Calafrio: sinônimo de terror nos quadrinhos brasileiros

Talvez pouca gente saiba ou se lembre, mas entre os anos de 1950 e 1970, os quadrinhos de terror fizeram bastante sucesso no Brasil. Em parte porque, por causa do temerário “Código de Ética” imposto às HQs estadunidenses (na prática, uma censura gerada graças às teses expostas pelo “psicólogo” Frederic Wertham no livro A Sedução do Inocente em 1954), a produção do gênero nas terras do Tio Sam se estagnou e diversos artistas nacionais entraram no vácuo deixado no mercado, intensificando a oferta.

Porém, na década de 1970 as HQs de terror acabaram sumindo por praticamente uma década  – há teses diversas do porquê, que incluem da popularização da TV à alta do preço do papel, passando pela censura do governo militar. Até que, em 1981, um desenhista argentino naturalizado brasileiro, de nome Rodolfo Zalla, criou uma revista que se tornaria sinônimo de quadrinhos de terror no Brasil: a Calafrio.  

Zalla – que faleceu em 2016, aos 84 anos , vítima de câncer – chegou ao país em 1963. Já naquele ano criou a tirinha Jacaré Mendonça, publicada no jornal Última Hora e, pela editora Taika, foi responsável pela arte de personagens como Targo (uma cópia de Tarzan), O Vingador, e por reformular o personagem O Escorpião, com o objetivo de livrar a editora da acusação de que o personagem plagiava O Fantasma.

Além de diversos outros trabalhos, também chegou a produzir diversas histórias de guerra ao lado do ítalo-argentino Eugenio Colonnese – os dois eram sócios em um estúdio chamado D-Arte, que funcionou entre 1966 e 1969. Foi ali, no estúdio, que surgiu a personagem Mirza, a Mulher Vampiro, criada por Colonnese e apontada como a primeira personagem feminina do gênero.

Como a censura nos anos de 1970 começava a crescer em torno das HQs de terror e das eróticas, Zalla desistiu do estúdio e, ao lado do publisher Paulo Marte, investiu na produção de livros didáticos (a maioria contendo ilustrações e quadrinhos). Porém, onze anos depois, em 1981, percebendo um novo espaço no mercado, Zalla fundou a agora editora D-Arte.

E, uma semana antes do Natal daquele ano, lançou duas publicações, com 40 mil exemplares cada: o bangue-bangue Johnny Pecos e a revista Calafrio. A primeira fracassou em vendas, já Calafrio teve uma ótima performance.

Além do formato maior do que a alternativa em HQ do gênero que existia na época (a Spektro) e do nome chamativo, a revista trazia histórias inéditas de quadrinistas e argumentistas de talento, ainda que boa parte fosse pouco conhecida até então.

Jayme Cortez, Flávio Colin, Mozart Couto, Júlio Shimamoto, Watson Portella e diversos outros mestres do traço – e do argumento, como Ota – passariam pela revista ao longo dos anos. Vendo a força de Calafrio, Zalla lançou um segundo título no lugar do fracassado Johnny Pecos (o faroeste durou apenas quatro números). Assim, em 1982, surgiu Mestres do Terror.

Enquanto Calafrio trazia histórias tenebrosas diversas, Mestres do Terror sempre apostava em um personagem de destaque já na capa, como – os mais populares – Drácula, Lobisomem e a própria Mirza, do ex-parceiro e sempre amigo Colonnese.  

Ao todo, Calafrio foi publicada por 11 anos (sobrevivendo a diversas crises, períodos de superinflação e seis planos econômicos) levando HQs de terror a fãs do gênero em todo o Brasil. Aliás, vale aqui um parêntese: Zalla orientava seus colaboradores a não exagerarem no erotismo – costumeiramente presente – nas histórias e a focarem no terror, que na opinião dele era o que os leitores efetivamente queriam.

Houve até uma polêmica envolvendo uma suposta censura a Colonnese: uma capa de Calafrio continha Mirza com “fartos seios” à mostra e Zalla “retocou” a capa com lápis dermatográfico, gerando a impressão de que a moça estava de biquini.

Em declaração na ótimo Calafrio – 20 anos depois, obra lançada pela editora Opera Graphica em 2002 contando detalhadamente a história da revista e trazendo uma boa coletânea de histórias publicadas, Zalla se explicou: “A capa ficou muito sensual, mas sem risco de censura. Na época falaram que eu censurei Colonnese e, digo honestamente, (fiz a alteração por) que fiquei com medo que recolhessem a revista.”

Em 1992, a economia ruim venceu a obstinação de Zalla em publicar HQs de terror: Calafrio – e também Mestres do Terror – tiveram seus últimos números publicados. Curiosamente, a paixão dos leitores não diminuiria, tanto que a D-Arte sobreviveria mais um ano apenas vendendo encalhes das publicações.

Não haveria, porém, novos exemplares. Calafrio, para tristeza de muitos, estava morta e enterrada… ou não?

Voltando do túmulo

Em 2011, quase duas décadas depois de a última Calafrio ter sido publicada, a editora Clube dos Quadrinhos anunciou uma nova versão da revista. Calafrio Edição de Colecionador foi editada pelo próprio Zalla e, em vez de zerar a numeração, a nova fase começou com o número 53, retomando a contagem a partir do último exemplar publicado pela D-Arte.

O número de exemplares era pequeno (da primeira edição foram 300), normalmente vendidos pela loja especializada Comix, de São Paulo. Essa fase da revista durou até 2014, quando foi publicado o último exemplar da Edição de Colecionador, o de número 64.

Mas Calafrio rapidamente voltaria (e ainda está entre nós). A editora Ink&Blood, então do pontagrossense Fábio Chibilski, adquiriu os direitos da revista e relançou tanto Calafrio quanto Mestres do Terror em 2015.

Mais uma vez por sugestão de Zalla, a revista seguiu a numeração do ponto em que a original parou, ou seja, a primeira a sair foi a Calafrio 53 – ignorando as “edições de colecionador”. Chibilski acabou saindo do projeto posteriormente, mas ele permaneceu vivo tendo Daniel Saks como editor.

Em dez anos, de 2015 a julho de 2026, mês das publicações mais recentes, foram 32 edições de Calafrio lançadas – o título mais recente é o de número 88, e Mestres do Terrror estava na edição 85 no mesmo período.

E nada indica uma nova parada no futuro da publicação. Por sinal, Saks mantém página no Facebook na qual anuncia as edições e conversa com os leitores – clique aqui para acessar.

Pois é, como todo bom protagonista de terror, Calafrio sempre volta dos mortos. Que bom para os fãs!

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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