Histórias biográficas – sejam elas em livro, vídeo ou quadrinhos – normalmente permitem um vislumbre da vida do protagonista, recortes que revelam (em doses menores ou maiores) a história daquela pessoa. Domingos, HQ autoral de Sidney Gusman, porém, vai muito além disso: é um mergulho na alma do autor.
Para quem não sabe, Gusman é um nome intimamente ligado à nona arte. Foi um dos primeiros jornalistas especializados em HQs do país, com textos publicados em jornais como Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde. Posteriormente, abraçou a carreira de editor da área e trabalhou na Conrad Editora de 2001 a 2003 (onde editou The Sandman, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e One Piece, entre outros) e, de 2003 a 2006, foi o responsável pela revista Wizard (pela Panini) e livros como 100 respostas sobre Hanna-Barbera.
Em 2006, escreveu Mauricio, Quadrinho a Quadrinho, livro que conta a história da paixão do pai da Mônica por gibis, e naquele mesmo ano começou a trabalhar na MSP Estúdios, onde permanece desde então e é responsável por grandes sucessos editoriais da casa. Entre eles se destacam o projeto Graphic MSP (que já chega a quase 50 títulos distintos) e o MSP90, lançados em conjunto com a Panini. Além disso Gusman também foi o editor de Horácio Completo, que reúne em quatro volumes as tiras do dinossaurinho desenhadas por Maurício de 1963 a 1992, pela Pipoca & Nanquim, mesma editora de Domingos.

Contudo, até então “Sidão” – que também é um dos pilares do podcast Confins do Universo e foi editor-chefe do UniversoHQ (portal da Internet que durante 25 anos publicou notícias diárias do universo da cultura pop )– sempre havia editado trabalhos alheios, sem nunca ter uma HQ de autoria própria. A estreia não poderia ter sido melhor.
Com 204 páginas, a Graphic Novel Domingos é declaradamente uma homenagem ao pai de Gusman, que por sinal nasceu e faleceu em um domingo. Já Sidney, o filho, nasceu em uma segunda-feira, mas (fato que a maioria absoluta dos leitores desconhecia até o lançamento da obra) carrega o mesmo nome do progenitor. A assinatura artística, ou jornalística, encurta o nome completo: Sidney Domingos Gusman.

A ideia de imortalizar lembranças com o pai surgiu durante um congestionamento no “Minhocão”, na capital paulista, em uma semana em que o autor já havia sonhado com ele duas vezes e repentinamente se viu “inundado” por memórias. O resultado demorou seis anos para vir a público e conta com os desenhos maravilhosos de Jefferson Costa (Jeremias-Pele e Superman -O Mundo, entre outros).
Em uma boa sacada, Gusman divide o livro em memórias de 18 domingos, cada um deles formando um capítulo independente. O autor só não está presente no primeiro, já que nele é retratado o nascimento de seu Domingos, mas é peça central de todos os demais ao lado do pai e familiares.
Neste sentido, Domingos consegue fazer uma combinação rara e perfeita ao apresentar momentos da vida que são particulares daquela família e ao mesmo tempo facilmente identificáveis com o de inúmeras outras. Almoços com todo mundo, a torcida conjunta pela Seleção Brasileira na TV e as tradicionais viagens à praia, por exemplo, estão lá.

Mas se cada um desses episódios tem potencial para trazer memórias afetivas coletivas, também neles se revelam momentos específicos da vida de Gusman e da relação dele com o pai. Momentos que o autor trata de maneira muito honesta.
Isso acontece em ocasiões pueris, como quando o adolescente Sidney tira sarro do progenitor ao achar que o enfrentará no jogo entre solteiros e casados, mas ao ficar na torcida se envergonha dele quando o pai se enrola com a bola – ao mesmo tempo em que se enraivece com outros torcedores que tiram sarro de Domingos pelo lance. E, momentos depois, explode de orgulho quando o pai se torna o herói do jogo, sem deixar de espezinhar quem momentos antes falava mal dele.

Mas também em ocasiões mais pesadas, como a que Domingos comunica a Gusman que vai ter que retirá-lo do colégio porque em virtude de problemas econômicos só conseguirá manter os estudos dos irmãos menores. Ou a vez em que Sidão explode com a mãe quando ela exagera nos comentários sobre como ele deveria cuidar do próprio filho.

Também há capítulos que mostram mais da relação do autor (e do pai) com as Histórias em Quadrinhos, incluindo o primeiro contato de Gusman com um gibi e o confronto que as HQs acabam gerando entre ele e o pai. Há um determinado momento em que a paixão do garoto faz com que Domingos se se enraiveça e, com rispidez e palavras pesadas, diga ao filho que aquilo não o levará a lugar nenhum.

Posteriormente, já mais velho e em um outro capítulo da história, Domingos recapitularia, dizendo ao filho o quanto se orgulhava do trabalho dele. E ainda em outra ocasião se emocionaria ao extremo no lançamento do livro de Gusman sobre Mauricio de Sousa – esta ocasião é mostrada não só nos quadrinhos como em uma das fotos que a obra traz e que mostram alguns dos momentos da HQ “de verdade.”


Cabe aqui um parêntese para elogiar a arte sensacional de Jefferson Costa. Além dos ótimos desenhos e domínio de cores e claro/escuro que traduzem o clima de cada momento, o requinte e atenção aos detalhes do desenhista são fora de série. Carros de época, cenários de São Paulo, pormenores da casa dos Gusman e até mesmo de objetos reais da família são retratados com uma perfeição obsessiva pelo artista e enriquecem por demais a Graphic Novel.

Domingos é uma daquelas HQs que precisam ser lidas, em especial porque fala sobre histórias, momentos e sentimentos verdadeiros e que refletem os daqueles de nós que têm ou tiveram a sorte de conviver com nossos pais e famílias. E porque, longe de ser piegas ou desnecessariamente emotiva, Domingos é muito mais do que uma Graphic Novel: é uma declaração de amor de um filho ao pai e à família.





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