Criados pelo cartunista americano Gilbert Sheldon, um dos reis do estilo underground estadunidense ao lado de Crumb, os “irmãos aberração” fizeram sua estreia em 1967, no jornal LA Free Press – já de cara usando muitas drogas – e desde sempre foram os mais perfeitos estereótipos da era paz e amor vivida nos EUA.
Sheldon fundou a Rip Off Comix junto com outros colegas quadrinistas e seus Freaks conquistaram a América. O autor esteve no Brasil em 1997, comemorando os 30 anos dos personagens, mas por aqui poucos nãofissurados por quadrinhos os conhecem.
Isso porque, infelizmente, o conservadorismo (e, em algumas épocas, a censura) nunca permitiu muita coisa deles por aqui. Uma das únicas HQs lançada em revista saiu em 1972, na revista Grillo. A editora LP&M Editores S&A, no entanto, lançou no mercado brasileiro na década de 80 – e relançou em 1997 – dois volumes de tiras do trio.
Com seus Freak Brothers, Sheldon faz uma crítica mordaz ao modo de vida americano dos anos de 1960 e 70 (e a resquícios que permanecem até hoje), indo da cultura hippie “chapada” ao medo ao comunismo na terra do Tio Sam, passando por revoltas universitárias, repressão burra, sociedade aculturada e políticos corruptos.
Mais do que uma boa HQ, os Freak Brothers são acima de tudo uma HQ contra a hipocrisia. Tudo isso com muito humor e lições que irão agradar o leitor e levá-lo às gargalhadas, independentemente de seu posicionamento pessoal em relação às drogas.
O autor acabou encerrando a produção de novos quadrinhos em 1997, logo após ter comemorado os 30 anos dos Freak, mas os personagens chegaram a ganhar uma animação voltada para o público adulto em 2020.

Com duas temporadas, a série As Fabulosas Aventuras dos Freak Brothers (disponível na Globoplay) conta que o trio (e o gato do Fat Freddy) teria dormido por praticamente seis décadas após fumar um “cigarro mágico” no final dos anos de1960 e desperta justamente no ano de 2020, em um mundo absolutamente estranho para eles.
Enredo
Três caras muito loucos moram em apartamentos nojentos – e eventualmente se mudam para o campo ou vão para o México quando não têm grana para pagar aluguel – e passam o dia inteiro fumando maconha. Fat Freddy é o rei da “larica” e come de tudo que passa pela frente. O segundo, Phineas, quando fuma fica mais criativo que qualquer pessoa na face da terra. Já o terceiro, Freewhellin Franklin, fica “radicalmente contra o sistema hipócrita da sociedade em que vivemos.”
As HQs dos três giram em torno do mundo dos viciados em maconha e cocaína. Os irmãos vivem em situações engraçadíssimas – com muito sexo, drogas e um pouco de rock´ n’roll – e se metem em confusões gigantescas graças ao mundo alucinógeno que enxergam por meio das lentes dos seus óculos. Geralmente escuros. O objetivo único de vida dos irmãos é se chapar e, de preferência, conseguir algumas gatinhas para dividir a solidão e a cama (se possível, mais que uma para cada).
Personagens

Fat Freddy é um gordão que vive comendo tudo o que encontra pela frente e, casualmente, vendendo tudo o que encontra pela frente para comprar mais drogas, chapar, ficar com fome e começar tudo de novo.
Phineas, um bicho grilo típico, é o irmão mais tímido – apesar de inventivo – e o que geralmente acaba tendo que executar as ordens dos demais (entenda-se: entrar em frias).
Sempre com um chapelão enfiado na cabeça, o revoltado Freewheelin é o cérebro do grupo e vive inventando maneiras de enriquecer, de preferência às custas do sistema. Algo como, por exemplo, fazer filmes contra drogas – usando droga de verdade, claro – para Associações de Pais e Mestres (“e eles ainda nos pagam para fazer isso”).
Além dos três personagens principais, fazem parte do elenco fixo o Gato do Fat Freddy (esse é o nome do felino), que rouba a cena várias vezes, sempre em historinhas marginais às aventuras dos três cabeludos que usam calça boca de sino.
Há ainda Norberto Notório, o investigador que tenta – quase sempre em vão – levar os Freaks para a cadeia. Também é praticamente um personagem fixo a perua kombi comunitária que os Freaks usam para quase tudo (claro que, eventualmente, eles acabam vendendo para comprar mais marijuana…) Ainda aparecem eventualmente parentes dos três “heróis” que, é bom frisar, não são realmente irmãos de sangue, mas de ideologia.
Curiosidade: Porco tarado
Por buscar sempre os ambientes e publicações undergrounds, o texano Gilbert Sheldon não sofreu muito com a censura estadunidense, mas despertou a ira de Joe Shuster, um dos criadores do Super-Homem, graças a Wonder Wart-Hog, o suíno de aço. Lançado em 1961, antes dos Freak, o personagem abriu caminho para uma longa série de anti-heróis e gozações de heróis de quadrinhos no mundo das HQs underground. Trata-se de um tímido repórter que se transforma em um porco machista, reacionário e repressor, dono de um pênis minúsculo e de um apetite sexual neurótico e nunca satisfeito.





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