Rê Bordosa

Ela nasceu literalmente de um porre. Em 1984, o cartunista paulistano Arnaldo Angeli Filho, então com 28 anos, trabalhava para o caderno Ilustrada –  do jornal Folha de São Paulo-  e, após uma noite de farra, estava sem inspiração para fazer a tirinha diária que tinha no jornal.

“Eu havia passado uma noite de cão… eu enfiei o pé na jaca, caí dentro do balde, tudo.  Chegou pela manhã, eu tinha que fazer uma tira e não tinha jeito, não tinha como, não tinha condições físicas e mentais de nada. Então eu estava falando para minha mulher na época: ‘Pô, eu gostaria de fazer alguma coisa que representasse o que eu estou sentindo, que é a total inaptidão para as coisas’. Aí ela falou: ‘É, você tá de rebordosa’ (sinônimo de ressaca) e eu ‘Porra, Rê Bordosa parece nome de gente’. Ela falou ‘Por que você não faz uma pessoa de rebordosa?’ e eu: ‘Bom, eu posso fazer uma pessoa que tenha o nome Rê Bordosa, a gente separa Rê e Bordosa, como se fosse um sobrenome.’ E fiz um negócio porque eu tinha acabado de tomar um banho de banheira para me recuperar, então eu deitei na banheira e afundava, voltava…. e eu desenhei isso. Mas sem a intenção de desenhar a segunda tira, a terceira ou a quarta. Eu fiz a primeira tira só pra preencher o espaço mesmo e voltar a dormir”, conta Angeli.

A personagem, porém, acabou preenchendo mais espaço que Angeli imaginava e rapidamente se tornou uma heroína paulistana. Com seu cabelo colorido, vestidinho agarrado, óculos escuro e botinhas, além do jeito despachado característico da época, Rê Bordosa rapidamente se tornou um símbolo não apenas na Capital do Estado de São Paulo, mas também em todas as demais cidades em que o jornal chegava.

“As primeiras identificações ocorreram dentro da própria Folha, logo na primeira tira. As pessoas da direção da Folha vieram e me disseram: ‘Legal aquele personagem, eu conheço um cara assim, conheço uma menina assim…’ Aí eu falei: pô, colou sem querer, vou fazer a segunda tira, vou fazer a terceira… e pegou.”

Angeli fez Rê Bordosa à semelhança de mulheres que frequentavam os bares que ele ia e outras que eu via na cena musical. “Ela veio prontinha: vestidinho preto era a coisa mais tradicional dos anos 80, botinha…”. Apesar de ter sido criada e ter visual dos anos de 1980, o autor dizia que ela teria “começado a viver” uma década antes e desabrochado (“ou murchado, quem sabe”) nos 80.

Sexualmente liberal, constantemente bêbada (adorava vodka, mas bebia qualquer coisa) e vivendo uma vida desregrada, a personagem levava o apelido – dado pelo próprio autor – de “porralôca.” Curiosamente, virou heroína nacional e era idolatrada na época por pessoas de todas as idades, de ambos os sexos.

“Eu era parado na rua por velhinhas que diziam que adoravam a Rê Bordosa. Era assustador”, diz Angeli, que ao mesmo tempo se irritava com algumas pessoas que se projetavam em sua personagem. “Eu sempre quis fazer a Rê Bordosa, assim como o Bob Cuspe , como uma coisa tão áspera, mas tão áspera que não descesse pela goela das pessoas. Só que começou a descer. Então em lançamento de livro aparecia uma menininha com cara de quem nunca fez um felattio, um blowjob, e falava assim: ‘Eu sou a Rê Bordosa’. Eu pensava: não é.”

Em 1987, Angeli decidiu matar a personagem e iniciou nas tiras uma saga que batizou como A Morte da Porralôca. Quando a série terminou – e foi rapidamente lançada em revista – estouraram os protestos em todo o país.

Os leitores, em especial os mais jovens, não se conformavam com a morte da de Rê. Angeli recebeu cartas e telefonemas de protesto. Famosos das mais diversas áreas – o escritor Ignácio de Loyola Brandão, os cartunistas Jaguar e Ziraldo, a cantora Rita Lee e o apresentador Jô Soares, por exemplo – chegaram a protestar publicamente, alguns em tom de brincadeira e outros nem tanto.

Angeli, no entanto, se dizia aliviado. Nas entrevistas que deu na época e durante os anos que vieram, dizia ter matado Rê Bordosa porque tinha medo e não gostava da unanimidade que havia se formado em torno da personagem que, achava, nunca deveria ter sido uma heroína. Havia, porém, outros motivos mais profundos (leia mais abaixo, no item curiosidade).

Após a morte, o autor chegou a publicar, em 1995, 36 tiras inéditas de Rê Bordosa, porém sem ressuscitar a personagem. Essas “aventuras” teriam ocorrido antes da morte e estavam registrados em um diário da velha junkie (outro dos apelidos dela) que – na HQ –  o próprio Angeli teria achado esquecido em um arquivo em seu estúdio.

