Mulher-Gato e Batgirl brigando sem roupa: muito barulho por nada

Está nas bancas (ainda) a revista A Sombra de Batman número 4, edição brasileira que traz uma HQ que gerou “polêmica” nos Estados Unidos. A razão: a mãe de um menino de 12 anos – que comprou a revista Batman Confidential 18, que trazia a HQ por lá – ficou revoltada ao ver o garoto lendo a história que classificou como “pornográfica”.
Antes que algum desavisado se entusiasme, é bom avisar: não há pornografia alguma na história e, apesar de em tese haver nudismo, a DC segue a tradicional tática de sempre colocar algo – flores, decoração ou até a cabeça de alguém – em pontos estratégicos de modo a ocultar as, digamos, partes pudendas.
A aventura se chama A Gata e o Morcego(The cat and the bat) e retrata um evento “do passado”, um dos primeiros encontros entre a Mulher-Gato e a Batgirl Barbara Gordon (que atualmente está aposentada do cargo, pois se tornou a Oráculo após ser baleada pelo Coringa e ter perdido o movimento das pernas).
Na história, a ladra rouba um caderno de notas do comissário Gordon e Bárbara, como boa filha e combatente do crime, segue o rastro da gatuna até um “clube hedonista” de Gotham, onde todos precisam se despir para entrar. 
A partir daí, Batgirl tem que vencer o próprio constrangimento em uma situação que –a exemplo do que acontece nos mangás – usa o nu de maneira cômica, para tornar a história engraçada e não erótica. Vale repetir que nem ao menos nádegas são mostradas. Há quadrinhos cômicos de Níquel Náusea que mostram muito mais e qualquer passadinha na praia ou na piscina também o fazem.
É claro que a tal mãe americana deve estar mais acostumada com os maiôs gigantes que a maioria das estadunidenses usam, mas ainda assim não isso não é desculpa para tanto puritanismo, afinal, mesmo que o tal garoto de 12 anos nunca tenha visto uma capa da Sports Illustrated nem entrado na Internet, os uniformes colantes típicos das HQs e super-herói revelam até mais dos corpos das moças do que as cenas em que elas estão desnudas.
Somando-se tudo ao fato de que a mãe não reclamou das cenas de pancadaria, tiros e sangue esparramado, a coisa toda tem mais cara de hipocrisia do que de puritanismo…
Aqui no Brasil, a tal história termina só no próximo número de A Sombra de Batman, a príncípio  sem mais nenhuma cena “chocante”.  Chocado mesmo ficará o leitor que deixou de acompanhar o Homem-Morcego antes da série Crise Final e que resolva comprar agora A Sombra de Batman  para dar uma olhadinha.
Afinal, para quem não sabe, Bruce Wayne foi dado como morto no final da série (o nome “A sombra” é justamente porque os demais heróis de Gotham estão tentando manter as coisas em ordem em nome dele).
Com isso, o atual Batman é Dick Grayson (ex-Robin, ex-Asa Noturna). Robin agora é o filho de Bruce Wayne (sim, você leu certo), Damian Wayne, fruto do romance entre Bruce e Talia Al Ghul, filha do arquiinimigo e vilão Ras Al Ghul.  
O Robin de até então, Tim Drake, agora é chamado de “Robin Vermelho” e usa o uniforme que o leitor  com certeza vai lembrar de ter visto na saga Kingdom Come. Tim, por sinal, é o único que acredita que Bruce Wayne está vivo, mas em sua missão para encontrá-lo está fazendo burradas diversas, inclusive a maior delas: se tornou aliado de Ras Al Ghul e anda acompanhado por um grupo de assassinos, entre outras coisinhas.
Quer mais? Cassandra “Cass” Cain não é mais a Batgirl. A letal filha dos assassinos Cain e Lady Shiva, que chamava a atenção dos leitores por seus traços orientais e golpes fatais, simplesmente sumiu do mapa. Dizem que agora é uma agente infiltrada do morcego  em algum lugar desconhecido, mas o desaparecimento da personagem não ficou bem esclarecido. Assim como o “reaparecimento” da moçoila que a substituiu.
Ocupa o cargo Stephanie Salteadora Brown. Esperem aí: ela não tinha morrido bizarramente  assassinada pelas mãos da até então boazinha doutora Leslie Thompkins? Santos boatos exagerados sobre a minha morte, Batman! Steph está de volta e agora Gotham tem uma Batgirl loira, para a felicidade geral da nação. 
E quem é a tutora da moça? Um doce para quem disse Barbara Gordon!
E não acabou ainda. Edward Nigma, popularmente conhecido como Charada, agora é um detetive genial (a ponto de ser um dos únicos a perceberem que Batman não é mais o mesmo). Ele já pagou seu débito com a Justiça e trabalha do lado da lei.
Por falar nisso, Mulher-Gato também está em definitivo do lado do bem e não é a única. Selina Kyle agora trabalha como uma das “Sereias de Gotham”: completam o time as também regeneradas Hera Venenosa e Arlequina.
Se tudo isso não basta, completa o mix da revista a personagem Batwoman, primeira heroína de peso da DC declaradamente lésbica chamada Kate Kane, que vive aventuras bastante lisérgicas no traço de JH Willians e argumento de Greg Rucka.
Uma personagem anterior com o mesmo nome foi criada em 1956, com o nome de Kathy Kane, e esta nova versão reformulada estreou nos EUA em 2006. Um detalhe curioso: a então sobrinha de Kathy, Betty, foi a primeira Batgirl, mas acabou ressurgindo após a reformulação da DC em Crise das Infinitas Terras como a heroína Labareda, dos novos Titãs. O parentesco com a Batwoman e o passado da personagem foram totalmente anulados.
A própria Batwoman, nesta nova versão, não tem nada a ver com a anterior. A moça agora é filha da alta sociedade gothamita – o pai é um militar de alta patente – e teve um caso no passado com a policial Renée Montoya (A Questão).
Nestas aventuras iniciais publicadas no Brasil, ela vive às voltas com uma seita que a vê como uma espécie de messias e diversas namoradas em potencial, entre as quais uma prima que faz o gênero tolinha e é completamente apaixonada pela heroína ruiva.
E pensar que, com tanta coisa, a mãe americana ainda teve tempo para reclamar que o filho estava vendo mulheres quase sem roupa…

 

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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