Já há alguns anos a Netflix descobriu – assim como boa parte do mundo – que filmes e séries com a temática super-herói dão audiência, e desde então vem abrindo espaço para esse filão. Longe dos blockbusters estadunidenses, Origens Secretas (Orígenes Secretos), filme espanhol de 2020 que está disponível no catálogo do serviço de streaming, é um dos que se somou ao – felizmente – amplo leque disponível. Mas não é “apenas mais um”: o longa é uma alegoria inteligente e divertida ao mundo da cultura pop, e que vale a pena ser conferido.

Como todo leitor de quadrinhos sabe, “origens secretas” são aquelas histórias tradicionais nas quais são mostrados o surgimento de determinados super-heróis. E no filme coescrito e dirigido por David Galán Galindo, um serial killer está reencenando nos assassinatos que comete cenas dos gibis onde surgiram heróis tradicionais – como Hulk, Homem-de-Ferro, Homem-Aranha, X-Men, Tocha-Humana (o original androide e não o do Quarteto Fantástico).

Muita gente (quando o filme foi lançado houve várias “críticas” na Internet neste sentido) encarou Origens Secretas como um longa policial ou suspense, uma vez que o foco é a investigação dos crimes. Isso gerou tanto uma série de comparações com Se7en – Os Sete Pecados Capitais, bem como algumas reações de decepção dizendo que o filme “descamba” no final.
Bobagem. Em primeiro lugar porque o filme já diz a que veio desde o título (se era pra comparar com outro, deviam ter pensado em Corpo Fechado, mas nem vamos insistir nisso pra não explicitar nenhum spoiler).

Fato é que Origens Secretas é, mais que um filme de suspense ou super-herói, uma metáfora bem feita ao entretenimento e à cultura dos super-heróis, seja pelo roteiro em si, pelos figurinos ou pelas muitas citações a quadrinhos, animes, filmes, músicas, artistas etc.

A história se passa em Madrid, no ano de 2019. O experiente detetive Cosme (Antonio Resines) está a caminho da aposentadoria, forçada pela chefia por razões não reveladas, e nos últimos dias de trabalho acaba colocando sob suas asas o recém-chegado David, um jovem e impulsivo detetive.
Os dois estão investigando um estranho assassinato quando Cosme – que é pai de um nerd dono de uma Comic Shop, Jorge Elias (Brays Efe, ator que fisicamente lembra Jack Black em algumas cenas) – acaba fazendo uma associação entre o crime e uma história em quadrinhos. Assim, com as bênçãos da delegada Norma, Cosme traz o filho para trabalhar como consultor na investigação.

A partir daí, a dupla (mais ou menos) dinâmica vai seguir as pistas em meio a inúmeras citações da cultura pop, que o aficionado vai se deliciar em identificar – e não vai atrapalhar nem um pouco a apreciação do público geral, caso não perceba todas (algumas são muito claras, outras nem tanto).
Enquanto David e Cosme dão um ar mais sério ao filme, o humor fica por conta do looser Jorge Elias (um solteirão gordinho que ainda mora com o pai, não tem namorada e acha que o genitor não gosta dele e sim do heroico irmão morto em um incêndio) e da delegada Norma.

Esta, aliás, interpretada pela ótima Verónica Echegui, é responsável por cenas bem interessantes em virtude de gostar – e fazer os próprios figurinos – de cosplay (algo que rende mais dinheiro do que o salário de policial, vejam só).
Por sinal, o filme também tem piadas dentro das piadas, inclusive ao mostrar que ser nerd nos dias atuais por vezes denota muito mais sucesso (financeiro, em especial) do que ser “normal”. Aliás, basta dar uma olhada no preço dos produtos voltados para o mercado geek para ter certeza disso.

Resumindo, vale a pena assistir à aventura. Desde que não ache que Origens Secretas é um filme policial “sério” – aliás, é difícil entender porque houve quem achasse, a não ser que não tenha passado dos 12 segundos iniciais do trailer – o espectador vai se divertir bastante com a história.
E, diga-se de passagem, vai descobrir ao final que o título do filme entrega o que promete, pois não se refere apenas às capas deixadas pelo assassino.





Muito interessante, não conhecia! Valeu a dica!