No mesmo ano, estreou nos teatros a peça Rê Bordosa, o Ocaso de uma Doida (escrita por Betty Erthal e Angeli). A porralôca chegou a ter também algumas HQs publicadas na Itália, onde ganhou outro nome, desta vez fazendo brincadeira com uma famosa dupla de animadores: Anna Barbera.

No Brasil, uma segunda peça de teatro foi roteirizada em 1997 pelo escritor Mário Prata (Rê Bordosa, Vida e Morte de uma Porralôca), mas não chegou a estrear. Ainda no final dos anos de 1990, uma versão da personagem apareceu na série A volta da morta-viva, publicada na UOL.

Nela, uma espécie de fantasma de Rê Bordosa saia de um computador para assombrar a vida de um garoto “nerd”.  A história teve cerca de 15 capítulos, mas Rê Bordosa permaneceu morta tanto na HQ quanto depois dela.

Rê teve ainda versão em animação no longa-metragem Wood & Stock: sexo, orégano e rock´n´roll (2006), no qual foi dublada por ninguém menos que a cantora Rita Lee. Ela também estreou o curta-metragem em stop-motion Dossiê Rê Bordosa (2008).

Em 2009, Angeli publicou ainda uma série de tiras livremente inspiradas em Rê Bordosa, chamada Vodka.  E em 2012 foi publicado pela Quadrinhos na Cia uma excelente coletânea, Toda Rê Bordosa, que traz 216 páginas contendo anos de  tiras, a morte e até extras que incluem rascunhos de Angeli.

Mais recentemente, em 30 de novembro de 2024, foi realizado na cidade de São Paulo um evento em comemoração aos 40 anos da personagem. O evento teve fundos revertidos para cuidar da saúde de Angeli, que foi diagnosticado com afasia em 2022.

Enredo

Rê Bordosa era uma garota típica do começo dos anos 80 da grande São Paulo, que vivia o fim do movimento punk e o começo do New Wave. Com idade entre 25 e 30 anos, altamente carente, desbocada, aficionada por bebidas alcoólicas (em especial vodka) e sexualmente liberal.

Nas tiras, ela geralmente aparecia em geral dentro de um bar ou em uma festa, onde bebia até não cair, flertava com qualquer pessoa – homens e mulheres – que chegasse um pouco mais perto de onde estava sentada, dava “baixarias” em geral.

Outro cenário comum era a banheira do aparamento dela, na maioria das vezes com um copo de vodca na mão ou lendo uma revista pornô masculina, tentando relembrar das aventuras da noite anterior, marcando um aborto por telefone ou ainda tentando descobrir quem era o homem (ou mulher) que também estava na banheira com ela.

Eventualmente o cenário mudava para a cama do apartamento, para um parapeito de um prédio e até para o divã de um analista, mas as situações vividas pela personagem sempre giravam em torno de uma vida louca e regada a álcool e sexo.

Personagens

Além da própria Rê Bordosa, não há outros personagens fixos, ainda que alguns sejam recorrentes, como o garçom  Juvenal, os pais dela (sem nome, chamados apenas de “mãe” e “pai”) e um psicanalista sem nome. Também há histórias com “participações especiais” de outros personagens de Angeli, como Bob Cuspe, Walter Ego, Bibelô, e Meia Oito e Nanico.

 

Curiosidade: Aids levou à morte da personagem

Não, Rê Bordosa não morreu por ter contraído o vírus da imunodeficiência adquirida. Porém as mortes e mudanças de comportamento causadas pela doença na sociedade no final dos anos de 1980 foram cruciais na decisão de Angeli de matá-la.

Para explicar, antes de mais nada cabe relembrar a HQ em que a porralôca  morreu. A história começa com Angeli desenhando a si mesmo na tira e dizendo para a personagem que estava cansado dela.

Logo a seguir, ele a tortura e faz um relatório resumido da perversão de Rê Bordosa. Finalmente, decide matá-la e para isso joga a porralôca de uma ponte no rio Tietê. Terminado o assassinato, Angeli segue a vida mais tranquilo…

“Sem que o autor saiba”, porém, Rê é salva por mendigos e inicia uma peregrinação para voltar à cidade e encontrar “uma vodca e uma banheirinha”. Primeiro, pega carona com um piromaníaco e acaba explodindo o carro após tomar gasolina e tentar acender um baseado para o motorista.

A seguir busca ajuda em um convento, onde escandaliza as freiras e leva tentação a alguns padres.

Logo depois foge em busca da vida mundana, entra em um “bar de blacks” de onde sai acompanhada por dois funkeiros para uma noite de sexo e drogas, que acaba sendo interrompida pela Polícia.

