Esquálidus (Eega Beeva)

Em 26 de setembro de 1947, nas tiras do Mickey Mouse publicadas nos jornais estadunidenses, apareceu pela primeira vez um personagem bem diferente para os padrões dos estúdios Disney. Para começo de conversa não se tratava de um animal antropomorfizado como os que habitavam a tirinha do camundongo e, sim, de “um ser humano do futuro.” Não que Eega Beeeva (que estreou no Brasil em 1952 batizado como “Esquálidus”) efetivamente parecesse um ser humano.

A cabeça, que depois se tornou mais achatada, inicialmente tinha os contornos de uma pera. O nariz era avantajado e, além das sobrancelhas e três fios de cabelo, não havia mais nenhum pelo aparente no corpo coberto por um saiote. As mãos pareciam luvas de boxe, cada uma com um polegar (e uma única unha) e os demais quatro dedos unidos em uma coisa só, mais larga. Os pés seguiam o mesmo estilo.

Esse era o visual elaborado por Bill Walsh para a criatura saída da cabeça de Floyd Gottfredson, um dos maiores tiristas da Disney, que teve uma inspiração inusitada para criar o personagem. Após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki em 1945, o mundo vivia na atmosfera de uma possível guerra atômica, em meio à uma corrida armamentista e pela energia nuclear. Gottfredson se perguntava sobre o futuro da humanidade no caso de um conflito atômico. Se a superfície do planeta fosse contaminada, talvez alguém pudesse sobreviver abaixo dela.

E foi assim que no roteiro o primeiro arco de histórias das tirinhas (batizado inicialmente de Mickey Mouse e o Homem do Amanhã), Mickey encontra o estranho serzinho em uma caverna. Com um nome impronunciável, a criatura diz que pode ser chamada de Eega Beeva e revela ser um homem do futuro. Ou melhor dizendo, um homem vindo de um lugar onde o tempo está à frente da superfície onde Mickey vive.

De acordo com a história de estreia de Gottfredson, Eega Beeva e o povo dele (Esquálidus inclusive carrega uma foto da noiva, sem nome, com ele) são seres humanos que vivem nas profundezas da Terra e passaram por um processo evolutivo diferente do que o resto da humanidade teve na superfície.

No centro do planeta o tempo correria mais rápido e estaria adiantado em cinco séculos, ou seja, Mickey encontra o novo amigo em 1947, mas ele “já estaria” em 2447.  Dois cientistas que aparecem nas tiras para analisar Esquálidus inclusive confirmam que o processo evolutivo sofrido por ele e pela população da civilização subterrânea seria o destino da humanidade dali a 500 anos.

Dotado de poderes diferenciados, alergia a dinheiro e estranhas manias que incluem colocar o “P” na frente de quase todas as palavras (além de comer naftalina! – saiba mais logo abaixo), Esquálidus é uma criatura extremamente zelosa, inocente, gentil e sincera, e que começa a ajudar Mickey e Pateta em busca de uma vida mais segura, ao mesmo tempo em que é ensinado pelo camundongo sobre os estranhos hábitos dos “humanos do passado.”

Nos três anos seguintes, o personagem roubou a cena nas tirinhas de Mickey, que praticamente foi relegado a secundário do homem do futuro. Ninguém confirma, mas os estúdios teriam dado ordem de que o personagem fosse retirado dos quadrinhos para que Mickey voltasse a ter o brilho anterior, o que efetivamente ocorreu em 11 de julho de 1950, quando foi publicada a última tira dele no arco “Mousepotamia”, promovendo o retorno do comedor de naftalina à civilização subterrânea.

Esquecido nos Estados Unidos, Esquálidus foi revivido em 1955 nas histórias em quadrinhos italianas, por meio das mãos do quadrinista Romano Scarpa. O artista italiano, porém, recriou a origem do personagem na HQ de estreia (O duplo mistério do Mancha Negra). A partir dali, ele passou a ser um alienígena e não mais um ser humano do futuro – ainda que a primeira origem tivesse sido retomada em HQs produzidas em outros países, inclusive no Brasil, pelas mãos do grande Ivan Saidenberg (1940-2009).

Além disso, o lado ingênuo de Esquálidus foi trocado por um brilhantismo e inteligência destacados.  Ele foi transformado oficialmente em um cientista genial, capaz de criar basicamente qualquer coisa. Veiculadas em especial na Europa e em outros países do ocidente, as HQs italianas tornaram Esquálidus muito conhecido nos gibis Disney, e até levaram muita gente a pensar equivocadamente que a origem do personagem era italiana.

Nos EUA, Esquálidus só voltaria a ser produzido em histórias em quadrinhos  no ano de 1988, quase  quatro décadas depois de ter se despedido das tiras, e sem tanto destaque quanto no resto do mundo. Contudo, em 2008 ganharia protagonismo na série Ultraheroes, na qual é o responsável por reunir os heróis da Disney para combater os vilões unidos em um grupo conhecido como Bad7. Com um detalhe: nas edições desta série, ele passou a falar normalmente, sem colocar a letra P na frente da maioria das palavras.

