Hooooomeeeeem Pássaro, herói e advogado de desenhos injustiçados! E Galaxy Trio

Quando ouve o nome Hanna-Barbera, a maioria das pessoas se lembra de desenhos na linha cômica ou de animais antropomorfizados que dominaram a TV aberta dos anos de 1950 a meados de 1990, como Os Flintstones, Os Jetsons, Scooby Doo, Zé Colmeia, Manda-Chuva, Pepe Legal, Corrida Maluca e tantos outros. Mas o estúdio capitaneado pela dupla Joseph Hanna e William Barbera (e que acabaria absorvido de maneira definitiva pela Warner Bros Animation em 2001) também lançou uma série de super-heróis icônicos, entre eles o Homem-Pássaro.

O personagem foi criado por Alex Toth, que também é pai de outro grande herói das animações HB, o Space Ghost. Nos EUA, começou a ser exibido em 1967 pela NBC em dobradinha com outro trio de heróis, o Galaxy Trio (o nome original do desenho, inclusive, era Birdman and  the Galaxy Trio). No Brasil, o desenho chegou na década de 1970 e inicialmente foi ao ar pela TV Globo: normalmente era exibida uma aventura do Homem-Pássaro, seguida de uma outra estrelada pelo Galaxy Trio e mais uma do Homem-Pássaro fechando a sequência – cada um dos desenhos tinha cerca de sete minutos.

Mas quem é o Homem-Pássaro?

Integrante de uma organização secreta que defendia a Terra contra os mais diversos tipos de monstruosidades, a Inter-Nation Security, o herói alado possuía poderes solares: soltava poderosos raios com seus braceletes e podia produzir um escudo (e em uns poucos desenhos, até mesmo uma espada) feitos de energia do sol. Além disso, recuperava saúde e energia ao ser exposto aos raios do sol e tinha uma espécie de sexto sentido que o ajudava a detectar perigo e armadilhas escondidas.

A origem dele, sobre a qual o desenho mal fez referência nos cerca de 40 episódios, era relacionada à mitologia egípcia. Em circunstâncias misteriosas, um sujeito chamado Raymond “Ray” Randall recebe poderes e um par de asas do Deus do Sol Rá, além de uma águia inteligentíssima – batizada de “Vingador” –  como companheira.

O herói então é contratado pela Inter-Nation Security para proteger o planeta contra monstruosidades, ameaças alienígenas, cientistas malucos e vilões dos mais diversos.  Apesar de o inimigo sempre ser diferente, o roteiro das animações seguia uma fórmula padrão.

Normalmente a aventura começava com Homem-Pássaro na casa/base de operações dele, um vulcão extinto oculto entre uma cadeia de montanhas. Falcão 7, o misterioso chefe da agência (que usava bigodinho e um tapa-olho estilo Nick Fury) aparecia em um telão da “pássaro-caverna” alertando o herói sobre o problema. Terminadas as instruções, o portal metálico que fechava o vulcão se abria e pela abertura saíam o protagonista e Vingador sob o tradicional grido/bordão “Hooooomeeeem Pássaro”.

Depois, invariavelmente em algum momento do confronto os inimigos davam um jeito de prender o herói longe do sol e os poderes dele se esgotavam. Mas na hora agá, claro, o Homem-Pássaro escapava (muitas vezes com a ajuda de Vingador), reabastecia as energias e dava conta do recado.

É importante registrar que, como acontecia com todo bom super-herói nos anos de 1960, o Homem-Pássaro tinha a própria galeria de vilões poderosos e supercoloridos. Entre eles se destacavam Mentor (ou Mentok), o Tomador de Mentes; Número Um (chefe da FEAR, agência secreta inimiga); X, o Eliminador; Dr. Freezoid; doutor Tubarão; Constritor, o Homem-Cobra; o Camaleão (que se transformava em praticamente tudo);  Medusa, a Imperatriz do Mal; e Mummor, o mestre dos disfarces. E ainda Bird-Girl, que surge do lado dos vilões, controlada por um deles, e depois se une aos mocinhos.

O desenho foi bastante popular e teve bastante fôlego, renovado após a primeira temporada com o surgimento do Garoto-Pássaro (Bird Boy), que no Brasil nem chegou a ser muito conhecido. Os episódios inéditos foram ao ar de 1967 a 1969, com inúmeras reprises. E, nos anos de 2000, o Homem-Pássaro ganharia uma nova encarnação…

Harvey Birdman, advogado

Em 1994, Homem-Pássaro fez duas participações especiais em Space Ghost Coast to Coast. No programa exibido pela Cartoon Network, o personagem Space Ghost atuava como um apresentador de um show de entrevistas e o Homem-Pássaro aparecia de vez em quando em busca de, com o perdão do trocadilho, um bico que o ajudasse a pagar as contas do fim do mês.

