Asadora! Um mangá que mistura drama, história do Japão, uma piloto heroína e monstros gigantes

Misturar fatos históricos reais com fantasia em uma HQ sempre gera resultados interessantes. Nos quadrinhos de The Sandman, por exemplo, Neil Gaiman associou brilhantemente a epidemia mundial de doença do sono ocorrida a partir de meados de 1916 com o sequestro de Morpheus, entidade responsável pelos sonhos dos seres humanos. O autor Naoki Urasawa, contudo, leva esse conceito para um outro nível em Asadora!, mangá que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Panini.

A história acompanha a vida da piloto de avião Asa Asada desde a infância, a partir de 1959, até o ano de 2020. Na narrativa, Naoki Urasawa se utiliza de fatos reais e históricos que ocorreram no Japão misturados à vida cotidiana de Asa (cujo nome em japonês significa “manhã” e gera gozações diversas) e dos amigos dela, e ainda… Kaiju!

Isso mesmo, em meio a dramas do dia a dia e fatos reais, Urusawa faz surgir os famosos, adorados e estranhos monstros gigantes que infestam a cultura popular nipônica – e que há muito tempo já viraram até nome de subgênero de ficção científica e filmes, em especial graças a Godzilla e da monstruosas mariposa Mothra.

O quadrinho se inicia em 2020, justamente quando desses enormes monstros invade Tóquio destruindo tudo o que encontra pela frente. A história então é pausada e retorna a 1959, quando a menina Asa, de 12 anos de idade, corre pelas ruas de Nagoya em busca de um médico que ajude a mãe a dar a luz ao décimo-primeiro irmão dela.

Após receber a negativa de um médico e encontrar na rua um colega de escola – Shota – que está se preparando para disputar as Olimpíadas de Tóquio em 1964, a menina acaba sendo raptada por um veterano da segunda guerra mundial enlouquecido, chamado Kasuga.

Como desgraça (e referências históricas) pouca é bobagem, em meio a toda essa confissão Nagoya é atingida pelo Tufão Vera – o que ocorreu na vida real em setembro de 1959, causando pelo menos cinco mil mortes e uma destruição enorme, com danos estimados em US$ 600 milhões. Pra sobreviver, Asa se une temporariamente ao sequestrador e, passado o susto, ela acaba descobrindo o próprio destino ao aprender a pilotar um aviãozinho monomotor piper cub, que utiliza para procurar a família e jogar pacotes de mantimentos do alto. Durante o voo, porém, ela vê algo monstruoso saindo do oceano e depois se depara com uma pegada gigantesca.

Na edição seguinte (e este é um padrão que é seguido nos demais oito volumes da obra) há um salto temporal, para 1964. Asa agora tem 17 anos e trabalha como piloto de aluguel, além de fazer shows para tentar sustentar os irmãos.  A cidade vive a empolgação das Olimpíadas – outro fato histórico verdadeiro: os jogos de 64 foram os primeiros serem realizados na Ásia, marcando a ascensão do Japão como nação moderna após a Segunda Guerra Mundial.

Além da própria Asa, os leitores acompanham ainda as vidas dos irmãos dela e de Kasuga, bem como tramas secundárias com os amigos de escola, em especial a baixinha de cabelo curto Miyako, que é salva em um assalto por uma atleta de luta livre e decide seguir carreira no esporte, e a magrinha atrapalhada Yoneko, que sonha em ser Marilyn Monroe. As histórias paralelas são envolventes e às vezes dá para esquecer que se trata de um mangá de Kaiju, mas não se preocupe: o autor traz os monstros de volta a história de maneira avassaladora.

Seguindo esta mesma fórmula até o final, ao mesmo tempo em que acompanha o crescimento (físico e emocional) da protagonista, Asadora! se mostra um mangá cativante, bem roteirizado e com arte de primeira. E que traz uma história única de heroísmo, de sensibilidade e de monstros, contada magistralmente por Naoki Urasawa.

O primeiro volume já pode ser encontrado em bancas e livrarias por R$ 49,90 (202 páginas) ou no site da Panini, onde já é possível comprar o segundo volume em pré-venda. O primeiro volume vem com um marcador de páginas e um adesivo de brinde.

Em tempo: ainda que “Asa” literalmente signifique manhã, o título “Asadora” é uma corruptela de “drama da manhã”. Ele   faz referência a uma espécie de telenovela matinal bastante popular no Japão – que tem esse nome e é levada ao ar pela rede de TV NHK desde 1961.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

Comentar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade.