Adeus a Ozzy: o mundo do príncipe das trevas nos quadrinhos

Como todo ícone pop que se preze, Ozzy Osbourne – que faleceu nesta terça-feira (22) aos 76 anos – nem de longe se restringiu a uma única mídia. A imagem do príncipe das trevas foi muito além dos shows, clipes e inúmeros hits no Heavy Metal (e em algumas baladinhas também, ou alguém acha que If I close my eyes forever é hard?) Assim como outros colegas do mundo do rock, Ozzy também foi protagonista de diversas histórias em quadrinhos, tiras, charges, cartoons e caricaturas.

Aqui no Brasil, o quadrinista Márcio Baraldi foi um dos primeiros a ir além da caricaturas do roqueiro, com uma tira publicada nos anos de 1980, logo depois do famoso episódio do morcego. Apenas relembrando, em 20 de janeiro de 1982 o vocalista arrancou a cabeça de um desses mamíferos alados que foi jogado no palco por um fã, na cidade estadunidense de Des Moines.

Ao ver o ver o animal (que estava morto) arremessado no palco, Ozzy achou que era um brinquedo e, para manter a pose de “demoníaco” mordeu a cabeça do bicho – o que o levou diretamente para um hospital para ser medicado  após o show. Baraldi transformou o episódio em uma tira com outro morcego famoso…

Ozzy, por sinal, voltaria a aparecer em outras HQs do autor conhecido por trabalhar com astros do rock nacional e internacional, em especial nos quadrinhos da dupla de Roko-Loko e Adrina-Lina. O mais famoso frontman do Black Sabbath se tornaria até mesmo uma das estrelas do game Roko-Loko no castelo do Ratozinger, no qual o jogador tem como objetivo libertar deas masmorras de um castelo lendas do rock como Ozzy, Eddie (o mascote do Iron Maiden) e Gene Simmons das garras do vilão Ratozinger, personagem que odeia rock e sexo.

Mas, de volta aos anos de 1980, Ozzy também foi alvo de diversos caricaturistas e chargistas brasileiros ao participar da primeira edição do Rock in Rio, em 1985. O roqueiro foi um dos destaques do festival daquele ano, ao lado de outras grandes atrações internacionais como Queen e AC/DC. O jornal O Globo, inclusive, mantém um acervo on line com algumas charges sobre o evento.

Em 1991, Ozzy e o Black Sabbath foram tema de duas edições (junho e julho) do Rock ‘N’ Roll Comics. A revista, publicada mensalmente de 1989 a 1993 pela editora Revolutionary Comics trazia biografias em quadrinhos de grandes estrelas do rock.

Apesar de não serem autorizadas (nem licenciadas pelas bandas e artistas) as biografias eram muito bem pesquisadas e focadas no público adulto, com direito a cenas de violência, nudez, sexo, drogas…e rock´n´roll, claro.

Em 1993, o príncipe das trevas ganharia nos quadrinhos brasileiros uma homenagem inusitada. O cartunista Angeli, pai de Rê Bordosa, Bob Cuspe e inúmeros outros personagens inesquecíveis, havia sido convidado pela Folha de S.Paulo a criar uma tira para a Folhinha, suplemento infanto-juvenil do jornal.  Inspirado pelo filho Pedro (então com 13 anos), que era fã de heavy metal e de Ozzy Osbourne, Angeli criou um garoto com visual meio grunge e o nomeou como “Ozzy”, em uma deferência ao cantor.

Em 2015 que a Bluewater Productions lançou a primeira biografia em quadrinhos autorizada do roqueiro. Ozzy Osbourne: The Metal Madman. Escrita por Michael L. Frizell e Jayfri Hashim (que também fez os desenhos), a edição era focada na vida e a obra do artista. E, sim, incluía a história completa do episódio do morcego.

No mesmo ano, Ozzy também apareceu na HQ Hard Rock Heroes: Sinbad Rogue of Mars. Em mais de 300 páginas de quadrinhos, essa revista trazia histórias cobrindo a vida, bastidores e músicas não só dele e do Black Sabbath, mas  de outras bandas como Guns N’ Roses, Metallica, AC/DC, ,Van Halen, Motley Crue, Poison, Megadeth, Pantera, Anthrax e Motorhead.

