Lembra dessa? Em 2017 a Turma da Mônica foi ‘acusada’ de ‘incutir ideologia de gênero nas crianças’

No amor e na guerra vale tudo, é o que diz o velho ditado. Tudo mesmo, até distorcer histórias em quadrinhos da Turma da Mônica para “chamar atenção” contra a chamada “ideologia de gênero”.

Não que tirar HQs e desenhos animados de contexto e/ou demoniza-las seja lá uma novidade – basta lembrar do livro Sedução dos Inocentes, do psicólogo Frederick Wertham, lançado em 1954. Mas é bom lembrar também que aquela “obra” e as distorções contidas nela levaram pais e professores crédulos a literalmente queimarem gibis na fogueira e causou uma censura ridícula que perdurou por décadas.

Antes de continuar este texto, cabe aqui deixar claro: ele não irá se posicionar contra ou a favor da “ideologia de gênero”, pois este não é o objetivo dele nem – muito menos – do site MundoHQ. Porém, se alguém quer ser contra ou a favor do que quer que seja, o primeiro passo é se embasar em fatos verdadeiros e não em besteiras espalhadas pelos famosos haters (como são chamadas aquelas pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem terem critério, sem aprofundamento ou, muitas vezes, sem checar o fato que gerou o comentário).
A ideia, então, é falar das HQs reais e do contexto das histórias, algo que foi conevenientemente deixado de fora das “campanhas de alerta aos pais” disseminadas na rede.
A origem da idiotice
Difícil dizer onde o besteirol teve origem, mas quem deu mais publicidade a ele na época foi a “jornalista, biógrafa e pesquisadora da música brasileira” Stella Caymmi, que postou nas redes sociais um suposto alerta em outubro de 2017 (mês em que Maurício de Sousa completou 82 anos) afirmando que as histórias da Mônica e do Cebolinha eram usadas para “incutir ideologia de gênero nas crianças” (sic).
A prova, segundo ela, era uma página de uma HQ originalmente publicada mais de 20 anos atrás (e reproduzida posteriormente no Almanaque da Mônica 42, de novembro de 2013). 
A página mostra um diálogo de Mônica e Magali na história “Sem Torneirinha”, no qual a dentucinha diz que queria ter uma “torneirinha” igual a do Cebolinha para fazer xixi e trava o seguinte diálogo com a comilona:
Magali – Nós não temos torneirinhas porque somos meninas.
Mônica- Isso não é motivo!
Magali – Claro que é, se tivéssemos torneirinhas seríamos meninos.
Monica – Por que?
Magali – Porque só os meninos têm torneirinha!
Mônica – A gente podia ter a tal torneirinha e continuar sendo meninas. Uma torneirinha a mais ou a menos não mudaria em nada!
 
