iZombie: série de TV come o cérebro dos quadrinhos e só fica com as melhores lembranças

Filmes e séries baseados em quadrinhos não são novidade, mas continuam sendo uma ciência inexata. Se por um lado ninguém questiona o resultado da série do Demolidor da Netflix, o mesmo não se pode dizer à adaptação do mesmo personagem para o cinema tendo Ben Affleck na pele do herói.

Porém, se há casos em que o resultado é horripilantemente irreconhecível – que o diga o detrito que os cinemas exibiram com o nome de Dragon Ball Evolution (alguém devia levar um kamehameha na cara por aquilo) – há outros em que ele supera o original. E iZombie, série televisiva que teve cinco temporadas levadas ao ar pela emissora CW, com certeza se encaixa na última categoria com louvor. 

Aliás,  antes de mais nada, fica o aviso: quem quiser assistir em streaming pela Globoplay tem até 31 de março de 2023 pra fazer isso. Depois desta data, como ocorreu na Netflix, a série sai do catálogo. E a opção, se nada mudar, ficará sendo apenas a HBO Max.

Nos quadrinhos, iZombie foi publicado de 2010 a 2012 pela editora Vertigo (no Brasil a editora Panini lançou quatro encadernados em 2015). Com argumento de Cris Roberson e desenhos do genial Mike Allred, a série se passa no estado do Oregon, principalmente na cidade de Eugene, onde habita a jovem zumbi Gwen Dylan.
Isso mesmo, Gwen foi transformada em uma zumbi (a série da TV tem versão própria de como isso ocorreu), mas mantém sua sanidade: de dia trabalha como coveira e, de noite, desenterra os corpos para comer os cérebros. Se não se alimentar com eles, ela perde a energia e a inteligência, tornando-se cada vez mais parecida com aqueles zumbis descerebrados típicos dos filmes de terror ou de games como Plants vs. Zombies
O único problema é que há um efeito colateral: quando come os cérebros, Gwen herda memórias e sentimentos dos mortos e acaba resolvendo negócios deixados interminados pelos defuntos. O problema é que, quanto mais se alimenta e absorve as memórias, menos Gwen lembra da própria vida.
Na HQ, Gwen não é nem de longe a única criatura, digamos, diferente. A melhor amiga dela é Ellie, uma fantasma, e o melhor amigo é Scott , um “Terriersomem”, ou seja, em vez de se transformar em uma criatura metade lobo, a metade aqui é um cãozinho terrier…
Há também vampiros e outras criaturas entre os humanos com quem Gwen convive. E nas histórias há espaço para problemas de relação entre pais e filhos, triângulos amorosos, investigações diversas e, claro, situações místicas diversas.
Agora esqueça (quase) tudo isso e vamos ao seriado. A personagem principal não se chama Gwen e sim Olivia Moore ou, num trocadilho inteligente, “Liv” Moore (o que soa como “viva mais” em inglês).

Jovem médica extremamente competente, Liv vive uma vida perfeita na cidade de Seattle, que se alterna entre o hospital onde atua de maneira genial, o noivo perfeito Major Lillywhite e a amiga promotora Peyton, com quem divide a casa.

Um dia, porém, a convite de uma colega, resolve ir a uma festa em um barco sozinha. “O que pode acontecer de pior?”, pergunta o noivo, em uma tentativa de convencê-la a curtir mais a vida.

Resposta: um ataque zumbi que transforma a balada aquática em uma carnificina total. Após ser arranhada por uma das criaturas, Liv cai na água e acorda no dia seguinte dentro de um saco de cadáveres. Rapidamente ela se dá conta de um desejo enorme por comer cérebros (se não o faz, começa a ficar cada vez mais estúpida e entra em “módulo zumbi”, no qual se torna extremamente forte e burra, simplesmente quer atacar qualquer um para comer).

Temendo ferir alguém, ela rompe o noivado e, para conseguir comer sem despertar atenção, vai trabalhar em um necrotério. E é aí que as coisas começam a tomar forma. O novo chefe de Liv, o legista Ravi Chakrabarti, é um nerd de carteirinha e logo descobre que ela é uma zumbi, mas em vez de se assustar chega à conclusão que ela foi infectada por um vírus e decide tentar encontrar uma cura.

Em paralelo, ao comer o cérebro de uma pessoa assassinada, Liv tem memórias do crime e ajuda o policial Clive Babineaux a resolver o crime – Ravi, espertamente, diz ao tira que a moça é uma espécie de vidente.

Pronto, está estabelecida a primeira tônica do seriado: Liv passa a ser uma espécie de investigadora zumbi, ajudando a resolver crimes graças a memórias que são ativadas por pessoas ou cenários que vê, e que a ajudam nas investigações.

Com um detalhe que faz toda a diferença: ela não absorve apenas memórias, mas também desejos e habilidades do morto devorado. Neste ponto, se sobressaem as ótimas interpretações da atriz Rose McIver (que já fez entre outros papéis a fada Sininho de Once Upon a Time e a ingênua e sensual enfermeira Vivian Scully em Masters of Sex).

