Ela nasceu em Barueri (SP), tem nome de uma personagem lendária (Bilquis, a Rainha de Sabá) e, sem nenhum trocadilho, já se tornou uma verdadeira lenda dos quadrinhos mundiais. Dona de um traço de beleza única, detalhista e inconfundível, Bilquis Evely é uma das artistas mais celebradas da atualidade e tem na estante um Eisner Awards como melhor desenhista/artefinalista de 2025. Um ano antes de levar a premiação, porém, a brasileira – que já vivia um momento de ascensão no mercado das HQs – ganhou (ainda) mais notoriedade junto ao público quando o diretor James Gunn anunciou que o filme de Supergirl teria como base a série Supergirl: Woman of Tomorrow, desenhada por ela.
Coincidência ou não, a entrada de Bilquis no mundo dos quadrinhos tem a Supergirl na origem. Nascida em 20 de julho de 1990, ela nunca teve grande interesse por histórias em quadrinhos até que, quando tinha 14 anos, entrou em uma banca de jornal e se deparou com uma revista que tinha a heroína na capa. “Era a Supergirl desenhada pelo Ed Bennes, na capa estava escrito que era um desenhista brasileiro. Eu não conhecia nada desse universo, tive pouco contato com quadrinhos na infância, criava histórias com imagens, mas não relacionava com HQs. Achei a coisa mais perfeita do mundo e ali tive absoluta certeza que ia trabalhar com aquilo.”
Para realizar a vontade de desenhar HQs, Bilquis se tornou aluna da antiga escola Impacto Quadrinhos, onde teve acesso, inclusive, a autores clássicos como Alex Raymond (Flash Gordon) e Hal Foster (Príncipe Valente), que afirma estarem entre suas grandes influências. Em 2009, apareceu a primeira chance no mercado: Bilquis passou a ser desenhista da revista Luluzinha Teen e sua turma – publicação criada na esteira de Turma da Mônica Jovem. Foi a quadrinista da HQ da edição nove até a 38, aproveitando para testar e aprimorar as próprias técnicas (ela conta que na revista trabalhou com desenho a caneta, pincel, digital e outros meios).

Em 2012, Bilquis Evely foi chamada pelo mercado americano, aparecendo inicialmente na editora Dymamite, onde trabalhou em títulos como Shaft e Doc Savage. Em 2015 recebeu o primeiro convite para trabalhar na DC Comics, da qual acabou se tornando artista exclusiva.
O primeiro trabalho foi para a franquia Bombshells, que traz um mundo alternativo dos anos de 1940 na qual super-heroínas lideram o combate contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. E mais uma vez Supergirl cruzou o caminho de Bilquis: ela foi a personagem principal das HQs desenhadas pela brasileira.

Na sequência veio Sugar and Spike (com roteiros de Keith Giffen), um quadrinho -até aqui – inédito no Brasil. Nele, um herói e uma heroína que foram publicados de 1956 a 1971 como crianças, são atualizados para uma dupla de jovens metahumanos investigadores. Os casos investigados por eles são fantásticos: o argumento recupera histórias bizarras que um dia foram publicadas pela DC e as transformam em um caso para os dois investigarem. Por exemplo: nos anos de 1950, Batman teve uniformes coloridos (The Rainbow Batman, em DC Comics #241) e até um de zebra (The Zebra Batman, Detective Comics #275). Em uma das aventuras de Sugar e Spike, esses uniformes são roubados e eles investigam o caso.

Em 2016, Bilquis Evely começou a desenhar histórias da Mulher Maravilha, substituindo a desenhista australiana Nicola Scott na série DC Rebirth, com roteiros de Greg Rucka.
Ela também ilustrou algumas edições de Lazarus, outra HQ roteirizada por Rucka, bem como algumas histórias de Batman (chegou ainda a se aventurar em um roteiro para o Homem Morcego em Batman Black and White), um anual do Sombra e belas capas para The Flintstones, Harley Quinn, Scooby Apocalypse e Plastic Man .

Contudo, em 2018 veio aquele que seria um divisor de águas na carreira de Bilquis: The Dreaming. O enredo das HQs ambientadas no Sonhar possibilitou que a brasileira (fã declarada do escritor CS Lewis e das Crônicas de Nárnia) explorasse um estilo que ama: a fantasia. Os quadros, páginas e cenários desenhados por ela são verdadeiras obras de arte e chamaram a atenção da crítica e do público.
Interessante notar que, diferentemente de muitos artistas que desenham digitalmente, até mesmo para conseguirem cumprir prazos exíguos, Bilquis Evely desenha tudo a pincel. “Usar o pincel é difícil no começo, mas depois que você se adapta é a ferramenta mais rápida, porque possibilita que o artista saia imediatamente do traço superfino pro supergrosso, do lisinho para a textura. Eu até tentei fazer digital, mas não me adaptei e meu trabalho ficou mais lento”, conta.

