Em maio de 1940, o mundo ganhou o primeiro herói crossdresser da história das HQs. Em meio ao boom dos supers ocorrido na chamada Era de Ouro (1938-1950) nos quadrinhos estadunidenses, na qual dúzias de novos encapuzados combatendo o crime surgiam a cada mês, criar um herói diferente para chamar a atenção do público – e vender – era sempre um desafio. O cartunista Arthur “Art” Pinajian, porém, ousou ir além e criou Madame Fatal (Madam Fatal), o primeiro homem a se travestir de mulher para enfrentar a bandidagem.
Quadrinista autodidata de nacionalidade armênio-americana, Art havia feito a estreia no mundo dos super-heróis um ano antes, quando criou o personagem Hooded Justice (chamado aqui no Brasil de Justiça Encapuzada ou ainda Capuz Invisível) sob o pseudônimo de Art Gordon para o gibi Smached Comics número 1 – publicado pela Quality Comics. Este personagem, adquirido pela DC Comics posteriormente, acabou sendo utilizado por Alan Moore no clássico Watchmen.

Madame Fatal estreou no ano seguinte, na edição inicial de outro gibi da Quality, Crack Comics. O protagonista é Richard Stanton, um ator conhecido não só pelas boas interpretações como também por ser um mestre dos disfarces. Dono de uma fortuna considerável graças a bons investimentos no mercado de ações, Stanton vive feliz ao lado da esposa e da filha – que, por sinal, nunca tiveram os nomes definidos na HQ.
Contudo, o que ele não sabe é que – anos antes de casar e dar à luz – a esposa havia rejeitado um gangster chamado John Carver para ficar com Stanton. Ainda se sentindo humilhado por ser trocado, Carver acaba sequestrando a criança por vingança e, quando a polícia não localiza a menina, a mãe morre de desgosto. Enlutado pela esposa, sem notícias da filha e alvo da atenção de todos, Stanton simplesmente some de cena, sem deixar rastros.
Oito anos depois a HQ mostra em ação uma tal Madame Fatal, uma senhora de certa idade que – quando não está combatendo o crime – é conhecida pela vizinhança como uma velhinha gentil que divide o apartamento com um papagaio chamado Hamlet. Ela é, na verdade, Richard Stanton, que se traveste de mulher idosa para combater o crime e tentar localizar a filha de maneira insuspeita.

Um detalhe interessante é que, para criar a persona que utiliza no combate ao crime, o ator assumiu inteiramente a identidade da madame nos últimos oito anos e simplesmente deixou de existir como Richard Stanton. Também é importante dizer que Madame Fatal é uma espécie de Batman: não tem superpoderes, mas – como Stanton também é ex-soldado, pugilista, mergulhador, tem excelente forma física e inteligência acima da média – é uma excelente lutadora e combatente do crime.

Já as qualidades de investigadora são aparentemente um pouco mais limitadas. Apesar de ter desvendado uma série de crimes, Stanton/Madame Fatal nunca descobriu o destino da filha nos dois anos que o personagem foi publicado.
O mistério permaneceu quando a DC Comics comprou a Quality, uma vez que a personagem permaneceu no limbo dos quadrinhos sob a tutela da editora. Porém, em 2012, Madame Fatal reapareceu em uma participação especial na série de HQs The Shade, na qual a editora fez a releitura deste outro personagem dos anos de 1940 (no Brasil chamado de O Sombra). Totalmente repaginada na arte de Darwyn Cooke e vestida a caráter, a madame aparece no número 4 e ali é revelado que ela finalmente encontrou a filha! Viva!

Enredo
Após perder a esposa e ter a filha sequestrada, o ator Richard Stanton some do radar e, travestido como uma senhora, passa a morar em um apartamento tendo como única companhia um papagaio que recita Shakespeare, adequadamente chamado de Hamlet. O que o vizinhos não sabem é que por trás da identidade da simpática velhinha existe um homem que passou os últimos oito anos se dedicando a investigar o gangster responsável pelo desaparecimento da menina, John Carver, e a se preparar para combater o crime.

Se utilizando da figura insuspeita de uma senhora de idade, Stanton passa a ser Madame Fatal, que graças a experiencia prévia dele como soldado e mergulhador, luta como ninguém (além de saltar por telhados e distribuir golpes de bengalada incapacitantes, começa a prender criminosos e combater injustiças com grande eficiência.

Eventualmente, John Carter morre e Richard Stanton acaba abrindo uma agência de detetives. Contudo, mesmo sem a necessidade de esconder a própria identidade do homem que acabou com a família dele e que agora está morto, ele continua a se travestir em Madame Fatal para praticar seus atos de heroísmo. “John Carter está morto e o disfarce de ator como Madame Fatal serviu a seu propósito – mas isso não é o suficiente e decidi que, como Madame Fatal, continuarei combatendo o crime e a injustiça por quanto tempo eu puder”, discursa Stanton na história em que o gangster morre.
Principais personagens
Além da própria Madame Fatal, são personagens recorrentes
John Carter – Um chefão do crime, que comanda gangues e esquemas de extorsão em diversas cidades

Hamlet – o papagaio que divide o apartamento com Fatal/Stanton foi treinado para recitar Shakespeare e – aleatoriamente – também fala frases como “Vida longa a Madame Fatal” e “Não se mexa ou eu atiro”
General Boy, o anão, e Ciclope, o gigante – artistas de um circo que sofria com o crime. Os dois auxiliaram Madame Fatal e, posteriormente, Stanton passou a financiar secretamente o circo
Jester – um criminoso que se veste como um bobo-da-corte e que eventualmente se aliou a Fatal contra outros bandidos. Há ainda outros vilões e gangues como a Blue Cloak Gang, o Abutre Escarlate e a Bruxa Negra
Detetive Duffy – policial amigo de Stanton que o auxilia quando necessário

Tubby White e Scrappy Nelson – parceiros adolescentes na Sure-Fire Detective Agency, na qual Stanton/Madame Fatal acaba atuando.
Curiosidade: piadinha (?) em funeral
Apesar de ser basicamente ignorada na maioria absoluta dos quadrinhos da DC Comics, que detém os direitos da personagem, Madame Fatal foi citada de maneira jocosa em 1999 durante um evento ocorrido nas HQs da Sociedade da Justiça da América: o funeral de Sandman – no caso, o super-herói cuja identidade secreta era Wesley Dodds e não o senhor dos sonhos criado por Neil Gaiman.

O cemitério onde Dodds é enterrado é o mesmo onde o corpo de Madame Fatal foi sepultado e em determinado ponto Ted Grand, o Pantera (WildCat) faz o seguinte comentário: “Eu me pergunto se quando for o meu próprio funeral será igual a quando enterraram a Madame Fatal aqui e ninguém apareceu a não ser o elenco itinerante de A Gaiola das Loucas”, afirma, se referindo à famosa peça de teatro (que também tem versões em filme) protagonizada por drag queens.




Olhando a primeira imagem da matéria…V de Vingança, porque choras?