Após passar pelo menos quatro meses nos cinemas e recém-chegado ao streaming via Disney+, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é definitivamente um sucesso do ponto de vista que costuma mais interessar aos produtores de Hollywood: o comercial. Com mais de meio bilhão de dólares arrecadados nas bilheterias do mundo, o longa não só compensou o custo de US$ 117 milhões de produção e outros tantos investidos em publicidade, como se tornou o filme da Marvel mais visto do ano e o que mais trouxe retorno financeiro em 2025. Mas, 521 milhões de dólares à parte, o filme é bom?
A maior parte da crítica especializada e do público aprovou o que viu nos cinemas, mas não faltaram reclamações quanto à falta de “conflitos e crescimento pessoal” dos personagens dentro da história, além de alguns terem achado a resolução em relação ao vilão Galactus meio “fácil demais” e encontrado algumas obviedades no roteiro.
Ainda que haja uma dose de verdade nestas pontuações, elas de forma alguma impactam no resultado final. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é um bom filme, até porque conseguiu – finalmente – captar a essência dos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1961.

As quatro tentativas anteriores, ainda em que sua maioria contassem com bons elencos e tivessem (algumas) qualidades, falhavam no principal: a identificação com os quadrinhos ficava muito aquém da química do grupo nas HQs.
Em Primeiros Passos, porém, está tudo no lugar correto: a relação da história do grupo com tecnologia e espaço, a personalidade de cada um dos integrantes (e visual, ainda que a barba de Pedro Pascal seja mais exceção que regra nas mais de seis décadas de histórias) e principalmente o fato de, mais do que uma superequipe, o Quarteto ser uma família.

O filme começa com os quatro protagonistas já estabelecidos como os grandes – e únicos – heróis do planeta. Neste sentido, nunca é demais lembrar que o planeta onde se passa a aventura não é o mesmo do restante do universo Marvel. Ou seja, esta é a Terra 828 (o número não é aleatório, foi estabelecido em homenagem a Jack Kirby, que nasceu em um dia 28 de agosto, ou no formato estadunidense, 8/28) e nela não existem Homem-de-Ferro, Capitão América, Hulk, Viúva Negra e companhia limitada.
Por serem os únicos a salvarem constantemente a humanidade (e pela genialidade de Reed Richards ter contribuído para que o planeta tenha uma tecnologia de ponta com cara retrô), o Quarteto é idolatrado.

Reed/Senhor Fantástico (Pascal), Sue Storm-Richards/Mulher Invisível (Vanessa Kirby), Johnny Storm/Tocha Humana (Joseph Quinn) e Ben Grimm/Coisa (Ebon Moss-Bachrach) são verdadeiras celebridades, daquelas que têm a imagem nos mais variados produtos (de action figures a caixa de cereal) e cuja história é conhecida e repetida pela mídia. Por sinal, é assim, em uma “reportagem comemorativa” rápida e objetiva, que a origem é (re)contada ao espectador.
E nos primeiros minutos o público também é apresentado à interação dos quatro como família, com direito a refeições em conjunto e à dinâmica interpessoal entre eles (que, não custa lembrar, moram juntos em um mega apartamento). Esse “sentimento família”, típico das HQs clássicas, fica bem explícito em especial na cena em que Sue e Reed confirmam a gravidez pata Johnny e Ben (isso não é spoiler: já foi amplamente divulgado nos trailers do filme).

As coisas começam a se complicar quando aparece no planeta a Surfista Prateada, uma criatura extremamente poderosa, para anunciar que Galactus, o devorador de universos, está a caminho para consumir o planeta. A partir daí o Quarteto segue em missão para descobrir o tamanho da ameaça, que é bem maior que eles imaginam, e acaba gerando uma das cenas de ação mais criativas e inéditas do cinema.
Em meio a uma perseguição insólita pelo espaço, Sue dá à luz e os quatro se dividem entre o parto e a fuga, com direito a Ben mostrando as habilidades como piloto espacial e a pegações no pé em especial entre Johnny e o próprio Coisa.

De volta à Terra com notícias nada alvissareiras, o grupo vê toda adoração do público se transformar momentaneamente em decepção e fúria contra eles, já que haveria uma solução “fácil” para afastar Galactus: sacrificar uma única vida não valeria a dos bilhões que habitam o planeta?
Diante do dilema caberá aos heróis acharem uma solução e, sim, é previsível que eles farão isso (alguém realmente não esperaria um final feliz?). O mais bacana deste filme é que os quatro farão parte desta solução agindo como família e, com o perdão da repetição, com o mesmo espírito das HQs.

Assim, a mente analítica de Reed Richards irá considerar todos os cenários por mais que eles machuquem aqueles que ama; Johhny mostrará que é mais do que um rostinho bonito (ao contrário de outros filmes) e será fundamental em descobrir caminhos a serem seguidos; Ben irá além de ser apenas um punhado de músculos e Sue demonstrará que não é só a cola que mantém a família unida, mas também, em muitos aspectos e conforme amplamente demonstrado nas HQs, a mais poderosa integrante do Quarteto Fantástico.