Em duas ocasiões, inclusive, ele chegou a substituir o Space Ghost como titular do show (que temporariamente ganhou o nome de Birdman Coast to Coast), mas não sabia o que perguntar aos entrevistados e era péssimo diante das câmeras. O que acabou fazendo com que fosse “demitido” em ambas.

No ano 2000, porém, o personagem ganhou roupagem totalmente nova. Terno e gravata, para ser exato.  Lançado em um piloto em dezembro de 2020 e depois se tornando a primeira atração do Adult Swin, o bloco de animações dedicado ao público adulto no Cartoon Network criado em 2001, o desenho Harvey Birdman, attorney at law não só deixa de lado o nome original Ray Randall como dá nova profissão ao herói.

Agora ele é advogado de defesa em uma corte  – que por vezes tem como juiz o (ex)vilão Mentok, o Tomador de Mentes – que julga personagens de desenho animado acusados de crimes. Assim ele defende, por exemplo, Salsicha de uma acusação de porte de drogas (o episódio foi batizado em lenda já amplamente conhecida); Catatau (o mini parceiro de Zé Colmeia) de uma acusação de terrorismo; e até mostra que Fred Flintstone não pode ser imputado por crimes como suposto chefe mafioso porque sofre (constantemente) de insanidade causada por derrubar bolas de boliche na cabeça.

Foram 37 episódios cheio de desventuras (que chegaram a ser disponibilizadas pela Prime Video) envolvendo boa parte das centenas de personagens da Hanna-Barbera em especial dos anos de 1970, de Jonny Quest ao hipopótamo Peter Potamus.

Apesar de majoritariamente ser um advogado de defesa, o Homem-Pássaro chegou a mudar para o lado da procuradoria em alguns episódios e até se viu envolvido em um crime terrível: o assassinato de Dinamite, o Bionicão – de quem ele aparentemente morria de inveja quando o Falcão Azul passou a trabalhar na firma de advocacia.

A animação foi exibida originalmente até 2007 e o Homem-Pássaro ainda ganharia uma versão mais recente (e mais fiel às origens do personagem) em História em Quadrinhos.  Ele foi um dos destaques da série Future Quest, lançada pela DC Comics em 2016 e 2017.

 

E o Galaxy Trio?

No desenho original de 1967, Homem-Pássaro era a estrela, mas dividia episódios com Galaxy Trio, alienígenas de aspecto humanoide que  eram uma espécie de patrulha espacial, socorrendo não apenas a Terra como também outros planetas e alienígenas em perigo. A bordo na nave Condor, eles cruzavam o espaço sideral ajudando quem precisava.

Comandava o trio, na maioria das aventuras, o esverdeado Homem-Vapor. Com cara de galã, o rapaz tinha o poder de se transformar – por inteiro ou em partes – em qualquer tipo de gás ou vapor, o que possibilitava com que voasse e se espremesse por espaços pequenos. Ele também podia lançar formas de vapor –  “congelado” ou “em chamas”, por exemplo – pelos punhos.

O Homem Meteoro tinha orelhas que lembravam as de Spock, de Star Trek, mas as semelhanças com o vulcaniano paravam por aí. Com canelos brancos e compleição bombada, era o musculoso do grupo e podia aumentar quase que indefinidamente a força e o tamanho do próprio corpo. Geralmente, porém, bastava aumentar os braços e os gigantescos punhos para detonar o inimigo.

Completava o trio a mais calma dos três: a Mulher Flutuadora. Com longos cabelos ruivos e a aparência mais terrestre do trio, a garota tinha o poder de controlar a gravidade ao redor de si mesma. Por sinal, o nome da personagem no original era Gravity Girl e ela era originalmente do planeta Gravitas.

Aliás, Alex Toth não foi particularmente criativo no nome dos orbes de origem de cada personagem: o Homem-Vapor era natural do planeta Vaporus e o Homem-Meteoro, de Meteorus…

Espécie de mistura de Quatro Fantásticos com Jornada nas Estrelas, o Galaxy Trio alcançou sucesso razoável, mas os fãs reclamavam um pouco sobre a repetitividade do desenho. Talvez por dispor de pouco tempo, algumas histórias de Galaxy Trio eram praticamente iguais entre si: o que variava mesmo era apenas o formato, cor e poderes dos inimigos alienígenas.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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