Corvos: confira entrevista exclusiva das mentes por trás do filme do (anti)herói brasileiro

Em um futuro (não muito?) distante, a violência toma conta das ruas e o crime cresceu a ponto de assassinatos serem um produto oferecido por aplicativo de celular. Em meio a uma sociedade caótica e cruel, um homem se veste com um uniforme escuro remetendo a um corvo e resolve fazer justiça com as próprias mãos. Para muitos, esse vigilante mascarado é um herói. Para outros tantos, ele é tão vilão como aqueles que combate. Quem quiser tirar as próprias conclusões deve assistir a Corvos, curta-metragem brasileiro que foi gravado na cidade de Campinas e que pode virar série de streaming em breve.

Definido pelos idealizadores como um “thriller urbano brasileiro que expande o gênero dos vigilantes sombrios”, o filme tem 24 minutos e foi embasado em uma ideia original de Giuliano Marini, escrito e dirigido por Rafael Santin e produzido por Lu Chagas – para a série, já em desenvolvimento, a roteirização final é de Théo Chagas e a direção que segue nas mãos de Santin.

No centro da narrativa está a Cidade Murada, um distrito isolado onde facções e autoridades decadentes alimentam a violência cotidiana. É nesse cenário que surge o Corvo, figura temida por criminosos e, segundo os autores, mais do que um salvador ou um carrasco: ele seria um reflexo das feridas sociais e pessoais que atravessam a cidade.

 Vale destacar ainda que Corvos foi filmado em locações icônicas da cidade de Campinas – que incluem a Estação Cultura e o túnel da Vila Industrial – com elenco e equipe majoritariamente locais. O comediante/motoboy João da Nica, por exemplo, que se tornou conhecido por inúmeros vídeos disponibilizados nas redes sociais ao longo os anos, é um dos integrantes do cast, no papel de Wally, dono do point mais conhecido do Distrito e fornecedor dos vigilantes da cidade.

Em entrevista exclusiva ao MundoHQ, Giuliano Marini, Rafael Santin e Lu Chagas falam mais sobre a origem do filme (que segue em circuito de festivais nacionais e internacionais e já foi selecionado para a Mostra de Filme Independente de Ouro Preto- MG), inspirações e até mesmo revelam seus heróis/HQs favoritos. Confira.

MundoHQ – Como surgiu a ideia de Corvos?

Giuliano Marini: Como toda ideia, Corvos, em sua origem me veio como um simples lampejo. Um insight que gritou: “Ainda não há um herói mascarado que se veste como um pássaro escuro e sinistro”. Como eu desenho, imediatamente comecei a esboçá-lo. A máscara foi a primeira coisa que criei, e quando estava pronta, a amei como um filho recém-nascido.  A história para o personagem veio logo em seguida. Eu pensei em algo que tivesse um passado traumático quase exotérico ligado umbilicalmente com um presente futurístico quase cyberpunk. Corvos estava nascendo. E isso ficou muito tempo só comigo. Em certa ocasião compartilhei com o Rafael Santin, e a partir daí ele trabalhou com um fragmento da história que eu tinha, adaptando e tornando-a realizável, e aí veio o curta, que é um produto pra gente apresentar um pouco o personagem e seu universo, e isso ser uma apresentação do potencial de Corvos.

 Na opinião de vocês, o cenário do filme é realmente um universo/sociedade distópica ou um futuro possível?

Rafael Santin: Corvos nasce dessa linha tênue entre a distopia e a realidade. A estética lembra um universo distópico, mas o que se vê no filme é muito mais um reflexo distorcido de dores e tensões sociais já presentes. Eu vejo isso nas ruas atualmente. Eu vejo essa situação e ninguém faz nada. Vivemos num mundo polarizado e a verdade é que ninguém está cuidando do povo. É lamentável a realidade que vemos nas ruas. A sensação de futuro degradado é um recurso narrativo, mas os conflitos, a violência, vigilância, impunidade, tudo isso pertencem ao agora. É esse desconforto que o filme provoca: o espectador percebe que aquilo não está tão distante quanto gostaria.

O personagem principal é um vigilante que emprega a violência para fazer justiça com as próprias mãos. Há alguma inspiração entre personagens de quadrinhos como o Justiceiro (Punisher), por exemplo?

Rafael Santin:  Claro que a ideia do vigilante inevitavelmente dialoga com personagens dos quadrinhos: o Justiceiro, o Batman e até anti-heróis mais sombrios.  Mas a inspiração de Corvos não veio diretamente deles. O personagem foi concebido a partir da violência urbana brasileira, do medo e da desesperança que levam pessoas a acreditar que só a força bruta resolve. Ele não é um super-herói, nem um justiceiro idealizado: é uma figura humana, ambígua, que encarna tanto a necessidade de reação quanto o perigo de repetir esse ciclo da violência.