Tudo isso posto, cabe confrontar às críticas. Em primeiro lugar, de fato o roteiro contém obviedades (Thunderbolts*, que ficou bem abaixo nas bilheterias, é bem mais interessante e surpreendente que Primeiros Passos, por exemplo). Ainda que uma determinada cena até chegue a dar por nanosegundos aquela duvidazinha de “será?”, é óbvio que nenhum dos integrantes do Quarteto morre no final do filme.
Assim como é óbvio quem irá se sacrificar em outro determinado momento. Mas, convenhamos, se trata do primeiro filme de um grupo de heróis no atual universo Marvel: alguém realmente esperaria algo diferente de um final feliz?
Quanto a quem achou que a, digamos, solução final contra Galactus ficou meio forçada, há dois comentários a serem feitos. Um: nunca duvide da força de uma mãe defendendo a família e, principalmente, o bebê dela. Dois: se você achou forçado, leia a primeira HQ de Galactus contra o Quarteto Fantástico, pois nela a solução é muuuuito mais forçada.

Por fim, de fato tem razão quem afirma que do ponto de vista psicológico não houve grande crescimento dos personagens ao longo do filme, que eles terminaram mais ou menos iguais ao que eram no começo. Mas, sinceramente, qual o grande problema nisso? É regra que todo herói precisa passar por uma jornada de superação e conflito que o leve a uma grande mudança de caráter e iluminação em um único filme?
Há algo errado em um longa de super-herói não ter drama em exagero, mas sim se concentrar em uma aventura com ação e divertimento? Não, não há. Neste sentido, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos cumpre a proposta com folga e é um alento aos fãs dos personagens, que finalmente têm um filme que respeita a essência dos gibis.

Ah, o longa tem dois pós créditos. O primeiro deles fez muita gente ficar entusiasmado e até aplaudir nos cinemas, já que dá gancho para o que promete ser o maior acontecimento do Universo Cinematográfico Marvel de 2026. Já o segundo é bem mais levinho, mas vai aquece o coração da galera que assistia os desenhos do Quarteto lançados no final dos anos de 1960 e 1970.
Quartetos não tão fantásticos
Em tempo, vale lembrar os outros filmes já lançados do Quarteto, em ordem cronológica:
O Quarteto Fantástico (1994) – Esse primeiro filme foi feito por obrigação contratual, para que a produtora Constantin Film não perdesse os direitos do Quarteto que havia adquirido, e nunca chegou aos cinemas. Quem viu diz que os efeitos visuais são amadores e as atuações muito ruins, além de um roteiro fraco. O elenco contava com Alex Hyde-White (Senhor Fantástico), Rebecca Staab (Mulher-Invisível), Jay Underwood (Tocha Humana), Michael Bailey Smith (Coisa) e Joseph Culp (Dr. Destino).

Quarteto Fantástico (2005) – Com uma pegada de comédia, o filme chamou atenção mais ter Jessica Alba, então em alta como sex symbol, interpretando Sue Richards. Cris Evans, que futuramente se consolidaria como Capitão América no UCM, está muito caricato como um Tocha Humana que só pensa mulher e é cheio de gracinhas. Roteiro previsível, efeitos especiais pouco convincentes e falta de carisma de Julian McMahon como Dr. Destino também foram criticadas na época. Completaram o elenco Ioan Gruffudd (Sr. Fantástico) e Michael Chiklis (Coisa).

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007) – Continuação do filme anterior e com o mesmo elenco principal – apesar de Jessica Alba inexplicavelmente usar uma peruca loira em vez de ter pintado o cabelo. Mais uma vez, Chris Evans/ Tocha Humana se destaca nas piadinhas contracenando com Coisa. O visual do Surfista (feito em CGI e dublado por Lawrence Fishburn) agradou os fãs, mas na mesma proporção a ideia de colocar Galactus como uma espécie de nuvem de energia decepcionou a todos.

O Quarteto Fantástico (2015) – Considerado o pior de todos os que chegaram aos cinemas, o filme tinha um tom mais sombrio, porém personagens mal desenvolvidos e um roteiro estranho, que levou a crítica a dizer que ele foi aparentemente mal editado e parecia inacabado. Segundo relatos da mídia da época, houve diversos conflitos entre o diretor Josh Trank e a 20th Century Fox, o que teria impactado no filme. Além disso, a escalação de Michael B. Jordan (que voltaria posteriormente ao universo Marvel como um ótimo Killmonger em Pantera Negra) foi equivocada. Além de fugir do visual/conceito amplamente reconhecido de Johnny Storm como um playboyzinho – ainda que muito inteligente – para um sujeito revoltado, mantiveram a irmã Sue (Kate Mara) como uma mulher branca e loira, o que o roteiro justificava como sendo ele um irmão adotivo. Completavam o elenco Miles Teller (Sr. Fantástico), Jamie Bell (Coisa) e Toby Kebbel (Dr. Destino).





Como assim, você achou a ameaça de Reed Richards em usar o Nulificador Total (ou, o Motorola Startac do espaço) em Galactus forçado???????
EU ainda preciso juntar coragem para ligar o Disney+ e dedicar 2+ horas da minha vida para esse filme que – pelos trailers – não me empolgou