A obra também foi o primeiro trabalho dela com o colorista brasileiro Matheus “Mat” Lopes. As cores de Mat, que viria a trabalhar com ela nos projetos futuros, ressaltaram ainda mais o traço fantasioso de Bilquis, remetendo a imagens dos quadrinhos de Moebius e outros mestres dos quadrinhos europeus. Mat também viria a ser tornar namorado de Bilquis alguns anos depois da participação dela em The Dreaming, que ocorreu de 2018 – ano em que foi eleita melhor artista de desenho pela revista Entertainment Weekly – a 2020.

Saindo das HQs do Sonhar no início da pandemia do Coronavírus, Bilquis (que hoje trabalha de oito a dez horas por dia e descansa aos finais de semana, mas antes chegava a virar noites desenhando) revela que estava cansada. Porém, veio o convite que mais uma vez mudaria a carreira dela de patamar: desenhar a minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow, roteirizada por Tom King e colorizada por Mat Lopes.

Considerado um dos melhores quadrinhos publicados nas últimas décadas, a série retoma a personagem criada em 1959 como prima do Superman e que teve uma “vida” errática ao longo dos anos: ela morreu na série Crise das Infinitas Terras, nos anos de 1980; foi retomada como uma alienígena transmorfa anos depois; voltou a ser uma kryptoniana prima do Superman em 2004 e teve ainda outros reboots.
Em Woman of Tomorrow, Supergirl sai para “bebemorar” o aniversário de 21 anos em um planeta com sol vermelho (e onde, portanto, sente os efeitos do álcool) e acaba envolvida em uma odisseia para salvar uma órfã (e ajuda-la a se vingar) de um vilão que matou o pai dela.

Com os desenhos lindíssimos de Bilquis e argumento inteligente de King, a série acabou sendo escolhida por James Gunn para ser a base do filme Supergirl, que deve estrear em 2026.
Diga-se de passagem, a dupla e o colorista Mat Lopes foram convidados para o set da produção e Bilquis foi (a única) autorizada a tocar no uniforme que na HQ foi desenhado por ela – e que foi exibido posteriormente na CCXP 2025.

A atriz Milly Alcock, que protagoniza o filme, também fez questão de ser fotografada com o gibi em mãos. Supergirl: Woman of Tomorrow, rendeu a Bilquis a primeira indicação para o prêmio Eisner de melhor desenhista.

Em 2024, Bilquis e King reeditaram a parceria em Helen of Wyndhorn , uma Graphic Novel (originalmente publicada em seis edições) de fantasia – com direito a sword and sorcery – mais uma vez muito vem argumentada por King e com desenhos (adivinhe?) deslumbrantes da brasileira.

O resultado foi não só uma nova indicação como também a conquista do prêmio Eisner de melhor desenhista/artefinalista concedido no ano de 2025. Com isso, Bilquis Evely passou a integrar o seleto panteão de artistas do Brasil que ganharam um Eisner e a segunda mulher brasileira a conquistar a honraria que é considerada o Oscar dos quadrinhos.
A primeira foi Adriana Melo, que em 2019 foi uma das autoras de Puerto Rico Strong, que recebeu o prêmio de melhor antologia.

Também em 2025, Bilquis foi muito celebrada no palco Thunder da CCXP – ela já havia participado outras vezes do Artist Valley do evento, mas desta vez foi um dos destaques da Comic Con, conversando e sendo ovacionada pelo público.
Flamenguista, fã de feijão tropeiro e apaixonada por futebol e pelo filme A Princesa e o Plebeu (com Audrey Hepburn e Gregory Peck),Bilquis Evely com certeza ainda voará muito alto nos próximos anos. Mas quem conversa com ela ou tem a oportunidade de a ver em eventos nota que ela ainda mantém duas características marcantes: a timidez e a humildade.
“Sou só uma pessoa que fica ali no meu cantinho desenhando, não tenho nada de espetacular”, costuma dizer. A modéstia, claro, cai bem a qualquer um. Mas no caso de Bilquis Evely, não se engane: ela é, sim, espetacular.




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