinha até 1984, quando o gibi -que a esta altura já era produzido por outros artistas que não Stanley –  foi oficialmente encerrado nos EUA.

No Brasil a dupla também dá nome a uma canção gravada pelo Quarteto Peralta para o álbum “A festa do Bolinha”, que se tornou hit nos anos de 1970. Com letra engraçadinha e direito a voz lúgubre em alguns trechos, a canção pode ser conferida no Youtube.

Enredo

As duas bruxas são personagens centrais das histórias que Luluzinha conta para Alvinho. Alcéia é uma bruxa má que vive em uma floresta encantada, na qual constantemente a “pobre menininha” (alter ego da própria Lulu) vai colher frutinhas ou se perde –  e constantemente acaba ajudando outras criaturas mágicas ou animaizinhos em perigo.

A feiticeira não admite a presença da invasora no local, ainda mais fazendo o bem, e tenta eliminá-la com feitiços , poções e outras maldades.

Meméia, que tem mais ou menos a mesma idade da “pobre menininha”, é também aprendiz da tia, com quem veio morar por tempo indeterminado. Atazanar a versão pobrezinha de Lulu faz parte do aprendizado.

Parte da diversão das histórias é que as duas frequentemente conseguem atingir Lulu com maldições que causam reações e transformações engraçadas na garota, mas invariavelmente ela vira o jogo e a dupla formada por tia e sobrinha se dá mal.

Principais personagens

Além da Pobre Menininha e das bruxas, aparecem nas aventuras outras criaturas mágicas como fadas, duendes e gigantes, além de animaizinhos encantadores e outras criaturas encantadas. Vez por outra a contadora de histórias Lulu também acrescenta personagens como príncipes ou princesas “interpretados” por Bolinha, Glória, Plínio e outros amiguinhos da turminha de Little Lulu

 

Curiosidade: Alceia só tem uma, já Witch Hazel…

O primeira Bruxa Hazel que se tem notícia apareceu em uma animação hoje quase desconhecida da MGM, chamada Bottles, em 1936. O desenho mostrava frascos de remédios antropomórficos e o que continha extrato de aveleira-de-bruxa se transformava em uma feiticeira.

Com o sucesso da bruxa dos quadrinhos de Luluzinha, porém, o nome acabou “inspirando” outras bruxas em desenhos animados. A primeira delas apareceu em 1952, um ano após a estreia de Alcéia, contracenando com o Pato Donald e os sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, no desenho Trick or Treat.

Batizada de bruxa Vanda no Brasil, a Witch Hazel da Disney se tornou bastante popular, tendo aparecido em inúmeros outros desenhos animados e histórias em quadrinhos – em algumas delas, inclusive, se tornou amiga de Madame Min e Maga Patalójika.

Dois anos depois, em 1954, o mesmo nome foi dado a uma bruxa aloprada e de pele verde criada pelo animador Chuck Jones para se antagonizar ao coelho Pernalonga. A estreia desta Hazel foi no desenho Bewicthed Bunny e ela também se tornou grandemente conhecida e querida pelos fãs, voltando a aparecer constantemente em outros desenhos dos Looney Toones. Ela também fez participação no live action misturado a desenho Space Jam (1996).

Por sinal, as versões da Disney e dos desenhos do Pernalonga quase participaram de um crossover Uma cilada para Roger Rabbit (1988).  A primeira delas aparece em meio a uma multidão formada por diversos outros desenhos animados no finalzinho do longa, mas a cena em que a feiticeira verde voava sobre uma ponte acabou sendo cortada na versão final.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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