Em tempo: corre uma lenda de que o Esquálidus original dos anos de 1947 a 1950  teria inspirado Steven Spielberg a criar ET, O Extraterrestre (1982). Porém não há nenhuma afirmação registrada do cineasta sobre o fato: ele inclusive já revelou que a inspiração para ET surgiu em virtude de um triste episódio da própria infância, quando os pais se divorciaram e ele criou um amigo imaginário alienígena para preencher o vazio que sentia. Ou seja, é lenda mesmo.

Enredo

Vindo de uma civilização do centro da Terra adiantada 500 anos no tempo  ou do espaço sideral, dependendo da versão, Esquálidus é um ser bastante único não só na aparência. Ele se comunica (em todas as línguas nas quais os quadrinhos são traduzidos) colocando a letra “P” na frente de quase todas as palavras e só fala a verdade, o que muitas vezes coloca Mickey em situações inconvenientes.

Cientista brilhante, desenvolve tecnologias capazes de subverter as leis da física, viajar no tempo e no espaço, reduzir ou aumentar o tamanho de pessoas, animais e objetos…enfim, a imaginação é o limite. Em diversas HQs, em especial  o começo, também conseguia prever o futuro ou ler mentes.

O saiote que utiliza parece ser uma espécie de portal para outra dimensão, pois retira dali literalmente qualquer coisa ou objeto que precise. Tem uma séria alergia a dinheiro e à ganância de qualquer um com quem interaja. E estranhos hábitos alimentares também: nas tiras de 1947, inicialmente comia penas de pombo, mas após sofrer uma intoxicação acaba substituindo a “iguaria” – com a ajuda de Mickey – por kumquats em conserva. Kumquats, também conhecidos como laranjas-douradas ou kinquans, são pequenas frutas cítricas comestíveis.

Porém, em uma troca pitoresca feita pela tradução das HQs estadunidenses na versão italiana, a fruta foi trocada por… naftalina! O público gostou e oficialmente a dieta de Esquálidus passou a ser essa: ele se alimenta daquelas bolinhas brancas que eram utilizadas comumente dentro de armários como repelente para traças e outros insetos.

Nas histórias iniciais, além da diferença entre as culturas e civilizações de Esquálidus e de Mickey, também aparecia bastante a saudade de casa do homenzinho. Esquálidus tentava ajudar a melhorar o planeta, dava opiniões indigestas que às vezes geravam confrontos com a lei e  salvava os amigos de perigos- em uma das tiras ele até impede que Pateta morra ao cair em uma ravina.

Depois passou a ajudar Mickey a combater vilões, que muitas vezes entravam na história para roubar alguma tecnologia desenvolvida pelo próprio Esquálidus.

 

Personagens principais

Além do elenco tradicional das HQs de Mickey (inclusive vilões como João Bafo de Onça, Mancha Negra e companhia), Esquálidus é sempre acompanhado pelo seu animalzinho de estimação, Flip  – ou Pflip, como ele diz. A criaturinha também tem poderes especiais, momentos em que apresenta grande força e inteligência,  detesta ser chamado de “cachorrinho.” Esquálidus também tem (ou já teve) uma noiva, a princípio sem nome.

Em 1976, o brasileiro Ivan Saidenberg produziu uma HQ na qual faz com que Mickey vá parar na civilização de Esquálidus, e nela acabou lançando personagens locais como “vovô Esquálidus” e o “juiz Armandinho.”

Este último acaba condenando Mickey a uma punição inusitada em virtude de um crime que o herói comete sem querer. O camundongo é sentenciado a ficar fazendo basicamente nada e sendo servido por um grupo de “garotas Esquálidus”…

Os muitos nomes de Esquálidus

O nome original do personagem Eega Beeva (se fala “iga biva”) aparentemente é uma corruptela de Eager Beaver, expressão estadunidense para indicar uma pessoa que é extremamente zelosa em tudo o que faz.

O “nome verdadeiro” dele, porém, aquele que Mickey não conseguia pronunciar, acabou sendo estabelecido pela Disney como Pittisborum Psercy Pystachi Pseter Psersimmon Plummer-Push.

No Brasil, onde apareceu pela primeira vez na revista O Pato Donald 22, em abril de 1952, ele ganhou o nome de Esquálidus provavelmente em virtude da aparência. Uma a definições de “esquálido” é alguém “que aparenta desnutrição em alto grau, pálido, depauperado, magro, macilento.”

Não há registro de quem deu o nome na versão brasileira para que seja feita a confirmação, mas a suposição é válida e bem provável. O nome brasileiro, inclusive, determinou a versão em países da América Latina de língua espanhola: Escuálido.

Já na Itália, Eega Beeva foi batizado como “Eta Beta” e, em virtude de as HQs originárias daquele país terem ganho destaque na Europa, ele também é conhecido assim em nações como Portugal, Noruega, Suécia e Eslovênia.

Mas Esquálidus tem ainda nomes diferentes em países como Alemanha (Gamma)  e Espanha (Bip Bip). Uma coisa é certa: em nenhum país do mundo ele é conhecido como Pittisborum Psercy Pystachi Pseter Psersimmon Plummer-Push…

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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