Uma das diversões dos antigos quadrinhos de detetive – entre eles os de Batman nas fases mais iniciais – era tentar descobrir o culpado e as razões do crime antes do final da HQ. Mauricio – Repórter, 47ª Graphic MSP e última do ano de 2025, traz de volta esse sentimento ao mesmo tempo em que mistura porções da vida real do pai da Turma da Mônica (e do Brasil do final dos anos de 1950) com ficção policial.
Aliás, já de cara esse é um diferencial da história. Normalmente as Graphic MSP têm como protagonistas personagens criados por Mauricio de Sousa em histórias elaboradas e desenhadas por artistas convidados. Aqui, contudo, o próprio cartunista é transformado no herói da HQ pelos geniais Flavio Teixeira (roteiro) e Mauro Souza (arte).

A aventura se passa em 1959, quando o jovem Mauricio de Sousa trabalha como repórter policial da Folha de S.Paulo (vestido como Dick Tracy, um dos gibis favoritos dele, para “encarnar” o cargo e perder a timidez). Ao mesmo tempo, o rapaz tenta emplacar no jornal alguns desenhos para deslanchar na carreira que realmente quer seguir. Até aqui, tudo absolutamente verdadeiro.
Entra então a ficção. Após um dia típico no trabalho (no qual o leitor se familiariza com colegas de redação e outro personagens, além da rotina do então candidato a desenhista), Mauricio é um dos escalados para cobrir o assassinato de um conde francês ocorrido em São Paulo.

Acompanhado do sarrista e perspicaz fotojornalista Inácio, ele disputa a reportagem com um colega insuportável, Baltazar, e acaba ficando encarregado da notícia menos importante: o sumiço da cachorrinha do falecido e da viúva. Contudo, com faro jornalístico ímpar, Mauricio vai além da busca pelo pet e, atuando como um verdadeiro investigador, não medirá esforços para descobrir o que realmente ocorreu.
Aqui cabe dizer que o leitor mais atento não encontrará apenas pistas do crime na HQ, mas também uma série de referências e easter eggs no decorrer da Graphic Novel. Nenhuma surpresa para quem conhece o roteirista Flávio Teixeira, Além de ser um pesquisador de mão cheia, ele simplesmente adora ocultar referências das mais diversas nas HQs que escreve da Turma da Mônica, de cultura pop a brincadeiras envolvendo fatos específicos com os personagens da casa.

Aliás, é bom alertar desde já que achar todas será praticamente impossível, mas felizmente entre os extras da HQ há um registro dos principais. Algumas referências são mais fáceis de enxergar, como um personagem extremamente parecido com um dos criados por Mauricio que atende pelo nome de “goiabada” – além das roupas idênticas, a brincadeira entre o nome e um tipo específico do doce deixa tudo bem visível. Leitores de The Spirit, de Will Eisner, também verão uma bela homenagem ao mestre logo no começo da HQ.

Mas dificilmente alguém irá sacar que as iniciais dos nomes de alguns amigos de Mauricio trazem uma revelação se forem colocadas na ordem certa. Muito menos saberá que um dos cavalos que leva nome de personagem do Mauricioverso existiu de verdade na época (e antes que alguém nos acuse de dar spoiler, notem que não dissemos qual! Rs).

Importante ressaltar que Teixeira não foi o único a fazer pesquisa sobre o período. Os prédios, cenários, roupas, móveis e carros desenhados por Mauro Souza são minuciosos, detalhistas ao extremo em relação ao “mundo real” de então. E tudo isso no traço maravilhoso de Souza, que não à toa é diretor de arte da MSP, tem ilustrações publicadas nas principais revistas e jornais do país e um prêmio do Festival Anima Mundi por um curta-metragem de animação, entre outras coisinhas.

Com tudo isso, Mauricio – Repórter é uma Graphic MSP diferenciada das demais e que obrigatoriamente precisa ser lida (pelo menos) duas vezes: uma no próprio ritmo, se divertindo com a história. E outra reparando os pormenores dos desenhos e com a lista de informações que consta nos Extras em mãos, para conferir os muitos detalhes que provavelmente terão passado batido na primeira leitura.

Em tempo: Mauricio – Repórter também é a primeira Graphic MSP a ter uma capa alternativa! Além da original, com o protagonista carregando a cachorrinha Bijoux no colo, uma segunda (de fundo azul, com o jornalista policial com um bloquinho no qual desenhou a cachorrinha) foi lançada exclusivamente na CCXP 2025. Desta última existem apenas mil exemplares numerados, que só puderam ser adquiridos na Comic Con.





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