Consciência Negra: Zumbi está no gibi!

20 de novembro é o Dia da Consciência Negra e – como acontece com muitos feriados nacionais – ainda que atualmente a maioria das pessoas saiba o objetivo da data (valorizar a história e a cultura negra no país e combater o racismo), muita gente ignora a razão desse dia específico ter sido escolhido. Até porque, cabe lembrar, apesar de a ideia da efeméride vir dos anos de 1970, a inclusão no calendário nacional só ocorreu em 2011 e a decretação de feriado em todo o país tem apenas dois anos, data de 2023. A razão, para quem não sabe, é que em 20 de novembro de 1695 foi morto Zumbi dos Palmares, um dos maiores (senão o maior) líderes negros do Brasil que lutou pela libertação do povo contra o sistema escravagista. Uma história que está no gibi!

Ou, melhor dizendo, nos gibis. Há diversos bons registros da história do guerreiro e líder do quilombo dos Palmares em história em quadrinhos. Alguns deles, inclusive, são mais específicos para o público infanto-juvenil e buscam explicar não só a importância de Zumbi como também de se estabelecer uma data voltada à Consciência Negra.

Cabe, antes, um pouco de contexto. A proposta de um Dia da Consciência Negra surgiu em 1971, por meio de uma associação ativista de Porto Alegre, o Grupo Palmares. Só muito tempo depois, porém, data começou a ganhar reconhecimento. O estado de Alagoas, onde ficava localizado o quilombo de Palmares, foi um dos primeiros a decretar feriado (estadual), em 1995 – mesmo ano em que o então governo federal reconheceu Zumbi como herói nacional.

Mas foi no início dos anos de 2000, mais de 20 anos antes de ser estabelecido o feriado nacional, que diversas cidades e alguns outros estados começaram a decretar seus próprios feriados de 20 de novembro. Em uma delas, Campinas, o cartunista Bira Dantas foi chamado pelo autor da lei – o então vereador Sebastião “Tiãozinho” Arcanjo (PT) –  para fazer um gibi explicando o que estava acontecendo.

Bira, como sempre, foi eficiente. Na HQ de Pardal & sua turma, datada de 2002, o garotinho negro que leva o nome de passarinho fica sabendo que a cidade tem feriado novo e acaba gerando uma discussão na escola sobre quem foi o tal Zumbi que originou a data. Teria sido um jogador de futebol, um vizinho, um padeiro, um cara com insônia? Pra criançada pouco importava: o bom é que era feriado.

A partir daí, a professora da turminha destaca que se Zumbi não fosse importante “não transformariam o seu dia em data de comemoração e de luta”, e determina que a galerinha faça uma pesquisa e apresente trabalho sobre o tema.

 

Então, por meio da apresentação dos trabalhos, o cartunista conta de maneira leve e instigante a vida de Zumbi, terminando com uma apresentação hip-hop de Pardal e companhia, e uma mensagem pelo fim do preconceito. À época o gibizinho foi distribuído gratuitamente por toda a cidade de Campinas e atualmente é item de colecionador.

 

Angola Janga

Para quem quer mergulhar mais fundo na história de Zumbi, a dica é Angola Janga: Uma história de Palmares, obra do premiadíssimo quadrinista e professor Marcelo D’Salete. Com arte maravilhosa e roteiro impecável, a Graphic Novel é fruto de 11 anos de pesquisa do autor.

Ainda que tenha em Zumbi um personagem essencial, vai muito além dele, contando a história em si do quilombo, que surgiu na Serra da Barriga em meados de 1590 (portanto mais de 50 anos antes de Zumbi ter nascido) e chegou a reunir cerca de 30 mil pessoas.

Angola Janga (“pequena Angola” ou “minha Angola”) era o nome pelo qual os moradores chamavam Palmares que, por mais de cem anos, foi como um reino africano dentro da América do Sul. Uma Angola não tão pequena, diga-se, já que tinha até capital (a fortificação batizada de Macaco) e população equivalente a das maiores cidades brasileiras da época.

Na HQ, D´Salete mostra como Angola Janga foi formada a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas- além de símbolo de liberdade para os escravizados. Épica, a Graphic Novel retrata não só a vida e morte de Zumbi como vários outros homens e mulheres que fizeram parte da história de Palmares, entre os quais Ganga Zumba (outro dos grandes líderes a se destacar na história do quilombo); Dandara, guerreira e esposa de Zumbi; o também guerreiro Ganga Zona e até mesmo o bandeirante Domingos Jorge Velho (que liderou o massacre final da comunidade).

Entre outros (merecidos) prêmios, Angola Janga – que foi lançada em 2017 e tem  432 páginas – ganhou em 2018 um Prêmio Jabuti, um Grampo de Ouro e quatro HQMix (Melhor Edição Especial Nacional, melhor desenhista, melhor argumentista e destaque internacional).

E tem mais!

Quem preferir opções de HQs mais curtas tem outras opções. Entre elas destaca-se o mais recente Zumbi dos Palmares (64 páginas),lançado em 2024 pela Editora Mostarda. O quadrinho tem argumento do escritor Orlando Nilha –  formado em Letras e especializado em literatura infantojuvenil – e arte do veterano Eduardo Vetillo, que já atuou em quadrinhos de editoras como Vecchi, Globo e Abril desenhando Os Trapalhões, Bionicão, Jana das Selvas, Chaves, Chapolin Colorado, Peninha, Urtigão e muitos outros.

Vale lembrar que a editora Mostarda tem ainda outras obras ilustradas (não quadrinhos) sobre Zumbi, como o livro da coleção blackpower – que traz biografias de personalidades negras- Dandara e Zumbi (32 páginas) e uma versão para o público infantil, de cinco a oito anos, com o mesmo nome e  48 páginas.

Por fim, o desenhista Eduardo Vetillo também assina um outro trabalho solo em quadrinhos envolvendo Zumbi: Palmares, a Luta pela Liberdade. Com 36 páginas, a HQ foi lançada em 2017 pela editora Cortez e é indicada para um público de oito a onze anos.

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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