Elas cantam, caçam demônios, desbancaram grupos musicais de verdade nas paradas do Spotify e vão concorrer ao Oscar:  conheça as Guerreiras do K-Pop

Cantando há pouco mais de um mês, o trio formado pelas coreanas Rumi, Mira e Zoey já desbancou grandes nomes do K-Pop – como BTS e Blackpink – das paradas do Spotify, emplacou sete faixas no Billboard Hot 100 e tem chances reais de ter o hit Golden entre os concorrentes de Melhor Canção Original no Oscar 2026, com possibilidades de levar a estatueta. Ah, um detalhe interessante: Rumi, Mira e Zoey, que formam o conjunto conhecido como Huntr/x, simplesmente não existem na vida real. Elas são personagens da animação Guerreiras do K-Pop (K-Pop Demon Hunters), que estreou na Netflix em junho deste ano.

Desenhos animados com bandas formadas por garotas não são exatamente uma novidade, que o digam Jem e as Hologramas (1985 a 1988) e Josie e as Gatinhas,  clássico da Hanna Barbera nos anos de 1970.  Mas o sucesso de Guerreiras do K-Pop não tem precedentes.

O longa de 100 minutos de duração, que é uma produção conjunta entre Netflix e Sony Pictures Animation, é um dos mais bem sucedidos da história do streaming, ocupando a 4ª posição no ranking de filmes em inglês mais vistos de todos os tempos na plataforma. Até o início de agosto, o desenho acumulava quase 160 milhões de visualizações e era a única animação no Top10 do ranking. Para não mencionar o já citado sucesso da trilha sonora.

Tamanho êxito se deve a uma soma de fatores que formaram a tempestade perfeita para o desenho: um argumento bem amarrado que mistura humor, ação e pitadinhas de drama/romance água com açúcar; uma trilha sonora elaborada – e bem executada – por gente que entende de música e em especial de K-Pop (caso você tenha passado os últimos anos em uma caverna, esse é o nome do gênero musical originário da Coreia do Sul que se tornou fenômeno global e engloba pop, hip-hop, R&B e música eletrônica); e o crescente interesse pela cultura coreana por parte de usuários do mundo inteiro que descobriram as produções culturais daquele país.

Música contra o mal

A história das heroínas do filme remonta há séculos, quando demônios começaram a infestar o planeta em busca de almas humanas para saciar o mais terrível deles, chamado de Guwi-Ma.  Para detê-los surgiram três guerreiras que, armadas de espadas e outras armas marciais, combatiam fisicamente os monstros.

Contudo, elas também descobriram que, por meio da música e do entusiasmo das pessoas por ela, geravam uma barreira invisível para os humanos, chamada Honmoom, que dificultava a entrada dos demônios. Um dia essa barreira poderia se tornaria tão ampla que selaria de uma vez a entrada das criaturas no nosso plano.

Assim, a cada nova geração um novo trio empunhava armas e instrumentos musicais (e microfones, a partir do momento em que surgiram). O desenho mostra, inclusive, guerreiras de diferentes épocas atuando e, em uma boa sacada, com estilos musicais distintos que marcaram época. Claro que, na época atual, esse estilo é o K-Pop.

A apresentação do atual trio, Huntr/x, é muito bem sacada, ao estilo documentário sobre o grupo, no qual já se mostra aquele típico estereótipo de bandas populares, onde cada integrante tem características próprias que os fãs idolatram. Assim, Rumi é a líder, confiante, que ama animais e tem uma linda voz. Mira é a rebelde, agressiva e mais fashion da turma. E Zoey, a rapper, é a mais nova e cheia de energia, aquela que não consegue ficar quieta.

O público de cara já vê as meninas em ação (tanto cantando quanto lutando contra os seres infernais) bem como vai descobrindo a relação de amizade entre elas. Vale ressaltar aqui que as três têm entre 21 e 24 anos (segundo os roteiristas) e convivem como grandes amigas, o que inclusive gera cenas bem engraçadas e descontraídas, algo reforçado pelas repentinas expressões exageradas em meio a diversas cenas, típicas das animações orientais.

Aliás, cabe aqui um parêntese informativo: a maioria das pessoas conhece os animes, como se chamam os desenhos japoneses, e há diversas semelhanças entre eles, mas o nome pelo qual são chamadas as animações coreanas é “aeni.” E os quadrinhos de lá são “manhwa” e não o mais conhecido mangá, dos japoneses.

De volta ao desenho, Rumi decide antecipar o lançamento do que deve ser o maior hit do grupo, Golden, na esperança de completar a barreira Honmoon. Porém ela começa a ter problemas com a voz e o público irá descobrir que isso se deve a um segredo que ela carrega, e que na verdade é a razão para a pressa em lançar a música.

Enquanto isso, no mundo dos demônios, um deles  – chamado Juni – propõe ao chefe maior um plano novo para enfrentar as Huntr/x e eis aqui outra grande sacada do desenho: o que melhor para enfrentar um grupo de K-Pop que uma Boy Band?

Só que, com a música deles, os demônios – que assumem o nome de Saja Boys (“garotos leão”) – pegam as almas dos fãs e as mandam direto para o demonião Guwi-Ma, enfraquecendo a barreira e trazendo mais monstros para a terra.

A partir daí o que se vê é uma batalha de música e luta bem elaborada, que coloca em cena temas como amizade, segredos, (auto)confiança, redenção e a importância de assumir quem você realmente é.