Por que a escolha do corvo? Não sei se vocês sabem, mas há um outro super-herói brasileiro da família Corvidae, o Gralha, de Curitiba. Lá, a escolha foi pela ave símbolo do Paraná, o que imagino que não tenha nada a ver com a escolha de vocês.

Giuliano Marini: Sim, conheço o Gralha, mas Corvos é uma coisa (história e personagem) totalmente diferente. Na história original, sem dar muitos spoilers,  “Corvos” é o nome de uma ordem secreta milenar que abriga um indivíduo de cada vez e que luta contra o mal por toda vida. Ao final dela ele escolhe, doutrina e treina um jovem prodígio que irá substituí-lo.  Por isto se chama “Corvos”. Houve vários outros no passado e tal passado é uma peça quase central nesta história que queremos tanto que o público conheça.

Voltando a falar de pássaros… o corvo é a ave mais sinistra, dark e misteriosa entre todas. Este pássaro está ligado a diversas lendas antigas. Está presente na crença dos vikings e em toda simbologia dos celtas. Está também nos poemas mais tristes e nos contos arrepiantes de terror. O corvo é sem dúvida uma peça essencial em qualquer imaginário onde no céu há uma lua cheia e no chão um cemitério abandonado.

O fato de não haver corvos no Brasil nunca me incomodou. O Batman vive em uma cidade que nem existe. Superman veio de outro planeta.  Então geografia não parece ser algo relevante no sucesso dos super-heróis.

Adorei o uniforme do Corvo, como foi desenvolver o design dele? Houve alguma inspiração? Achei muito boa a ideia da asa atrás do capacete, que me lembrou um pouco o do Rocketeer.

Giuliano Marini: O lendário e inesquecível Stan Lee já confessou que o design da máscara do Homem-Aranha veio quando ele observava uma mosca em sua mesa. O design da máscara veio primeiro, a história de um garoto picado por uma aranha radioativa veio depois.

O mesmo ocorreu comigo e o Corvo. Quando desenhei a máscara (muito antes da criação da história) eu estava me inspirando apenas em um pássaro qualquer com penas negras. Como em muitos pássaros (incluindo vários corvos) existe na parte de trás de suas cabeças algumas penas pontudas semelhantes a asas completas. Daí veio a ideia da asa na máscara do Corvo.

No Rocketeer aquilo é um leme que o auxilia a mudar de direção enquanto voa como um foguete. Ideia genial do saudoso gênio Daves Stevens.

De onde veio a (sensacional) ideia do crime ser um produto comercializado via aplicativo de celular?

Giuliano Marini: Na premissa de Corvos, a ideia surgiu ao imaginar uma cidade tomada pela violência, onde os policiais acabam se retirando das ruas — muitos vivem com medo, são mortos todos os dias. Com isso, o governo decide isolar completamente a cidade com um cerco militar, bloqueando entradas e saídas. Lá dentro, sem segurança pública, a população fica órfã da justiça e precisa de uma saída. E é nesse contexto que os aplicativos de matadores de aluguel, que já existiam, mas eram pouco usados, passam a ser uma alternativa para quem busca justiça por conta própria. A proposta nasceu dessa provocação: e se a “justiça” virasse um serviço acessado por celular, como qualquer outro?

Como as pessoas podem fazer para assistir ao filme? Vocês pretendem disponibilizá-lo na Internet ou tentar levá-lo aos cinemas comerciais?

Lu Chagas: No momento, estamos programando algumas exibições públicas, enquanto o curta segue circulando pelo circuito de festivais nacionais e internacionais. Paralelamente, seguimos trabalhando para viabilizar a série/filme. Após a etapa de festivais, existe a possibilidade de disponibilizar o curta via streaming ou até gratuitamente, em plataformas como o YouTube, caso entendamos que esse caminho possa fomentar o interesse do público e atrair patrocínios e parcerias.

 

Os serviços de streaming têm apostado muito em séries e filmes de super-heróis, e vocês têm o planejamento de transformar Corvos em uma série. Já houve algum contato com algum deles?  Qual a expectativa de vocês neste sentido?

Lu Chagas: Sim, já tivemos contato com players do mercado. Em novembro de 2024, participamos da rodada de negócios da MAX – Minas Gerais Audiovisual Expo, promovida pelo Sebrae Minas – um dos principais eventos do setor no Brasil, reunindo produtoras, distribuidoras, exibidores e plataformas de streaming em encontros estratégicos, painéis e capacitações.

A recepção ao projeto foi bastante positiva. Embora tenhamos desenvolvido uma temporada completa de Corvos em formato de série — cujos caminhos narrativos foram construídos em sala de roteiro e finalizados por Théo Chagas — acreditamos que o caminho mais viável neste momento seja o formato de longa-metragem, principalmente por questões de custo e produção. Estamos aguardando um avanço mais concreto para dar continuidade, mas seguimos otimistas com as possibilidades.