E pronto! Este pequeno trecho foi o suficiente para Maurício se tornar, como diz outro “intelectual-filósofo” da Internet, “um militante da ideologia de gênero”. O curioso é que nenhuma destas pessoas que colocam uma página da HQ em suas redes sociais se deram ao trabalho de ler a história inteira, ou, se o fizeram, preferiram ignorar tudo.
Tudo começa quando Cebolinha e Mônica estão jogando peteca e ele fica apertado, escolhe uma moitinha e faz xixi ali mesmo. Logo depois ela fica com vontade e sai correndo, acaba fazendo xixi na calça, tem de tomar ir pra casa tomar banho e quando volta Cebolinha já está de saída.
Mônica, então, revolta-se com o fato de um menino poder fazer xixi de pé, com tanta praticidade, e ela ter todo aquele trabalho pra fazer o mesmo, e se pergunta por quê não tem uma torneirinha. Ou seja, a questão é uma criança se questionando por que meninos nascem “com pipi” e meninas não,  e desejando ter uma “torneirinha” para fazer xixi mais facilmente – o que na opinião dela não a transformaria em um menino, pois ela continuaria sendo a mesma Mônica de sempre.
Aliás, na continuação da história as duas pedem uma torneirinha ao papai do céu, ao cientista mirim Franjinha (que desaba em risos) e até a um poço dos desejos que inicialmente as contempla com torneirinhas. Literalmente.
Quando finalmente chega em casa e se abre com a mãe, a resposta da genitora desfaz totalmente a afirmação da Mônica naquela página isolada: 
Mãe da Mônica – Mas, quando você nascesse , toda carequinha, enrrugadinha e com torneirinha, o médico diria: é homem.
Mônica – Ih, eu não havia pensado nisso. Quando descobrissem que eu era menina seria tarde demais !
Assim, Mônica desiste da torneirinha, mas no quadrinho final deixa Magali prevendo novas dores de cabeça ao dizer que quer brincar de futebol, o que segundo a amiga é “coisa pra meninos.” Quem quiser ler a HQ inteira e dar suas próprias risadas pode fazer isso neste link: https://prezi.com/vl-wuctm7xtq/sem-torneirinha/
Nunca é demais lembrar que a história tem mais de duas décadas de existência, ou seja, é de uma época em que o termo “ideologia de gênero” sequer era conhecido no Brasil. E, por mais que Maurício seja um homem à frente de seu tempo, mesmo que conhecesse a suposta ideologia, ele não a abordaria nos quadrinhos para defendê-la ou reprová-la, por uma razão simples: ele é um artista responsável e cuidadoso demais, e evita a todo custo se envolver em polêmicas, pois sabe o quanto pode influenciar as pessoas.
“Eu sempre oriento (os roteiristas do estúdio) que evitem assuntos polêmicos e politicamente incorretos. Não que eu adore o sistema de vigilância que existe atualmente, os costumes mudam, e os personagens têm que acompanhá-los. No entanto, não devemos levantar bandeiras. Temos que pegar a bandeira que está passando. Me cobram muito: onde estão os personagens gays? Eu respondo: estão esperando o momento em que serão vistos com naturalidade pela sociedade. Eu não quero me adiantar, mas também não quero perder o bonde”, disse em novembro de 2017 ao site Omelete. 
Vale lembrar, inclusive, que mesmo quando lançou um personagem apontado como gay por muitos, Caio, em uma HQ da Tina (que não é voltada ao público infantil), Maurício e seu estúdio o fizeram de modo a não gerar uma interpretação definitiva e não confirmaram em momento algum a suposta/provável homossexualidade.
A boneca do Cebolinha
É claro que desgraça pouca é bobagem, então deturpar uma única história não seria suficiente para o exército dos panfletários. Eles também pegaram uma página (sempre uma única, sem contar a história toda) da HQ “Eu acredito!”, publicada em dezembro de 2016 na revista Cebolinha 20. 
O recorte escolhido é o diálogo entre Papai Noel, Cascão e Mônica, no qual as crianças dizem ao bom velhinho que descobriram que Cebolinha quer uma boneca de Natal e que as pessoas podem achar isso estranho. Noel, então, diz que não há nada estranho, que as crianças podem brincar com qualquer brinquedo. “E se algumas pessoas acham isso estranho, sinto muito por elas!”
 
Nem precisa dizer que pros alarmistas de plantão meninos brincarem de boneca e meninas jogarem bola definitivamente é um libelo à “ideologia de gênero”! E olha que quando esta história saiu nem se sonhava em ministra federal dizendo que menino usa azul e menina usa rosa…  
Nas páginas seguintes é revelado pelo próprio Cebolinha que ele pediu a boneca para a irmã, Maria Cebolinha, que queria muito o brinquedo. Mais ainda, a feia boneca zumbi que os amigos fizeram pra ele (achando que Papai Noel não traria a que pediu) ele resolve usar quando for brincar com a irmãzinha – e, sim, ele ganhou um MÁSCULO caminhãozinho de Natal…
Sabedor que tem uma reputação que fala por si e que responder aos haters seria contraproducente, pois só os colocaria ainda mais em destaque, nem Maurício nem ninguém de seus estúdios se pronunciou a respeito deste episódio estapafúrdio nas redes. Nem precisa.
Como qualquer um com um QI um pouco maior que uma ostra saudável pode ver, desde que tenha todo o contexto para refletir, Mauricio de Sousa não está usando histórias da Mônica pra incutir “ideologia de gênero”, nem clara nem subliminarmente, nem está defendendo teoria A ou B, sendo contra ou a favor deste ou daquele.
Como sempre fez nos seus mais de 80 anos de vida, Maurício – e os profissionais de seu estúdio – continua fazendo boas histórias e divertindo crianças e adultos de todas as idades.
Em tempo: senhores pais, mães e responsáveis, por favor deixem suas crianças brincarem com os brinquedos que quiserem. Orientação sexual não é algo que se adquire por brincar com um ou outro objeto, ler determinado livro/HQ ou assistira este ou aquele desenho ou filme. Nem existe nenhuma orientação que seja certa ou errada.
Matéria originalmente publicada em 8 de janeiro de 2018

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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