Aú, o capoeirista: um herói brasileiro, baiano, internacional

Pantera Negra, Tempestade, Raio Negro, Coração de Ferro, o Lanterna Verde John Stewart, Ícone, o Homem-Aranha Miles Morales, Misty Knight, Super-Choque… o número de heróis negros nos quadrinhos poderia ser muito maior, mas felizmente a representatividade vem crescendo de maneira contínua nos quadrinhos nos últimos tempos. Mas e herói negro brasileiro, tem?

Tem, sim, e pelo menos um deles é um sujeito retado, bom de briga e que está sempre à disposição de quem precisa de ajuda nas ruas de… Salvador, meu rei! Aú, o capoeirista, é o nome da fera criada pelo cartunista Flávio Luiz.

A origem do personagem remonta a 1992, quando a escola Aliança Francesa promoveu na capital baiana o festival de HQs   Bandes Dessinée – quadrinhos franco-belgas, com trabalhos de grandes nomes do quadrinho europeu e convidando brasileiros, entre os quais Flávio Luiz, para participar.  

“Eu sempre tive uma admiração pelo quadrinho europeu , como Tintin e Asterix,  e senti falta de um personagem com a estética dos quadrinhos europeus e uma brasilidade, trabalhando uma cultura rica como a nossa. Aí surgiu o Aú, misturando Europa, França, Bahia e a capoeira, que é universal”, conta.

Apesar de Flávio garantir que tem pelo menos cinco livros do personagem na cabeça, por enquanto saíram dois (bons) volumes, ambos com histórias completas (que dá pra achar pra comprar na Internet), formato grande e capa dura.

O primeiro, Aú , o capoeirista, foi lançado em 2008 pela Papel A2 Arte e Texto, com apoio da Lei de Incentivo a Cultura, e chegou a ser adotado como obra paradidática em várias escolas do Estado de São Paulo, com apoio da Secretaria Estadual de Cultura.

Até porque, além da aventura em si, a história mostra Salvador (com belas reproduções arquitetônicas da cidade), fala da origem da capoeira e da cultura baiana. Não à toa ganhou o Prêmio Berimbau de Ouro, destinado a pessoas e trabalhos que incentivam a divulgação da capoeira.  

Já o número 2, Aú, o capoeirista e o Fantasma do Farol, foi lançado em 2014. Com uma pegada um pouco mais na linha de mistério – chegou a ser comparado com uma aventura a La Scooby Doo – ganhou o prêmio HQMix de 2015 como melhor publicação infanto juvenil.

“Para mim é muito gratificante, em especial porque muitas crianças e adolescentes se identificaram. É muito bacana você ver numa roda de brincadeira um garoto dizer que quer ser ser o Aú em vez de Batmans e Supermans”, diz o autor, relatando uma das histórias que mostra o impacto do personagem sobre o público leitor.

Também não faltam relatos de crianças que quiseram aprender capoeira depois de ler as HQs e até mesmo a história de um pai mestre de capoeira, radicado na Alemanha, que usou a história para ensinar o filho germânico a falar português.

Mas afinal, quem é o Aú?

Aú é um movimento de capoeira e o protagonista da história ganhou o apelido da mãe porque quando era bebê imitava o movimento. Agora adolescente, Aú é um exímio capoeirista e mora na região do pelourinho, onde joga com os colegas sob a tutela de Mestre Venâncio.

Sempre acompanhado do inteligente miquinho Licuri, ele gosta de ajudar as pessoas da região, inclusive os turistas que vão conhecer Salvador, e acaba se envolvendo em aventuras para defender os amigos.

O quadrinho tem, sim, a tal pegada europeia, explorando bem os (belamente desenhados) cenários da cidade, com desenhos caprichados e um ritmo rápido, num desenrolar que lembra mesmo Tin Tin, com o herói desvendando o que está ocorrendo e seguindo em frente, novos desafios surgindo até o final. Feliz, claro.

No primeiro álbum, a história se desenrola quando um candidato a mafioso tenta desalojar uma família que mora em um sobrado histórico para fazer um hotel/central do crime local. Detido pela teimosia da proprietária e pelo apoio dos capoeiristas, ele segue para outro tipo de persuasão.

Porém, os capangas dele (que tem o sugestivo nome Armando Confusioni) acabam sendo flagrados por uma jovem turista e a sequestram. Cabe a Auê – com a ajuda do amigo Dó, do mico e muitos golpes de capoeira – ajudar a mocinha e salvar o dia.

Vale destacar que o herói não usa nenhum tipo de uniforme ou apetrecho (excetuando-se um barquinho e uma caixa de isopor) e que o bandido acaba nas mãos da polícia, que surge na hora certa – após uma bela perseguição que inclui jet-skis e um iate.

Se engana quem acha que a ausência de superpoderes faz falta a  Aú: inteligência, persistência e habilidade como lutador são o suficiente para que ele dê conta do recado. Herói é isso aí.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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