Deadpool

Em 1991, o controverso desenhista Rob Liefield (conhecido pelo exagero anatômico com o qual desenhava alguns super-heróis) era uma estrela em ascensão na editora Marvel quando propôs três personagens novos para a revista dos Novos Mutantes: Dominó, Gedeão e… Deadpool.

Liefield fez alguns esboços do personagem que imaginava e mandou para o  roteirista Fabian Nicieza (X-Men) pedindo que desenvolvesse o personagem. Ressaltou ao colega que a ideia era que fosse um anti-herói, um assassino de aluguel, extremamente ágil, um mercenário inigualável.

Antes de pensar na história de Deadpool, porém, Nicieza ligou para Liefield dizendo que tinha achado o desenho familiar. Era, afirmou, bem parecido com um personagem criado pela DC Comics em 1980, um sujeito chamado Slade Wilson – codinome Exterminador (Deathstroke) – que era justamente um mercenário e aparecia como vilão em especial nas HQs dos Novos Titãs.

Liefield confessou que tinha sido “inspirado” pelo vilão da DC e Nicieza aparentemente resolveu brincar com o fato, já que na “identidade civil” de Deadpool usou um nome descaradamente parecido ao de Slade Wilson: Wade Wilson.

Desde o início, o personagem já era extremamente violento (o que o deixava de fora da linha principal de revistas dos X-Men), insano e uma verdadeira metralhadora verbal. Por essa última razão, era apelidado nas HQs de “merc with a mouth”, algo como “mercenário com uma boca”, que na versão brasileira virou “mercenário tagarela.”

Só seis anos depois da criação e de uma maneira inusitada (saiba mais no item curiosidade, mais abaixo) é que Deadpool ganhou o que se tornou uma das principais marcas do personagem: a quebra da quarta parede. Na prática, isso significa que Wade tem conhecimento que está dentro de uma HQ (ou, futuramente, de filmes) e constantemente conversa com o público, fazendo inclusive piadas sobre elementos da história.

Dentro da HQ, posteriormente, os roteiristas criaram até mesmo uma justificativa para essas conversas ocorrerem: como o cérebro do personagem é constantemente regenerado das metástases, dos tiros, cortes etc, a cada nova cura ele tem noções alteradas da realidade. Então esse falar com o leitor ou  espectador seria uma espécie de delírio (ou uma percepção realista) que só ele tem.

Sucesso absoluto dos quadrinhos, Deadpool começou a aparecer em HQs contracenando com outros personagens mais iconográficos da Marvel, como Homem-Aranha e Hulk (em especial a versão vermelha do gigante). Também virou brinquedos e memorabílias diversas, participou de desenhos animados da Marvel e videogames.

A grande virada, porém, veio em 2016, com o primeiro filme protagonizado por ele. Seguindo a linha das HQs – violência extrema, humor nonsense e quebra da quarta parede – o longa quebrou recordes e eternizou o ator Ryan Reynolds na pele de Deadpool (bem como a brasileira Morena Bacarin como Vanessa).

Outros dois filmes – todos eles indicados a um público maduro – vieram em 2018 e 2024. Este último, Deadpool & Wolverine, trouxe o ator Hugh Jackman de volta ao papel do mutante canadense e foi um sucesso mundial estrondoso. A bilheteria total nos cinemas de todo o planeta atingiu 1,3 bilhão de dólares.

Com tudo isso, o anti-herói se tornou oficialmente um dos carros-chefes da Marvel. Tanto que, quando em 2025 a editora resolveu fazer um novo crossover entre os personagens dela e os da DC Comics, algo que não ocorria há 20 anos, optou por destacar no título das duas edições de encontros de personagens justamente o dele.

Apesar de trazerem diversos heróis e vilões das duas publicadoras, os dois gibis – que tiveram os nomes mantidos no Brasil – se chamam Deadpool/Batman e Batman/Deadpool, e cada um tem como história principal  um encontro entre o mercenário tagarela e o não tão falante Homem-Morcego.

Enredo

Os fatos da origem de Deadpool dentro da história não foram apresentados cronologicamente, mas sim ao longo do tempo, em diversas HQs que foram explorando o passado dele. Originalmente, o personagem surge como um sujeito chamado Jack, que após servir o exército estadunidense vira matador de aluguel.

Um dia uma missão dá errado, Jack é baleado e acaba sendo ajudado por um casal chamado Wade e Mercedes Wilson.  As coisas dão muito errado na casa deles, Mercedez morre acidentalmente e Jack simplesmente enlouquece, assumindo então o nome de Wade Wilson.

Inicialmente, ele se torna o executor de um chefão do crime e se apaixona por uma garota de programa chamada Vanessa Carlysle- nos quadrinhos, a moça é uma mutante que muda de forma e assume o nome Mímica (Copycat).

A vida de “Wade” muda quando ele descobre estar com um câncer terminal e vai parar no programa secreto Arma X (aquele que desenvolveu o Wolverine) e recebe genes com fator de cura. Ele aparentemente sara do câncer, mas fica cheio de feridas e deformidades na pele, em todo o corpo.