A cada episódio Rose consegue convencer – e fazer rir – com personalidades e manias distintas que enriquecem por demais o seriado. Mas não é só isso. Além do foco de investigação policial, o roteiro segue uma linha paralela: aos poucos fica claro que a tal infecção que transformou as pessoas em zumbis é fruto de uma mistura de uma droga (o utopium) com um energético duvidoso, e que Liv não é a única zumbi na cidade.

Justamente o responsável por transformá-la, um traficante de drogas chamado Blane DeBeers, sobreviveu ao massacre. E, usando a esperteza das ruas, ele descobre uma oportunidade de ouro usando a lógica de um traficante: Blane começa a arranhar outras pessoas, de preferência milionárias, e transformá-las em zumbis, para então fornecer a elas cérebros a preço de ouro.
Diferentemente de Liv, porém, ele consegue os cérebros de maneira bem mais vil, dando cabo de indigentes, moradores de rua, prostitutas e até mesmo adolescentes problemáticos.
E, se a interpretação de Rose McIver é um diferencial do seriado, não há dúvida que Blane é excepcional graças a David Anders (o dr. Frankenstein de Once Upon a Time e Adam Monroe de Heroes).
Alternando uma ironia e cinismo ímpares com momentos de extrema violência, reflexão filosófica e paixão por música, Blane é um daqueles vilões por quem o expectador acaba torcendo em algum momento. 
Se inicialmente os mundos de Liv e Blane se interlaçam no seriado, eventualmente eles acabam entrando em colisão, e de maneira muito inteligente. Com muita maestria, na medida em que alguns problemas vão se resolvendo, outros surgem: curas que não dão muito certo, mais desmortos sendo criados (alguns de maneira artificial e sem grande sucesso), caçadores inusitados, grandes corporações que descobrem que zumbis podem ser utilizados como armas…
E tudo isso sem que Liv, Ravi, Clive e a promotora Peyton deixem as investigações de homicídio de lado.
Falar mais que isso sobre o roteiro, que vicia rapidamente o expectador, transformaria este texto em uma sequência interminável de spoilers e tiraria parte da graça para quem não assistiu iZombie ainda.
Mas vale falar da cereja do bolo: a interação inteligente com os quadrinhos e com o mundo zumbi “tradicional”. Não faltam citações às HQs, escondidas ou descaradas, como a abertura desenhada especialmente por Mike Allred, artista que criou iZombie.
Em determinado episódio, por exemplo, Ravi revela que quando joga um game de RPG on line seu personagem é um Terriersomem, deixando claro em qual personagem ele foi inspirado. Em outro, um sujeito que se vestia de super-herói de quadrinhos e foi assassinado tem seu alter ego revelado como Cris Allred, ou seja, a junção dos nomes do argumentista e do desenhista dos quadrinhos.
Em vários episódios os personagens assistem um seriado que mistura ataque zumbi e highschool e zombam da burrice dos zumbis típicos do cinema e da televisão e, mais para frente, acabam visitando o set do tal seriado – que ironiza um pouco The Walking Dead – e comentam que os produtores de Zombie´s High resolveram gravá-lo em Seattle em vez de no Oregon (onde se passa a história da HQ) por questões de custo…

 

Cérebros deliciosos
Um diferencial que chama a atenção em iZombie é o, digamos, preparo dos cérebros para consumo. Primeiro, uma curiosidade: todos eles são feitos de gelatina (geralmente com sabor neutro, de coco ou amêndoa, favoritos da atriz) e levam cerca de 12 horas para ficar pronto. Uma vez finalizados, podem ser cortados, cozidos, fatiados ou usados in natura.
E é justamente aí que a coisa acontece. Não que não haja uma leve dose de nojo em alguns momentos (nada que chegue perto de um episódio rotineiro de CSI ou Criminal Minds). Contudo, em vez do grotesco e escatológico comum a seriados como Santa Clarita´s Diet, em iZombie os cérebros ganham receitas culinárias e visuais apetitosos.
A coisa começa quando Blane arma o esquema para servir cérebros a seus clientes ricos em uma delicatessen e faz pratos finos com cérebro como ingrediente. 
Liv, por sua vez, se no início os devora crus, aos poucos começa a preparar os seus como sushi, massa, hambúrgueres, omeletes e outras iguarias – nos primeiros 38 episódios, foram 25 receitas diferentes (detalhe: os zumbis só efetivamente sentem os sabores quando acompanhados de MUITA pimenta). 
As cenas chamaram tanta atenção que até rugiram até sites na Internet dedicados às, digamos, receitas, tais como o melhores receitas para um zumbi em necessidade e o top melhores deliciosas receitas de cérebro em iZombie – ambos atualmente fora o ar.
Ah, sim, iZombie também tem sites brasileiros dedicados à série que, com o perdão do trocadilho, é muito mais saborosa do que a HQ. Vale conferir!
*Texto atualizado em 2023

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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