A Moeda de Prata: um prato cheio para quem gosta de terror

Uma moeda que realiza os desejos mais íntimos  (e muitas vezes proibidos) de quem a segura ou, em alguns casos, simplesmente se depara com ela.  O preço de cada desejo, porém, é alto e cobrado em sangue e vísceras – do portador, de quem está em volta ou ambos. Essa é a premissa de A Moeda de Prata (The Silver Coin), antologia de terror em quadrinhos lançada no Brasil pela editora Taverna do Rei. Com 400 páginas e tratamento editorial primoroso, a obra reúne os 15 fascículos lançados nos EUA originalmente entre 2021 e 2022 pela Image Comics.

Idealizada pelo quadrinista Michael Walsh, que desenha com maestria todos os “capítulos”, A Moeda de Prata traz histórias elaboradas por 15 diferentes autores, entre os quais Chio Zdarsky (premiado com um Eisner Awards por Sex Crimes e atual roteirista de Peter Parker: The Spectacular Spider-Man); Kelly Thompson (atual roteirista da Mulher-Maravilha no Universo Absolute e também vencedora do Eisner por uma série da Viúva Negra em 2021); e Jeff Lemire, criador da aclamada Sweet Tooth, série de quadrinhos premiadíssima que depois virou seriado da Netflix.

A tal moeda é o fio condutor das histórias. Conforme o leitor irá descobrir, a maldição em torno dela se origina em 1492 na puritana Nova Inglaterra. Acusada de bruxaria, uma curandeira chamada Rebekah Goode é enforcada, não sem antes amaldiçoar a moeda de prata que a pessoa que a traiu recebeu por denunciá-la.

A partir daquele momento surge um olho de cabra no meio da moeda e quando o bichinho abre, prepare-se para banhos de sangue, decapitações, pessoas queimadas, afogamentos e tragédias em geral. Assim, nas demais HQs – ou capítulos – quem está lendo acompanha a grotesca trajetória do objeto através dos tempos, até um futuro distópico em 2467.

Mestre na utilização das cores, Michael Walsh mantém uma estética sombria e melancólica em todos os capítulos. Já as narrativas, ainda eu sempre caminhem para um fim sanguinolento e abominável, variam bastante, trazendo terror para os mais variados gostos.

Algumas histórias, como o capítulo As Garotas do Verão (Girls of Summer), roteirizado por Kelly Thompson (e que foi distribuído pela editora como um gibizinho individual no Dia do Quadrinho Grátis de 2025), partem de fórmulas conhecidas.

Em 1993, uma menina vai acampar, sofre bullying das demais, ouve uma história terrível sobre um suposto serial killer que teria atuado na região e nunca foi encontrado, se perde na mata após sofrer um ataque das valentonas e encontra uma cabana abandonada na qual acaba entrando, apesar do alerta de um inconspícuo corvo.

Impossível não notar elementos de uns 100 filmes slasher nesta pequena descrição, mas não se trata aqui de seguir fórmulas e sim de homenagear o gênero e dar ao público o que ele gosta. Sim, você já sabe que o acampamento irá se transformar em um campo de massacre. Mas ainda assim, sendo fã de terror, gosta e vibra com o final da história.

Já em O Ingresso (The Ticket), ambientada em 1978, uma banda decadente de rock encontra a moeda e o guitarrista decide usá-la da como palheta para tocar. Do nada, a banda se torna um sucesso absoluto e, claro, haverá um preço a ser pago. Digamos apenas que a expressão “incendiar o público” passará a não ser tão subjetiva…

Enfim, cada um no próprio estilo, os roteiristas vão se sucedendo em HQs que se conectam exclusivamente pela moeda e pelo talento de cada um deles e de Walsh. O resultado é um belo leque de diferentes histórias de terror, com potencial para tirar o sono de muita gente.

Uma curiosidade divertida é que a editora Taverna do Rei presenteou quem comprou a obra em pré-venda com uma réplica colecionável da moeda de prata do título. Resta saber se quem recebeu, depois de ler os quadrinhos, teve coragem de guardar a moedinha. Ou se ainda está vivo depois de ter se tornado o portador dA Moeda de Prata

NOTA DO CRÍTICO: Esse é bom

Djota Carvalho

Dario Djota Carvalho é jornalista formado na PUC-Campinas, mestre em Educação pela Unicamp, cartunista e apaixonado por quadrinhos. É autor de livros como A educação está no gibi (Papirus Editora) e apresentador do programa MundoHQTV, na Educa TV Campinas. Também atuou uma década como responsável pelo conteúdo da TV Câmara Campinas e é criador do site www.mundohq.com.br

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