Brigitte Bardot está no gibi!

Ela já apareceu nos quadrinhos de Thor, o Deus do Trovão, e disputou Jimmy Olsen (o amigo do Superman) a tapa com outro ícone do cinema Europeu, Gina Lollobrigida. Causou discórdia entre Patsy Walker e o namorado Buzz em um famoso gibi dos anos de 1960 escrito por Stan Lee. Se vestiu de super-heroína e “cantou” onomatopeias na música Comic Strip, de Serge Gainsbourg. E teve cenas da juventude eternizadas em aquarela pelo quadrinista erótico Milo Manara. Brigite Bardot, estrela mundial do cinema que faleceu neste domingo (28) aos 91 anos, definitivamente está no gibi.

A relação dos quadrinhos com os famosos do mundo real é bem antiga. Qualquer ícone do mundo pop que se preze acaba estrelando as próprias HQs ou minimamente aparecendo em histórias alheias, seja na forma de personagens secundários, fazendo pontas (os famosos cameos, como dizem os estadunidenses) ou até mesmo por meio de citações. Exemplos não faltam, independentemente de escalão: de Beatles a Rita Lee, David Bowie a Odair José, Jay Leno a José Luiz Datena (que em 2017” emprestou” as feições para o repórter Todd numa HQ do Capitão Átomo), de Lula a Bolsonaro.

Não é de se surpreender, portanto, que a atriz e sex simbol Brigitte Bardot tenha diversas relações com a nona arte. Entre as primeiras aparições da francesa nas HQs está uma aventura de Jimmy Olsen, o amigo do Superman, que na época tinha gibi próprio pela DC Comics (Superman´s Pal Jimmy Olsen). Na edição 56 da publicação, em 1961. Bardot aparece na aventura Jimmy Olsen´s Sweethearts.

Tudo começa com Jimmy levando um fora da namorada Lucy Lane, por quem era apaixonado e que vivida encerrando os namoros com ele quando aparecia um pretendente mais interessante (em especial se fosse mais rico). Revoltado, Olsen diz que ela irá se arrepender, pois inúmeras outras mulheres apreciam as qualidades dele.

Na sequência, o ruivo aparece na mesma festa em que Lucy está com o novo namorado acompanhado de Marilyn Monroe. Outras famosas da época surgem e comecem dar em cima dele entre as quais a italiana Gina Lollobrigida e a própria Brigitte Bardott.

As duas resolvem sair na mão para decidir quem ficará com o moço e, enquanto elas se pegam, a bela Jane Mansfield tasca um beijo na boca de Jimmy declarando-se por ele. Isso é o suficiente para fazer com que Lucy valorize o rapaz e peça para voltar com ele.

Contudo, antes que o final feliz ocorra, as moças se precipitam em perguntar a Jimmy se o plano deu certo. Na verdade, elas eram atrizes sósias das famosas estrelas que ele tinha contratado para enciumar Lucy. E claro que, assim que ela descobre, tudo vai por água abaixo.

BB na Marvel

Brigitte Bardot voltaria a aparecer logo mais em participações especiais nos quadrinhos de Patsy Walker. Surgida em 1944 nas páginas da revista Miss America Magazine #2, da Timely Comics, a personagem se consolidou posteriormente na Marvel pelas mãos de ninguém menos que Stan Lee.

O genial roteirista transformou a moça ruiva em protagonista de aventuras adolescentes, ao estilo do clássico Archie. Ao lado de personagens fixos como o namorado Robert Buzz Baxter e da amiga-meio-rival Hedy Wolge,  Patsy Walker foi publicada “nesta encarnação” de 1952 a 1967 e chegou a ser estrela de sete diferentes gibis – que juntos chegaram a ultrapassar a marca de 5 milhões de exemplares vendidos.

As citações à Brigitte Bardot são de 1962/1963. Em Patsy and Hedy #86, por exemplo, a protagonista tenta fazer um penteado igual ao da atriz. Além disso, há uma página de “celebridades” para que o leitor identifique, na qual a francesa aparece entre outras famosas da época, como a atriz Liz Taylor e a primeira-dama e socialite Jackie Kennedy. Por sinal, BB é a número 5 na página, reproduzida abaixo.

