Rango

No início dos anos de 1970, Edgar Vasques criou um personagem que tinha a intenção de mostrar a cara do Brasil: Rango, um desempregado pobre e barrigudo que vivia em um depósito de lixo. Com muita crítica social –  e, obviamente, econômica e política – as tiras do personagem fizeram sucesso em publicações universitárias e logo alcançaram grandes jornais.
Em 1974, a editora LP&M lançou o primeiro de uma série de livros(coletâneas) tendo o personagem como tema e com prefácio do escritor Érico Veríssimo, que se declarava fascinado pelo personagem e pelas situações tragicômicas que ele vivia.
Mesmo com o tempo passando, Vasques nunca deixou de desenhar Rango, assim como, infelizmente, os problemas de desigualdade social que o personagem retrata nunca deixaram de existir (pelo contrário, em alguns casos até se agravaram). No entanto, Rango foi perdendo o espaço que tinha nos jornais, ainda que permanecesse mais atual que nunca.
Em 1998, a LP&M lançou uma edição comemorativa, O Gênio Gabiru, trazendo 160 tirinhas inéditas em uma só publicação. E, como bem resumem os editores da publicação, “mudaram as moscas, mas a paródia continua cada vez mais real”. Em 2004, uma bela homenagem: Rango virou troféu do HQMix, prêmio dado aos melhores quadrinhos do ano.
Enredo
Rango é um desempregado que vive em um lixão, em companhia do filho e de um coleguinha dele (aparentemente um menor abandonado), do cachorro Sarna e de outros personagens típicos da miséria social. Nas tiras são satirizadas/criticadas situações de fome, frio, falta de dinheiro, política econômica, política social (a falta de uma) e por aí afora.
O humor é dilacerante, acentuado pelo traço distinto e propositadamente sujo da tira. Difícil saber se é para rir ou chorar, por exemplo, quando o garotinho abandonado ao ouvir a pesquisa de que cada brasileiro consome duas balas por dia responde, com naturalidade: “uma de 22 e uma de 38”.
Personagens
Além de Rango, o cachorro e dos dois meninos (um deles, em tese, é filho do personagem principal), aparecem, entre outros: o velho Baba, sempre bêbado; o véio Dica, que nunca sai de dentro de sua lata de lixo; o “pesquisador” Bedelho; o mendigo peruano; vovô Ratz (um rato que vive no lixão); o cantador nordestino Cantochão e, mais recentemente, o gênio descerebrado Gabiru.
Curiosidade: Rango contra a ditadura
Nos tempos ditadura militar, a tira de Rango foi uma das principais responsáveis pelo chamado “empastelamento” do lendário jornal Pasquim, em virtude das críticas ácidas a situação do país.. Nos anos de 2000, porém, Rango levou a necessária reflexão sobre o país – e as crianças em vulnerabilidade social – para o Jornal da Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente, a Amencar.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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