A música

Todas as canções do filme foram compostas e produzidas por grandes nomes do K-Pop, como Teddy Park, Ejae, earattack e MeloMance. Além disso, todos os personagens tiveram dois dubladores – um profissional da área de atuação para fazer a voz nas cenas e outro, cantora ou cantor, para interpretar as canções.

A vocalista Rumi, por exemplo, ganhou a voz de Arden Cho (Teen Wolf) nos diálogos e da cantora e compositora Ejae nas canções. O mesmo ocorre com Mira (May Hong nos diálogos e Audrey Nuna cantando), Zoey (Ji-Young Yoo nos diálogos e Rei Ami nas músicas) e todos os integrantes dos Saja Boys. Inclusive o líder do grupo, Jinu, que é interpretado por Ahn Hyo-seop e na hora da cantoria ganha a voz de Andrew Choi.

Aliás, os membros do Saja Boys foram inspirados em grupos como Tomorrow X Together, BTS, Stray Kids, ATEEZ, BIGBANG e Monsta X. E vale lembrar que assim como acontece com as Huntr/x, eles também têm características peculiares (mais fúteis)  que os destacam e que, à exceção de Jinu, dá nome a cada um deles.

A saber: Jinu (nome que pode ser interpretado com o significado de “amigo verdadeiro”) é o líder carismático e estratégico, que comanda o grupo dentro e fora dos palcos; Abs Saja se destaca pelo físico e abdômen perfeito (que rende ótimas piadas, inclusive visuais, pelo sentimento que desperta nas meninas); Mystery Saja tem o rosto sempre escondido atrás de uma longa franja roxa;  Romance Saja é o romântico de cabelo longo, que lembra um ator de seriado e tem franja em formato de coração; Baby Saja é o caçula do grupo, com aparência fofa e cabelo colorido (mas que tem a função de rapper, com uma voz potente que contrasta com a imagem dele).

Todas as músicas dos dois grupos também ganharam versão dubladas em português, bem executadas profissionais brasileiros. Os principais hits das Huntr/x são How It’s Done (Não tem perdão), Golden (Brilho) e Take down (Letal). Já o destaque dos Saja Boys é, sem dúvída, a musiquinha chiclete Soda Pop (Meu pequeno Guaraná). Vale ressaltar ainda Free (Livres), dueto entre Rumi e Jino.

O sucesso das canções é tamanho que estão previstas exibições de versões sing-along  neste mês de agosto nos cinemas estadunidenses. A última vez que estas sessões (nas quais o público canta as músicas acompanhando legendas na tela com legendas na tela) ganharam os cinemas com tanta força foi com o fenômeno Frozen. Porém aquela animação da Disney já havia sido lançada inicialmente nos cinemas e não migrado de um serviço de streaming para as telonas.

Para completar, a Netflix já está fazendo campanha para que Golden concorra ao Oscar de melhor canção original. Interpretada por Ejae, Audrey Nuna e Rei Ami (que dublam as vozes de canto Rumi, Mira e Zoey), a canção está em 3º lugar entre as músicas de grupos femininos de K-Pop mais bem posicionadas no Spotify dos Estados Unidos.

A rede de streaming também vai desembolsar US$ 20 mil para incluir o longa na Academy Screening Room, plataforma criada para membros votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas terem acesso aos filmes que podem ser considerados na premiação. A ideia, portanto, é concorrer a melhor canção original e melhor animação.

Cultura coreana

Outro fator crucial que explica a popularidade de Guerreiras do K-Pop é o interesse que a cultura coreana tem gerado no planeta. Além do gênero musical, filmes, séries e dramas coreanos estão cada vez mais populares no mundo ocidental, em especial via serviços de streaming.

E, diga-se de passagem, K-Pop Demon Hunters se originou justamente do desejo da diretora Maggie Kang de criar uma história baseada na própria ascendência coreana. Para isso, Maggie idealizou uma história com elementos de cultura, mitologia e demonologia daquele país. O tigre estranho e o passarinho de chapéu que aparecem no desenho, por exemplo, são inspirados diretamente no conto popular coreano “O tigre e a pega” (pega é uma ave da família dos corvos).

Também estão presentes na produção comidas, costumes e cenários marcantes, como as muralhas antigas que cercam Seul e a icônica torre de Namsan, as casas de banho públicas e outros cenários.

A equipe de produção até mesmo viajou para a Coreia do Sul,  para registrar os locais reais que inspiraram os cenários da animação (ou mesmo que aparecem nela como são na vida real)  bem como pesquisar  sobre aspectos – tanto tradicionais quanto modernos – da cultura local.

Importante registrar ainda que, embora no filme original os personagens falem em inglês, os animadores desenharam os movimentos de boca dos persomagens para combinar com sons da pronúncia coreana, e há diversas palavras faladas ou cantadas em coreano.

Com todo esse capricho, boas música e história, não é de se admirar que o filme – e as canções – esteja conquistando tanta gente. E menos ainda que já se dê por certo nos bastidores que haverá um Guerreiras do K-Pop 2 em breve. Alguém duvida?

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

2 comentários

  • Eu sou fã da cultura coreana, mas não sabia 99% das informações que constam neste texto. Muito bom, aprofundou sobre o tema e me fez conhecer mais sobre esse universo que a cada dia me apaixono. Só lamento que citou a música chiclete Meu Pequeno Guaraná, ela ficou por dias na minha cabeça depois que vi o desenho e agora lembrei de novo e mais uma vez ela grudou, então serão dias com o refrão na minha mente… 🙄

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