Por ser muito instável mentalmente, Wade é transferido para um programa mais obscuro, chamado “Oficina”, que é destinado a supersoldados rejeitados por serem “defeituosos”. Quem comanda a tal Oficina é um cientista identificado como Dr. Killerbrew que, ao lado do assistente superpoderoso Ajax, tortura a todos.

Torturados ao extremo todos os dias, os rejeitados fazem uma quadro com apostas sobre quem vai morrer primeiro – em inglês, uma “deadpool.” E efetivamente Wade Wilson se torna o primeiro deles: ele tem o coração arrancado por Ajax.

Mas o órgão cresce de novo. A partir daí ele assume o nome Deadpool e passa a vestir a roupa que todos conhecem.

Inicialmente Deadpool presta serviços para vilões como o Cabeça de Martelo, depois para o Rei do Crime e, eventualmente, é contratado por um viajante do tempo pra matar o mutante Cable, momento em que ele é introduzido no universo dos Novos Mutantes, no grupo X-Force.

Posteriormente, Deadpool voltaria a atuar como mercenário e segue no ramo na maioria das HQs. Ainda que tenha um senso de justiça peculiar, se recusando a matar algumas pessoas por razões diversas (e matando outras tantas “sem querer” pelo caminho), Deadpool não é nem jamais será um super-herói – como aliás, ele pontua já no início do primeiro filme que estrelou no cinema.

As HQs do mercenário – e ele próprio – são politicamente incorretas, insanas, prezam a estética da violência exacerbada e o humor absurdo.

Principais personagens

Além de Deadpool, da namorada Vanessa e inúmeros mutantes, heróis e vilões do universo Marvel, aparecem constantemente nas HQs de Deadpool outros mercenários, aliados ou inimigos, além de pessoas que auxiliam Wade nas tarefas do dia a dia. Entre eles estão o amigo mercenário CF, o faz-tudo e gênio tecnológico Weasel, a companheira de quarto (e ex-sequestrada por ele) Blind Al.

Também vale destacar os Deadpool Corps. Explorando a linha de universos paralelos, há inúmeros Deadpools diferentes que surgem em determinadas HQs, e eles chegaram a ser unidos nos gibis Deadpool Corps (algo como as “Tropas Deadpool”), além de mostrados no filme Deadpool & Wolverine.

Entre eles se destacam  Lady Deadpool (versão feminina do personagem); Kidpool (versão criança), Headpool (uma cabeça zumbi de Deadpool); Deadwade (uma versão depressiva, confusa e que não se regenera totalmente); e Dogpool (o adorado e feioso cãozinho que fez sucesso nos cinemas).

Em 2013, Deadpool ganhou uma filha, Eleanor “Ellie” Camacho, fruto do romance dele com a falecida personagem Carmelita Camacho – quando encerrou o relacionamento com a moça, o mercenário não sabia que ela estava grávida e só tempos depois veio a descobrir a existência de Ellie.

Extremamente inteligente e tendo herdado do pai o fator de cura, Ellie chegou a ser treinada pelo personagem Treinador (Taskmaster) e a assumir o manto de Deadpool em 2024 em decorrência da morte do anti-herói (em HQ prevista para sair no Brasil em 2025). Contudo, Wade não costuma ficar morto por muito tempo…

Na década de 2020 também surgiram outros personagens que mudaram a vida de Deadpool. Criada em 2022, Valentine Vuong é uma mutante não binária (à qual Deadpool se refere em linguagem neutra tanto em inglês quanto em português e outras línguas) que viveu um caso de amor com o mercenário, mas acabou terminando o complicado romance com ele.

No mesmo período surgiu “Princesa” , também filha de Deadpool, mas de uma maneira bem menos convencional.   A vilã Harrower (Harriet Bromes) e o Dr. Octopus sequestraram Deadpool para usarem o mercenário como “incubadora” de amostras do simbionte Carnificina. Uma destas amostras/clones assumiu a forma de uma hiena vermelha gigante e “adotou” Deadpool como legítimo pai.

Wade, achando que a “filha” era uma cadela e não uma hiena, a nomeou de “Princesa”, um nome/tratamento comum a cães do sexo feminino nos Estados Unidos.  Extremamente fiel e apaixonada pelo “papai”, ela se tornou parceira e arma quase infalível do mercenário nas missões mais sanguinolentas.

 

Curiosidade: criador de Ben10 revolucionou Deadpool

Uma das principais marcas de Deadpool é romper a quarta parede, algo que o personagem não fazia até 1997. Quem “inventou” essa característica nas HQs do mercenário foi o roteirista Joe Kelly, bastante conhecido por ser o um dos criadores do desenho animado Ben10, desenho animado de sucesso surgido em 2005 e exibido originalmente na Cartoon Network.

Na época, Kelly fazia os roteiros para Deadpool em um gibi que estava previsto para sair de circulação em seis edições. Sabendo que o fim estava próximo e sem nada a perder, ele introduziu nas HQs a quebra da quarta parede, ou seja, a ideia de Deadpool conversar diretamente com o leitor. O sucesso foi imediato, revitalizou o personagem e se tornou uma característica padrão dele, que viria a ser utilizada em outras mídias do mercenário, como os filmes.

 

 

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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