Por que gravar em Campinas? Como foi a escolha dos bairros e locais?

Rafael Santin: Campinas é minha cidade natal e filmar aqui foi também um gesto de identidade. A cidade tem uma arquitetura que permite explorar contrastes: bairros mais antigos, áreas industriais, espaços urbanos de diferentes camadas sociais. Não buscávamos cartões postais, mas sim locais que transmitissem tensão e realidade. Os cenários escolhidos carregam marcas de desgaste, sombras e texturas urbanas que reforçam o tom brutalista do filme. Campinas nos deu a possibilidade de criar um ambiente visual forte sem sair da realidade do interior paulista. Aqui me sinto à vontade para contar minhas histórias.

Por fim, gostaria de saber de cada um de vocês três se têm um super-herói/vigilante favorito dos quadrinhos ou, se não, qual primeiro vigilante com o qual tiveram contato.

Giuliano Marini : Quando falamos de vigilantes mascarados nada neste mundo nada irá superar o Batman. Já era o meu herói favorito desde sempre, mas após o Batman (1989) de Tim Burton, virei fanboy batmaníaco de carteirinha. O Batman tem aquela aura gótica e sinistra que nos fascina. Ele é o “Pelé” que veio antes de todos os demais vigilantes mascarados.  E veja só que interessante: Quando o desenhou pela primeira vez, Bob Kane – em entrevista – nos revelou que se inspirou em uma locomotiva preta de sua época, que viu parada nos trilhos. A inspiração é algo incrível. Ela nasce a qualquer hora, e em qualquer lugar.

Lu Chagas: Não tenho exatamente um super-herói ou vigilante favorito, mas como minha mãe teve banca de revistas por muito tempo, fui leitora assídua de HQs — como as da Liga da Justiça. Então acho que o trio Mulher-Maravilha, Superman e Batman lidera meu ranking afetivo. A Mulher-Maravilha, em especial, sempre me marcou muito: ela representa força, justiça e independência, e foi uma das primeiras figuras que me mostraram que o protagonismo feminino também pode ocupar espaços de poder e ação.

Rafael Santin: Pode parecer óbvio para os fãs de quadrinhos aqui do MundoHQ, mas eu admiro profundamente o trabalho do Alan Moore. Obras como Watchmen, A Piada Mortal e V de Vingança sempre me impactaram pela forma como transformaram os quadrinhos em reflexões filosóficas e políticas sobre poder, identidade e moralidade. Não existe defesa de lados, existe a busca pela justiça. Esses personagens não são heróis clássicos, mas figuras complexas, cheias de dilemas éticos e contradições. O meu diferencial, porém, está em não apenas admirar esse universo, mas em realizar: em transformar essas referências em linguagem cinematográfica, filtrada pela minha visão de mundo e pela realidade que eu decidi retratar. Em Corvos, esse eco existe, mas não como cópia ou reverência. Mas sim como a tentativa de dar continuidade a esse espírito de provocar, questionar e desconstruir. Sou grato a tudo que aprendi lendo Alan Moore.

 

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

3 comentários

  • Adorei a conversa! Mas e se Corvos não for distopia, e sim um reflexo distorcido de Campinas? Acho que o único futuro possível é o da série, já que longas-metragens são só saídas de emergência para produções incríveis como essa. E a inspiração? Batman, claro! Mas também um pássaro qualquer com penas negras que deu origem a uma asa no capacete. A ideia do crime como app de celular? Perfeita! Assista o curta e siga Corvos, pois a justiça por conta própria nunca foi tão… acessível!đếm ngược

  • Legal, mas e se Corvos não for futuro, e sim pura e simplesmente um sonho distópico de alguém que não gosta de pássaros? A inspiração no Batman é óbvio, mas transformar aplicativos de matar em justiça acessível por celular? Acho que meu celular já tem mais problemas do que posso resolver sozinho, e sem máscara. Mas Campinas filmar lá, ótimo! Pelo menos a cidade não precisa se preocupar em se transformar em Gotham, acho que já está mais sombria que isso. E sobre a série, vamos lá, quem sabe a gente consiga um super-herói que resolva meu problema com faturamento de publicidade no YouTube? Quem sabe, Gralha pode virar o vigilante que eu adoro?basketball stars unblocked

  • Éua, que chatice! Parece que eu li um roteiro de quadrinho que esqueci de devolver. Falando sério, o Corvos soa legal, mas essa história de justiça por app me pareceu meio como pedir pizza pelo WhatsApp. E a inspiração no Batman? Bem, quem nunca se inspirou em uma locomotiva preta, hein? Mas a parte do design da máscara do Corvo me fez lembrar aquele personagem do jogo de vídeo game que só existia no tutorial. Enfim, espero que a série (seja ela) não tenha um final assim: O fim. O jogo acabou.Grow a Garden calculator kg

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.