A heroína foge pela janela do apartamento e após um diálogo surreal em um fio de arame com dois anônimos (“um merda qualquer” e “um babaca gordo pra cacete”), cai no chão e acorda cercada por seres que se parecem com grandes girinos e se identificam como “o vírus da destruição”.

Fugindo do vírus, Rê Bordosa dá de cara com uma passeata da TFP (Tradição, Família e Propriedade) que também passa a persegui-la. Finalmente a personagem entra em um bar e resolve se casar com o garçom Juvenal para fugir de seus perseguidores.

A partir de então, Rê é influenciada pelo marido a largar a bebida, o cigarro e as drogas, engorda e, ao ouvir do marido um pedido para ter um filho, explode e morre.

Na dissertação A Morte do Herói (Dario de Barros Carvalho Jr, Unicamp, 2002), que conta com entrevista do próprio Angeli,  é mostrado que a Aids gerou um problema de narrativa para que a personagem continuasse existindo como era. Por refletir os valores cotidianos, ser uma caricatura de costumes, Rê Bordosa estava amarrada à época que vivia.

A identificação dos leitores com a personagem era baseada no fato de que Rê Bordosa, apesar de ser um personagem fictício, representava pessoas reais ou pelo menos valores e características de pessoas existentes. Mais ainda, seguindo um princípio básico da ficção, Rê Bordosa era uma pessoa possível de existir na São Paulo, no “mundo real” do início dos anos de 1980.

Se no início dos anos 80 a liberdade sexual era perfeitamente plausível no mundo real, o mesmo não ocorreu na segunda metade da década, pois neste último período o mundo começou a tomar conhecimento da maior doença sexual existente até então, a Aids.

Apesar de ter sido detectada pela primeira vez em 1981, somente em 1986 – quando já atingia mais de 50 países – a doença recebeu o status de problema mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu uma campanha global de conscientização contra a doença.

No Brasil, a Aids ganhou a atenção da sociedade entre 1986 e 1987. Somente neste período, com o impulso da campanha da OMS, foram iniciadas as grandes campanhas de propaganda governamental alertando contra a doença. Também nesta época começaram a ganhar destaque o caso de personalidades que se descobriam soropositivas e a imprensa iniciou uma cobertura massiva sobre a doença, suas consequências e causas – dando ênfase especial a uma delas: a vida sexual desregrada.

E foi então que o mundo real entrou em conflito com o mundo “parasitário” de Rê Bordosa. A Aids tornava impossível a existência de uma pessoa como a personagem na vida real. Consequentemente, Rê Bordosa estava com os dias contados.

Na época em que foi publicada a morte da personagem (curiosamente, no mesmo ano em que se descobria o AZT), ninguém relacionou os “vírus da destruição” – apesar de seu formato “girino/espermatozoide” – a uma doença sexualmente transmissível. Também não foi dada muita atenção ao fato de que, para fugir do vírus, Rê Bordosa teve de se casar e passar a ter uma vida sexual monogâmica. Relendo-se a HQ em retrospecto, porém, a analogia fica óbvia.

Confrontado com a hipótese, Angeli confirma que a Aids inviabilizou a existência da personagem e, em última instância, levou-o a matá-la. Segundo o autor, para ser uma personagem plausível em tempos de Aids, Rê Bordosa teria de mudar seus hábitos e isso seria algo impossível de se fazer.

“Ia ser um problema. Ela ia esquecer a camisinha e eu não poderia contrariar a postura do personagem. Eu não poderia trocar a roupa do personagem, fazer ela se casar e transformar em sucesso de novo, que nem (fizeram com) a Margarida, o Fantasma que casou… Acho que personagem é aquilo: ele não troca de roupa, o comportamento dele se aprimora”, diz Angeli, ressaltando que não o agradaria mudar a personagem em decorrência das mudanças do mundo real. Assim sendo, o único caminho possível se tornou a morte.

No entanto, apesar da Aids e das mudanças sociais decorrentes da doença serem responsáveis pelo fim da heroína, o autor ressalta que não quis matá-la de Aids, porque condenava o discurso contra a liberação sexual.  “(…) reparei que na época tinham reportagens do tipo “primo casando com primo para ter segurança sexual” e eu achava que isso era um retrocesso. Para mim – que sou da geração 70, sexo livre, amor universal – achava um retrocesso a falta de amor, a falta de tesão…vão virar um bando de bundões. Em vez de ficar discutindo o sangue dos bancos de sangue, as pessoas estavam se fechando em casa. Então eu não queria matar ela de Aids, ou, se fosse matar, colocar um pouco essa opinião que eu tenho.”

Observação: as informações que compõem este texto, sobre a origem de Rê Bordosa e a razão da morte da personagem, foram dadas em entrevista pessoal de Angeli ao jornalista DJota Carvalho em entrevista em 26/09/2000 e fizeram parte da dissertação de mestrado defendida por Carvalho na Unicamp.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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