A cena é emblemática, para não dizer triste e revoltante. A professora propõe que os alunos escrevam sobre as diversas profissões e, para evitar brigas, ela mesma escolhe sobre qual cada um irá relatar. Ao chegar em frente ao aluno negro, Jeremias, dispara: “pedreiro”. Fica pior: quando o garoto declara que gostaria de ser astronauta, a sala inteira cai na risada.
Sim, ser pedreiro é uma profissão digna, que foi exercida pelo próprio avô de Jeremias, e ele dará a volta por cima ao ler a redação posteriormente frente à turma. Mas o nó na garganta de quem lê Jeremias – Pele, a primeira história com personagens de Maurício de Sousa no qual o racismo é colocado em foco, vai se instalar logo de cara, e não será o único na Graphic MSP contundente escrita por Rafael Costa e desenhada por Jefferson Costa.
É preciso registrar que Maurício de Sousa nunca se recusou a mostrar temas mais sensíveis em suas HQs, porém sempre o fez com a leveza necessária a gibis lidos por, em sua maioria, crianças.
Quando quis mostrar a vida de casais separados, por exemplo, transformou os pais de Xaveco em divorciados, sem mostrar como aquilo ocorreu e deixando claro como ambos ainda se dão bem. A tristeza da morte de uma criança, no caso a irmãzinha de Chico Bento, foi relatada com poesia ímpar numa HQ na qual o caipirinha conta como a pequena Mariana virou uma estrela.
E a introdução de um personagem gay na Turma da Tina foi feita de maneira tão natural que até hoje está em aberto a questão: será que o tal Caio era mesmo homossexual? Jeremias –Pele, porém, é destinada a um público mais maduro e não há muito espaço para sutilezas: a história é um verdadeiro soco no estômago.
Nas páginas iniciais, a dupla apresenta a família de Jeremias como uma daquelas de comercial de margarina, feliz, saindo do cinema – há aqui uma clara homenagem à origem do Batman, na cena clássica dos Wayne no cinema e saindo dele após assistirem ao Zorro. A felicidade perdura no café da manhã (com direito a pai e filho brincarem com a mãe por ela realmente ter o perfil pra se encaixar em um comercial de manteiga), no intervalo que Jeremias faz para a acompanhar o lançamento do Astronauta ao espaço (uma simpática interligação com o universo das demais Graphic MSP) e até mesmo nos primeiros momentos na escola, onde o garoto se destaca pela inteligência.

Mas a partir daí, Jeremias começa a ter contato com um mundo que aparentemente desconhecia até ali, ou pelo menos não o atingia tão fortemente. Primeiro na citada cena do pedreiro, depois uma piadinha sem graça na visita ao museu.
Nesta, aliás, cabem dois parênteses: fique atento para outros personagens de Maurício que aparecem por ali como coadjuvantes e às reprodução de pinturas reais feitas pelos artistas negros Horácio Hora (Pery e Cecy) e Benedito José de Andrade (Briga de Galo).

As coisas até parecem começar a melhorar na escola, quando Jeremias descobre uma amiga que queria ser jogadora de bola e a professora mandou ser decoradora (opa, preconceito e sexismo?).
Mas, quando a menina realmente mostra que bate um bolão, o colega que já havia demonstrado racismo apela e, depois de resistir muito e até apanhar primeiro, o garoto reage e vão os dois para diretoria. O diretor põe a cereja do bolo ao ser condescendente com a provocação racista feita pelo menino branco.

E dá-lhe mais mundo real na história: o pai de Jerê, no caminho da escola, é abordado pela polícia de maneira truculenta. Na hora de mostrar documento, dá a carteira de trabalho – nos extras, os autores da Graphic, ambos negros, explicam que esta é uma das cenas inspiradas pela vida pessoal deles, que aprenderam com os pais a não mostrar RG e sim a carteira, pra provar que tinham emprego e não eram vagabundos. Êta mundinho lamentável.
Jeremias se revolta, com razão, com a situação, mas em vez de apoio recebe um tremendo sermão do pai, que repete o duro discurso que um dia ouviu também do genitor. A ideia desta reportagem não é detalhar passo a passo o que acontece na Graphic, ainda que, acredite, ele não tira nada do impacto ou da beleza da história. Mas é impossível resistir a registrar aqui a fala do pai do garoto, dita aos berros, quando ele pergunta por que não deveria ter reagido às provocações.

“Porque você é negro, Jeremias! Se você for briguento, não vão dizer que você foi provocado, vão dizer que é porque você é negro! Se não entender algo, se disser alguma coisa errada, vão dizer que é porque você é negro! É assim que as coisas, são ! Você vai ter que ser duas vezes mais paciente, duas vezes mais esperto. Se não for duas vezes melhor, nunca vai ser tratado como igual! Vai ter que endurecer, filho, criar uma casca dura, entendeu?”
E Jeremias vai efetivamente se transformar no restante da história, mas hay que endurecer sin perder la ternura e, neste sentido, o garoto se supera. Haverá ainda mais alguns momentos difíceis nas páginas de Pele, e também outros fatos que merecem ser destacados, como a explicação para o boné que ele usa nos gibis regulares.

A ainda a presença do avô, uma homenagem ao “seu Graciano”, que trabalhou anos com Maurício e criou o cabelo do personagem Cascão; e mais obras de arte reais (e situações reais) nas ruas da cidade de São Paulo – devidamente explicada nos extras que são tradicionais nas Graphic MSP. E finalmente, há um final esperançoso com direito ao início de uma grande amizade.

Ah, sim: como sempre, nos extras o leitor fica sabendo um pouco mais sobre a origem do personagem – que surgiu em 1960 ao lado de Franjinha, Titi, Manezinho e Humberto – e a evolução dele ao longo dos anos. A Graphic Jeremias Pele (96 páginas) custa R$ 31,40 na versão mais simples e R$ 41,90 em capa dura. Em tempo: o texto de apresentação da contracapa é assinado pelo rapper Emicida.





Comentar