Histórias em Quadrinhos são uma ferramenta eficiente para informar, educar e conscientizar as pessoas sobre os mais diversos temas. Mais do que uma afirmação, esse é um fato conhecido e comprovado há muito tempo. Não à toa o gênio Will Eisner, após retornar da II Guerra Mundial (onde foi colocado pelo Pentágono para produzir histórias educativas aos soldados estadunidenses no front), abandonou o personagem mais famoso que havia criado, The Spirit, para estudar as HQs como ferramentas educativas e utilizá-las desta forma. No Brasil, outro ícone dos quadrinhos, Mauricio de Sousa, desde 1997 mantém um Instituto para desenvolver projetos por meio de gibis abordando questões sociais de forma informativa e divertida. Já na cidade de Campinas, desde 2022 os quadrinhos vêm sendo utilizado como uma ferramenta em uma luta fundamental para a sociedade brasileira: registrar a História, com agá maiúsculo, do povo negro e combater o racismo.
Com (a bela e colorida) arte de João da Silva e roteiros de Silas Eduardo, a HQ Territórios Negros: nossos passos vêm de longe! é fruto de uma iniciativa de mandato da vereadora Guida Calixto (PT), que tem como objetivo mapear e homenagear espaços, organizações, manifestações e fatos históricos do povo negro na cidade. A ideia do gibi, que é distribuído gratuitamente e teve a terceira edição lançada neste Mês da Consciência Negra, é convidar o leitor a se unir à construção de uma sociedade antirracista, que reconheça e valorize a história da população negra na cidade.

“Nosso objetivo é fortalecer a luta antirracista e garantir que essa história não seja apagada. A HQ tem sido um instrumento poderoso para dialogar, especialmente com os jovens, sobre a verdadeira história de Campinas, que inclui a luta e a resistência do povo negro”, afirma Guida Calixto.
Um ponto bastante interessante da publicação é que ela é ampliada a cada edição, com o acréscimo de mais informações transformadas em novas páginas de quadrinhos por João da Silva. Assim, a primeira publicação (da qual foram distribuídos 12 mil exemplares) tinha 16 páginas. A segunda edição, de maio de 2024,veio com 32 páginas e teve 13 mil exemplares chegando às mãos dos leitores. Já esta terceira edição, lançada oficialmente no último dia 15, está com 36 páginas e a expectativa é de que bata os números da tiragem anterior.

Guida Calixo conta que, para além dos leitores regulares, a obra está sendo adotada amplamente por professores da rede pública e particular, integrantes de movimentos sociais, coletivos culturais e ONGs. “O material serve como base para aulas, projetos e discussões sobre cultura afro-brasileira, promovendo a educação antirracista e contribuindo para a implementação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. A versão atualizada e ampliada do material consolida-se como uma importante fonte de pesquisa e apoio pedagógico”, comemora.
Para ampliar o acesso à informação, a HQ é disponibilizada gratuitamente: cidadãos e instituições que tiverem interesse em receber um exemplar físico em casa, via Correios, podem solicitar através do formulário online no link https://www.cidadaoparticipa.com.br/vereadoraguida

Guia histórico
Vale ressaltar que Territórios Negros: nossos passos vêm de longe! não é uma HQ tradicional, daquelas com personagens fixos e roteiro cheio de aventuras – ainda que a história traga à tona vários heróis (e alguns vilões) de carne e osso. Também não há diálogos e nem sequer balões. E eles não fazem falta, é bom destacar.
Por meio de recordatórios situando o leitor sobre o que está sendo mostrado, o gibi se assemelha mais a um completo e ricamente ilustrado guia da história e da cultura negra com foco na cidade, que, vale lembrar, carrega a triste pecha de ter sido uma das últimas a efetivamente acatar o fim da escravatura no país.

Assim, o “narrador” inicia a HQ relembrando a história milenar dos povos africanos, passa para fatos históricos da cidade – como a execução do escravo adolescente Elesbão, o largo São Benedito (que foi “cemitério dos negros” e local da primeira igreja erigida pelo povo preto) e a escola Perseverança. E segue até os tempos atuais destacando fatos, locais, associações, ações e entidades representativas da população negra.

Com impressionante poder de síntese, ainda que alguns textos ocupem boa parte dos quadros, o roteiro de Silas Eduardo despeja centenas de anos de informação sem cansar o leitor. Pelo contrário, a combinação harmoniosa da narração com o traço simples, leve e agradável de João da Silva renovam o prazer da leitura a cada página virada.

Cabe destacar que as últimas páginas trazem um “serviço” da própria vereadora, elencando Projetos de Lei de autoria dela que promovem a inclusão e combatem o racismo na cidade de Campinas.
E, por uma razão infeliz, há ainda uma história curta na qual a parlamentar aparece nos quadrinhos. Nela é relatado um episódio de 2022 na qual outro integrante da Câmara Municipal criou polêmica usando a HQ, em virtude de a última página da revista trazer a quadrinização de uma cena real ocorrida na cidade, da 20ª Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo e a Discriminação.

Entre as faixas que eram carregadas e foram transpostas para o quadrinho, uma continha a frase “paz entre nós, fogo nos racistas”, o que segundo o detrator era um incentivo à violência e não deveria estar sendo distribuído a crianças em escolas.
Indo ainda mais longe, houve acusação de que os gibis “que pregavam a violência” eram feitos com dinheiro público e o pedido de uma abertura de Comissão Processante para cassar a vereadora. A proposta foi rejeitada por um placar de 28 a 3 e o triste episódio virou parte integrante da revista, antecedendo a tal página que retrata a marcha e permanece firme e forte nas edições que vieram após a primeira.

Em tempo: a quem interessar possa, esta terceira edição tem impressão bancada por contribuições de um grupo que apoia o gibi e é composto por cerca de cem pessoas – que pagam cada uma R$ 30,00 por mês, em um total de doze parcelas…




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