Um Popeye como você nunca viu…e desenhado por um brasileiro!

A arte, aquarelada, é maravilhosa.  A história, realista e, por vezes, angustiante. Popeye: um Homem ao Mar, com roteiro do francês Antoine Ozanam e desenhos e cor do brasileiro Marcelo Lelis, leva o lobo-do-mar mais conhecido do planeta a mares nunca dantes navegados. Ao mesmo tempo, faz referência a praticamente todos os elementos clássicos do personagem criado por E.C. Segar em 1929. O resultado é uma Graphic Novel adulta, marcante e imperdível para os fãs de boas Histórias em Quadrinhos.

A história já começa com Popeye em alto-mar em um dia ruim para a pesca. Aos poucos, o leitor percebe que não se trata de um único dia: o vilarejo formado por pequenos pescadores sofre as consequências da poderosa indústria pesqueira, que com grandes barcos e equipamentos melhores deixa poucos peixes para os barqueiros que ainda resistem.

Um deles, Bosco, amigo de Popeye, acaba perdendo o barco para o banco e o próprio marinheiro acaba se unindo a ele em trabalhos temporários longe  do oceano em busca de sustento. Em paralelo, uma ruiva (e ainda extremamente magra) Olívia tenta sobreviver comandando um bar onde todos se reúnem para afogar as mágoas, entre eles um sujeito gordo e grande chamado Dudu, que vive tentando filar comida.

E, sim, Brutus – cuja inimizade com Popeye tem motivos mais palpáveis revelados – também frequenta o estabelecimento e tenta dar em cima da proprietária.

Aliás, não só ele. Ozanam coloca aqui personagens que muitos dos fãs que conhecem Popeye do desenho animado não irão reconhecer. Assim, Olívia começa a história com um namorado, chamado Ham, e um irmão, Castor. Os dois, assim como a magriça, são oriundos da tira Timble Theather, que Segar criou em 1919 e na qual Popeye apareceu pela primeira vez dez anos depois.

Castor, por sinal, era um trambiqueiro que vivia atrás de dinheiro fácil e aqui ele acha um mapa do tesouro, que gera mais duas referências bem inteligentes à tirinha original. Em determinado momento, ele diz à irmã que se ela financiar a empreitada e ele tiver sucesso, ambos poderão recomprar o “Teatro Timble.”

E, quando vai contratar Popeye para ir atrás do tesouro, tem com ele um remake do diálogo da tira original, na qual pergunta se o interlocutor é marinheiro e o lobo-do-mar responde com o costumeiro mal humor: “Você achou que eu fosse um cowboy”?

Também há respostas interessantes para o relacionamento difícil entre Popeye e o pai dele, a explicação para o apelido, a verdadeira razão para comer espinafre, o porquê Olívia cortou o cabelo e até mesmo o porquê Gugu apareceu na vida do marinheiro.

Ah, e a HQ também traz a origem do relacionamento de Olívia e Popeye, que começa tempestuoso e chega às vias de fato – o que é ilustrado por Lelis (de novo, vale lembrar, se trata de uma Graphic Novel adulta.

Também não faltam os tradicionais bordões do marinheiro, como o famoso “Macacos me mordam” (no original, Well, blow me down), e, claro, as brigas na qual ele leva a melhor após receber algumas pancadas.

A HQ de 120 páginas e capa dura – que recebeu um tratamento da Skript Editora na versão brasileira – tem quatro páginas de texto antecedendo o início às aventura. Sob o título de “Lendas do Mar”, o texto é na verdade uma pesquisa primorosa e bem escrita feita pelo editor Diego Moreau, que é fundamental que se leia antes da HQ.

Não só para sacar mais as referências que irão aparecer na HQ, mas também para entender o final dela, que é quase um pós-crédito, já que – terminada a aventura – surge um convidado especial em um brilhante exemplo da típica metalinguagem dos quadrinhos.  Pelas barbas do camarão!

NOTA DO CRÍTICO: Excelente

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

1 comentário

  • Sempre um texto melhor que outro! Quanto conhecimento, parabéns! 👏🏻👏🏻👏🏻🙂

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