Esta é a história de um menininho com chifres e um grandão com armas que se encontraram e descobriram que ainda havia bondade no mundo…
Esta é uma história que trata de sobreviver a qualquer custo e descobrir pelo que lutar, mesmo no período mais difícil. Esta é uma história de medo e amizade. Esta é uma história de travessia e renascer. Mas esta também é uma história de sacrifício e redenção. De ódio e amor. De inocência e maturidade.
A descrição acima, tirada diretamente das páginas da Graphic Novel Sweet Tooth, dá uma boa ideia do clima da HQ criada por Jeff Lemire que ganhou as telas da Netflix em 4 de junho de 2021 e cuja segunda temporada tem estreia prevista para 27 de abril de 2023.
Com uma série de prêmios conquistados e considerada uma das melhores histórias autorais já lançadas pelo selo Vertigo da DC Comics, Sweet Tooth era um alvo óbvio para ser adaptada e ganhar versão cinematográfica – ou, no caso específico, virar uma série – o canal de streaming levou ao ar uma primeira temporada com oito episódios de uma hora cada e deve repetir o mesmo modelo na segunda.

Mesmo com mudanças, a adaptação ficou à altura do original. Nos quadrinhos, a história é acima de tudo um conto de esperança, mas regado a muita violência de um mundo pós-apocaliptico, com sangue para todos os lados, e ainda construída no traço de Jeff Lemire que, por muitas vezes, é sombrio e um tanto perturbador.
Já na Netflix, as imagens (as gravações foram na Nova Zelândia) são em sua maioria mais claras… e fofas. O casal Susan Downey e Robert Downey Jr, produtores do seriado, confirmam a impressão de que a HQ foi, digamos, suavizada para as telas. “Os quadrinhos são mais sombrios e sinistros”, diz o eterno Tony Stark. “Sentimos que podíamos nos ater à temática, mas a levando a um cenário mais agradável”, completa Susan.

Antes de mais nada, o ponto de partida da série é o mesmo dos quadrinhos: há dez anos, uma pandemia desolou o mundo, matando bilhões de pessoas, e as crianças que nasceram após o flagelo, por motivos desconhecidos, são híbridas de animais e seres humanos. Sem saber ao certo se os híbridos são a causa ou o resultado do vírus, muitos humanos os temem e caçam.
Na sinopse da série, “após uma década vivendo com segurança em sua casa isolada na floresta, Gus (Christian Convery), um menino-cervo acolhido, inesperadamente faz amizade com um viajante solitário chamado Jepperd (Nonso Anozie). Juntos, eles partem em uma aventura extraordinária pelas ruínas da América em busca de respostas: sobre as origens de Gus, o passado de Jepperd e o verdadeiro significado de um lar. Mas sua história é cheia de aliados e inimigos inesperados, e Gus logo aprende que o mundo exuberante e perigoso além da floresta é mais complexo do que ele imaginava.”

Já nos quadrinhos, Gus tem nove anos e mora com o pai – que é uma espécie de fanático religioso – e (este ponto a seguir é comum entre o gibi e o seriado) o ensina acima de tudo a não sair da floresta e a fugir dos seres humanos. Acontece que a peste continua ativa e eventualmente Gus se vê sozinho no mundo e quase é morto por dois caçadores. Quem o salva é um estranho grandalhão e violento, chamado Tommy Jepperd.
Vale já registrar aqui a primeira diferença. Como já aconteceu em várias adaptações, o personagem mudou de etnia. Nos quadrinhos, Jepperd é um homem grande e branco. Nas telas, é interpretado pelo ator negro Nonso Anozie – diga-se de passagem, uma ótima escolha: além da boa atuação, o porte e o aspecto impositivo dele garantem um ótimo “senhor Jepperd” ou “Grandão”, como Gus costuma se referir ao relutante amigo.

