O que aconteceria se um super-herói tivesse tanto poder, tanta força, que fosse capaz de derrotar qualquer adversário (incluindo monstros gigantes e criaturas capazes de destruir cidades inteiras) com um único soco? A resposta, pelo menos se o nome do herói em questão for Saitama, é: um tédio sem fim graças à falta de desafios que gerem um mínimo de empolgação.
Saitama, no caso, é o protagonista de One-Punch Man (Wanpanman), um mangá genial lançado em 2009 por um artista desconhecido (que se identifica apenas pelo pseudônimo de ONE) como webcomic. Mesmo com um traço bastante tosco, as boas histórias de ONE rapidamente transformaram a HQ em um fenômeno, atingindo um público de 7,9 milhões de pessoas.

O sucesso levou à feitura de um remake/versão impressa publicada pela editora Shueisha no selo Jump Comics com desenhos de outro ilustrador, Yusuke Murata (e o criador ONE recebendo royalties).
Lançado no Japão em 2012, o mangá impresso – que no Brasil sai bimestralmente pela Panini desde 2016 – atingiu neste ano o número de 34 milhões de exemplares em circulação, volume que faz de One-Punch Man um dos quadrinhos japoneses mais vendidos de todos os tempos.

E, é claro, a história também virou anime em 2015, com trabalho caprichado do estúdio de animação Madhouse. Outro estúdio, o JC Staff, assumiu o desenho para a segunda temporada (lançada apenas em 2019) e para a terceira, que saiu agora em 2025.
Em ambas, a qualidade da animação e das lutas caiu bastante, o que está gerando bastante crítica dos fãs, em especial nesta última onde também ocorreram diversos cortes de conteúdo em relação ao mangá e até troca de sexo de um vilão, o Estripador.

Ainda assim, os fãs seguem fieis ao anime que, no Brasil, tem todas as temporadas disponibilizadas pela Netflix – a que está em andamento tem episódios levados ao ar semanalmente – e também pode ser vista no Crunchyroll.
One-Punch Man também virou game para Playstation, X-Box, PC e App de celular e um filme live-action está em desenvolvimento pela Sony-Columbia Pictures

Muito humor e pancadaria
O diferencial de One-Punch Man não está apenas no ineditismo do protagonista poderoso e entediado. Ele também aparece no roteiro bem-humorado que brinca com uma série de estereótipos de heróis, vilões e monstros, além de promover uma série de lutas que envolvem outros personagens e dramas até que Saitama chega e, decepcionado, resolve tudo com um único soco.

Aliás, o fato do público saber que inevitavelmente isso vai acontecer não diminui a diversão. Sempre há a expectativa que “desta vez” ele não vai conseguir, gerada pela força absurda de vilões que já mandaram inúmeros outros superpoderosos para hospitais ou mesmo pelo herói prolongando a luta na esperança que seu oponente eventualmente se mostre à altura.
Fora isso, constantemente e desde o primeiro episódio, há uma série de tramas paralelas e ainda flashbacks mostrando fatos da origem de Saitama, que também incluem uma série de piadas com o gênero.

No universo onde se desenvolve One-Punch Man, o país é dividido em diversas cidades que são nominadas pelas letras do alfabeto. Todas elas sofrem com o constante aparecimento de monstros – não apenas os tradicionais Kaiju (como são chamados em japonês os monstros gigantes estilo Godzilla) como também o que a série chama de kaijin, literalmente “pessoas misteriosas”, que são seres humanos de tamanho mais normal que se tornaram poderosos e, normalmente, monstruosos.
E aqui é preciso elogiar (mais uma vez) a criatividade do autor, que consegue imaginar um número surreal de vilões coloridos e caricaturescos, que deixariam com inveja os roteiristas que criam a galeria de malfeitores de Batman, Flash e outros supers tradicionais do Ocidente. Sem exagero, são centenas de monstruosidades diferentes.

Saitama era um sujeito desempregado (e cabeludo) que um dia, meio sem querer, salva um menino de um desses kaijin. O monstro, que assumiu forma de caranguejo de tanto se alimentar do crustáceo (!), quer se vingar do menino que aproveitou que ele dormia para “desenhar peitinhos com caneta indelével” na carapaça peitoral dele.

A partir desse episódio, Saitama decide se tornar um herói de verdade e pelos próximo três anos irá treinar como um louco (literalmente até perder os cabelos) e se tornará um herói invencível.
O que, rapidamente, ele irá considerar enfadonho. Não que Saitama seja (ou se torne, o que com certeza aconteceria em um quadrinho ocidental) algum tipo de psicopata, incapaz de sentir. Pelo contrário, ele se irrita profundamente quando Genos, que se tornará aprendiz dele, insiste em contar uma looooonga história para explicar como se tornou um ciborgue, ou mesmo quando não consegue matar um mosquito.

Saitama também se anima quando descobre que pode ser um herói reconhecido pela população caso se uma a Associação de Heróis (que absurdamente irá classificá-lo como um herói classe C mesmo ele sendo mais poderoso que todos os demais) ou quando alguém é legitimamente grato a ele por ter ajudado.
E ainda é capaz de sensibilizar e tomar uma atitude inesperada quando um cidadão maldoso insinua que outros heróis são uma farsa sem utilidade quando só Saitama consegue vencer um monstro até então invencível. Sim, com certeza o herói careca consegue sentir, e muito… o único problema é que o maior sentimento dele é o tédio.

Ainda assim, ele insiste em ser um herói “por hobbie” e na busca por empolgação e reconhecimento irá causar grandes mudanças nas pessoas em seu entorno. Inclusive em outros heróis que se acham melhores que ele e em outros que querem ser tão fortes quanto ele e não acreditam que o careca se tornou tão poderoso apenas treinando três anos sem parar.
Cabe ressaltar dois pontos sobre ambos os temas. O primeiro é que ONE é tão criativo para criar heróis insólitos quanto para os vilões – o grupo Tanktop, a arrogante Tatumaki/Tornado, o nojento Pig God (que engole qualquer coisa) e um outro herói supostamente poderoso que acaba não sendo exatamente isso estão entre os destaques.

O segundo é que o autor sabe brincar bastante com a origem real dos poderes de Saitama, prolongando o mistério e lançando teorias que chegam a fazer um cientista da série virar vendedor de bolinhos de polvo…

Ainda que enfrente problemas mais recentes de qualidade na versão anime, One Punch-Man é um soco, quer dizer, um sopro de ar fresco impressionante no gênero de super-heróis. Como a série ainda está em andamento e não tem previsão de acabar, é difícil saber por quanto tempo o autor conseguirá manter esse espírito de renovação nem por quanto tempo conseguirá a invencibilidade de Saitama e capacidade de ele resolver tudo com uma única pancada.
Contudo, a julgar pela criatividade demonstrada por ONE e companhia até agora, os fãs podem manter a esperança de que o tédio de Saitama – e a diversão de quem acompanha as aventuras do herói – está longe de acabar.





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