Já em Patsy Walker #86, a protagonista vai ao cinema como namorado em um casal de amigos assistir à Vida Privada (1962) e Buzz fica vidrado em Brigitte Bardot. Revoltada, Patsy abandona a sessão no meio e vai para casa, onde decide mudar o cabelo e as roupas para se parecer com a atriz.

Ao sair na rua, ela é abordada por inúmeros rapazes que (para usar uma expressão da época) “ficam caidinhos por ela.” Buzz, porém, acha que ela está com cabelo desarrumado e roupas estranhas e ainda aponta um poster de Bardot na qual ela usa a mesma roupa e penteado para dizer à namorada que aquilo, sim, é um exemplo de mulher elegante.

A história termina com Buzz levando uns merecidos cascudos. Antes de seguir, um parêntese: Patsy Walker seria repaginada em 1976 como uma super-heroína nas HQs da Marvel: Hellcat (Felina).

Falando em heróis da Marvel, BB participaria da HQ de um deles em 1965, fazendo uma ponta. Na revista Journey Into Mystery #120, na HQ With my hammer in hand…!, a atriz faz uma ponta: ela aparece na rua dando uma entrevista a uma emissora de TV e acaba dando uma ideia ao Deus do Trovão – que observa a cena de cima de um prédio – para encontrar a desaparecida Jane Foster.

Esta aventura já foi publicada diversas vezes no Brasil. As mais recentes foram em no número 37 da Coleção Clássica Marvel da editora Panini, em 2022, e na edição Thor, contos de Asgard, na coleção de Graphic Novels da editora Salvat.

Cantando onomatopéias

Em 1967, a própria Brigitte Bardot daria uma de heroína. No clip musical de Comic Strip, canção composta por Serge Gainsbourg, ela aparece devidamente vestida de roupa colante e capa, e durante a música “canta” onomatopeias típicas de Histórias em Quadrinhos – francesas, claro – enquanto Gainsbourg entoa as frases.  Entre outras, BB dá voz a “wip, clip, crap, bang, vlop, zio, sheebam, splach e chtuck.”

 

No traço de Manara

Bem longe da década de 1960, Brigitte Bardot se envolveu em outra empreitada relacionada ao mundo das HQs, mais especificamente com um quadrinista: Milo Manara, mestre dos quadrinhos eróticos – como Clic! – conhecido pelas mulheres sensuais que desenha, até mesmo quando convidado para ilustrar gibis dos X-Men.

Em uma parceria com a atriz, Manara levou dois anos para produzir 25 aquarelas representando BB quando era jovem. Além dos desenhos da musa em si, todas incluíram ilustração de uma margarida de sete pétalas – símbolo usada por ela ara declarar amor –  e foram assinadas pela atriz.

As telas foram comercializadas em 2015, num leilão simultâneo realizado em Bruxelas e Paris  pela casa de leilões parisiense Millon,  por um total de 592.702 euros (na época o correspondente a 666.748 dólares). O quadro que atingiu maior valor individualmente (34,1 mil euros) foi o que representa a atriz francesa nua de perfil, sentada, com os joelhos encostados no rosto.

Em uma entrevista à AFP, Manara disse que a maior dificuldade que teve nos quadros foi reproduzir o rosto de BB . “É muito difícil, porque tem expressões muito sutis, entre ironia, mistério, sedução e provocação.” Parte dos lucros obtidos com a venda foi revertida para a causa animal, bandeira pessoal de Brigitte Bardot desde os anos de 1970.

Por fim, ainda na linha do erotismo há uma referência em quadrinhos bem mais obscura. Dizem que existe uma revista erótica brasileira, com 32 páginas e em preto e branco, chamada Super-homem vs Brigite Bardot, na qual o Homem-de-aço viveria uma aventura sexual com BB.

Não há nenhuma imagem pública desta história, nem pista de quem seria o autor ou mesmo o ano de lançamento. Contudo, o site Guia dos Quadrinhos, conhecido pela seriedade e rigor em pesquisa, em 2001 inseriu em seu banco de dados uma ficha técnica e a imagem da suposta capa da publicação, da qual consta apenas o nome da HQ.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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