Em tempo, vale explicar o porquê do título “Sweet Tooth”: esse é o apelido pelo qual Jepperd chama Gus, em virtude dele gostar muito de chocolate. Nas histórias publicadas no Brasil, o apelido foi inclusive “traduzido”, para “bico doce.”
Voltando ao plot: depois de salvar Gus, Jepperd sai com ele pelo mundo em busca da “Reserva”, supostamente um lugar seguro para crianças híbridas. No caminho, vão se deparar com morte e violência, salvar um grupo de mulheres exploradas sexualmente por um casal (duas elas acabam de unindo a trupe) e enfrentar um grupo paramilitar que aprisiona crianças – e com o qual Jepperd tem um passado. E um presente, diga-sede passagem.

No decorrer dos arcos da HQ, a dupla acaba seguindo em busca da origem da peste e dos híbridos, que se prova uma mistura de misticismo e ciência, e, lembrando o trecho que abre este texto, o sacrifício e a redenção levam a um final feliz, ao início de uma nova civilização.
Até porque, claramente, a mensagem deste conto sombrio com final feliz não é só de esperança, mas uma constatação de que o homem está perdendo suas chances perante o mundo e a natureza, de uma forma ou de outra, esta última irá prevalecer.

Esta mensagem, com certeza, é mantida – não só pelo próprio Jeff Lemire ter aprovado e gostado da adaptação, mas porque o casal Downey Jr. há muito tempo já trabalha ativamente em prol de causas animais e da natureza (não foi à toa que os dois se apaixonaram pela HQ). Porém, já é certo que a tal suavização da HQ ocorreu.
A dupla Lucy e Becky, por exemplo, formada por vítimas do casal que explorava o comércio sexual, aparentemente sumiu (ou ao menos não deu as caras na tenporada inicial). Em vez delas, quem acompanha Jepperd e Gus em parte das aventuras é Bear, uma orfã que comanda um grupo de adolescentes protetores dos híbridos. Já o dr. Singh, que nos quadrinhos é inicialmente um cientista sem escrúpulos que estripa mulheres grávidas e híbridos em busca da origem da praga, agora é um médico com dilemas morais para salvar a vida da esposa.

O cativante menino-marmota Bobby ganhou uma versão mais fofinha e a menina-porquinho Wendy tem participação garantida. Os temíveis garotos-lobo criados pelo pai-vilão Glebhelm (ainda não confirmado no seriado) e que acabam sendo “herdados” por Abbot, poderão aparecer mais pra frente, mas não dão as caras na primeira temporada.
Este último, com seus indefectíveis óculos vermelhos, será o grande malvado da série, onde ganhou o posto de general e é muito bem interpretado por Neil Sandilands.

Mesmo com personagens apagados da história e outro novos, o autor Jeff Lemire aprovou as mudanças. “Gostei muito do que Jim Mickle fez nesta adaptação. Ver algo que você criou ganhando vida na sua frente é incrível e acho que os novos personagens são parte do que o seriado tem de melhor”, diz, acrescentando que o cerne da história foi mantido e que “histórias de esperança no meio da escuridão são as que mais precisamos agora.”
Mickle, por sua vez, completa dando um resumo do que se pode esperar de Sweet Tooth na Netflix: “Queríamos criar uma série capaz de oferecer fuga e aventura, onde a natureza estivesse recuperando o mundo e o clima fosse de conto de fadas. Sweet Tooth é um novo tipo de história distópica, bastante exuberante e esperançosa. Queremos que as pessoas venham a esse mundo onde há beleza, esperança e aventura. Essa é uma história emocionante: andamos de trens, subimos montanhas, corremos pelas florestas. É uma série sobre o que constitui uma família, o verdadeiro significado de um lar e por que é importante manter a fé na humanidade.”

Os quadrinhos
Sweet Tooth foi publicado nos EUA entre 2009 e 2013. No Brasil, foi lançado originalmente em 2012 pela editora Panini em seis edições (que se estenderam até 2014), cada uma reunindo em um arco cinco edições americanas (Saindo da Mata; Cativeiro; Exército Animal; Espécie em Extinção; Habitat Anormal; e Jogo Selvagem).

Aproveitando o que espera ser o sucesso do seriado (ou ao menos a curiosidade causada por ele), a Panini relançou a série em “edições de luxo” que reuniram não cinco, mas 12 exemplares cada. O volume 1, com 256 páginas, custava no lançamento R$104,90.
* Texto originalmente publicado em maio de 2021 e atualizado em março de 2023, com a confirmação da segunda temporada




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