Já em 2021, Ozzy foi homenageado na série Dark Nights: Death Metal – Band Edition (no Brasil, Noites de Trevas: Death Metal), da DC Comics. A HQ situada em um universo paralelo ganhou sete volumes com capas homenageando grande nomes do Heavy Metal e Ozzy aparece no volume sete, ao lado do personagem Batman que Ri. Além dele foram celebrados Megadeth, Ghost,Lacuna COil, Opeth, Dream Theather e a banda brasileira Sepultura.

Em 2022, a Diamond Comics lançou Patient Number 9, uma HQ inspirada na música do mesmo nome e com roteiro em parceria do próprio Ozzy com o quadrinista Todd McFarlane, criador de Spawn.  O quadrinho, com capa de McFarlane e desenhos de Jonathan Glapion, conta a história de um homem internado em um hospício no qual é mal tratado por médicos, abusado pelos demais pacientes e assombrado por um monstro gerado pela própria mente despedaçada. Originalmente, a HQ fazia parte de um pacote especial do álbum Patient Number 9.

No ano seguinte, a TidalWave Comics lançou Black Sabbath: The Comic Book, como parte da coleção Orbit, que traz histórias em quadrinhos sobre personalidades que impactaram o mundo. Escrito por Todd Matthy e com desenhos de Martin Gimenez, o quadrinho de 22 páginas focava na história da banda, principais músicas e sobre como o grupo e Ozzy mudaram a história do rock e do heavy.

Em 2024, Ozzy foi foco de uma publicação de arte incomum: um livro de colorir, com desenhos do cantor.   O Ozzy Osbourne: The Official Coloring Book traz 72 páginas de ilustrações que incluem desde rostos de Ozzy a referências a músicas e cenas fantásticas, como o príncipe das trevas cavalgando uma espécie de lobo demoníaco…

Também em 2024 ano foi (re)lançada na coleção de quadrinhos Orbit três edições nas quais Ozzy Osbourne aparece: Hard Rock Heroes, Icons of Rock n Roll#3 e a Graphic Novel Ozzy Osbourne & Black Sabbath.

Por fim, neste ano de 2025 vieram mais duas novidades. A primeira é OZZY OSBOURNE: El príncipe de las tinieblas, uma nova biografia em quadrinhos feita pela dupla espanhola David Braña (argumento) e Ángel Luis (desenhos).

A segunda é ainda mais estranha que o livro de colorir. Pelas mãos de David Calcano, saiu Where Is Ozzy?: The Only Official Seek-And-Find Book. Ou seja, um livro de atividades no estilo “Onde está o Wally?”, no qual o leitor tem que achar a imagem do cantor em meio a ilustrações em sua maioria caóticas e cheias de monstruosidades.

Homem-de-Ferro

Vale lembrar que Ozzy Osbourne tem também uma relação indireta com o super-herói Homem-de-Ferro, da Marvel. Isso porque o filme do herói de 2008 utilizou na trilha sonora uma versão remasterizada da música Iron Man, que tem o mesmo nome do personagem e foi lançada originalmente pelo Black Sabbath em 1971.

Até então, porém, a canção não tinha nada a ver com o personagem além do nome. Na verdade, a música ganhou o título em virtude de um comentário feito por Ozzy em relação a um riff do guitarrista que, segundo ele, soava como “Um sujeito de ferro grande andando por ali” (“like a big iron bloke walking about“).

O baixista Geezer Butler – que já declarou publicamente que não conhecia nem tinha lido nada do personagem estadunidense criado em  1963 por Stan Lee e companhia –  trocou “iron bloke” por “iron man” e desenvolveu a letra como uma história de ficção sobre um homem que viaja no tempo, se torna aço após um encontro com um campo magnético, e retorna para tentar alertar a humanidade sobre o apocalipse.

Despedidas

Por fim é importante destacar que, por ocasião da morte do artista, inúmeros cartunistas de todo o planeta produziram desenhos homenageando o cantor e registrando o falecimento. Gente como o genial Dalcio Machado, por exemplo, autor do cartum abaixo.

Homenagens mais que merecidas a um artista ímpar que deixa para o mundo muitas músicas e histórias inesquecíveis. Uma boa parte delas em quadrinhos.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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